Caderno de Sábado

Alvin L: O céu deve ser assim

Jornalista e crítica musical Ananda Zambi trata em artigo do legado do compositor de pop rock, Alvin L, morto em 5/4, e parceiros de nomes como Marina Lima, Capital Inicial e Frejat

No domingo, dia 5 de abril, Alvin L, um dos principais compositores do pop rock brasileiro, faleceu no Rio de Janeiro, aos 67 anos, de mal súbito enquanto dormia em sua casa.
No domingo, dia 5 de abril, Alvin L, um dos principais compositores do pop rock brasileiro, faleceu no Rio de Janeiro, aos 67 anos, de mal súbito enquanto dormia em sua casa. Foto : Flávio Colker / Divulgação / CP

No domingo, dia 5 de abril, Alvin L, um dos principais compositores do pop rock brasileiro, faleceu no Rio de Janeiro, aos 67 anos, de mal súbito enquanto dormia em sua casa. Autor de quase 250 obras registradas, era mais conhecido por ser grande parceiro musical de artistas como Marina Lima, Capital Inicial, Ana Carolina, Frejat, Leo Jaime, Leoni, Ritchie, Autoramas e outros. Mas tão genial quanto seu talento como letrista, era a sua personalidade profundamente cativante.

Enquanto uma pessoa comum, ao ter uma DR, esnobaria a outra com palavras literais e genéricas, Alvin preferiu falar, em “Eu Vou Estar”: Eu não vou pro inferno / Eu não iria tão longe por você. Ao contar a história de “Natasha”, uma adolescente rebelde e à frente do seu tempo, a personagem criada por ele e por Dinho Ouro Preto caiu nas graças até das patricinhas do Brasil com o refrão: O mundo vai acabar / E ela só quer dançar. Sem falar em “Não Sei Dançar”, que cada verso sozinho já funciona como um tapa na cara, e juntos compõem uma das músicas mais lindas e melancólicas do cancioneiro popular brasileiro (E tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar / Ou outra coisa pra lembrar / Se você quiser / Eu posso tentar, mas / Eu não sei dançar tão devagar / Pra te acompanhar). Alvin L até traduziu, em “Tudo que Vai” (parceria com Toni Platão e Dado Villa-Lobos), o peso do luto que nós, admiradores e amigos, estamos sentindo agora com sua repentina e precoce partida: Eu quase posso tocar o silêncio.

Se seus maiores sucessos (na voz de outras pessoas) já foram meu hiperfoco durante a pandemia a ponto de despertar a minha curiosidade também para Arnaldo José Lima Santos – a pessoa física – , imaginem a minha euforia quando conheci a maravilhosidade de suas músicas mais lado B, que foram produzidas em início de carreira, com a criatividade fervilhando e sem pressão da indústria fonográfica. Por exemplo, sua banda new wave Rapazes de Vida Fácil lançou apenas um compacto, em 1983, com as músicas “Adriana na Piscina”, que chegou a tocar bem nas rádios cariocas, e “Má Reputação” — que, na minha opinião, é mais legal ainda que a primeira. O disco “Automobilia” (1994), da banda Sex Beatles, da qual era guitarrista e mentor, é uma obra-prima do glam rock nacional, com pérolas geniais, como “Na Direção”, “Más Companhias”, “Na Trilha de Salinas” e “Escorpiões”. Em 1997 enfim lançou seu primeiro e único disco solo, Alvin, de arranjo minimalista e atmosfera melancólica com maneiras muito peculiares de descrever as emoções inerentes ao ser humano. “Aprender”, por exemplo, te deixa tão entorpecido quanto uma mistura de whisky com clonazepam (o verso “A voz tem som de cigarros acesos escutando Sinatra cantar” é uma testemunha disso). E quando normalmente falamos com pudor sobre estarmos apaixonados com frases genéricas e previsíveis, Alvin resolve cantar, em “24 dias por hora”: Ouvindo a grama crescer / Eu devia saber ir embora / E não deixar você / Ver meu rosto se contorcer de vontade.

Sempre me despertou curiosidade o fato de Alvin produzir canções tão densas e ao mesmo tempo ter um estado de espírito ser tão leve e satisfeito com a vida de compositor, longe dos palcos e dos holofotes. Ser low-profile e acolhedor. Ter tantos amigos e gostar muito de ficar sozinho. Ele já falou em entrevista que, em suas letras, gostava de explorar as contradições do ser humano. Talvez até pelas suas próprias terem sido tão evidentes, e interessantes.

Mas algumas características sempre estavam presentes em sua personalidade, como a doçura, a generosidade e o senso de humor de milhões. Meu primeiro contato com Alvin ocorreu quando ele lançou o livro “O veneno dos pequenos detalhes” em 2020, e tive a oportunidade de entrevistá-lo. Por ele não ter redes sociais, se eu tivesse qualquer contato com ele algum dia, para mim, eu teria zerado a vida. Mas graças a Cris Braun, cantora e vocalista dos Sex Beatles, o impossível aconteceu, e menos de 48 horas depois do lançamento, eu e Alvin já estávamos conversando. Ao contar para ele que sua música tinha mudado minha vida, ele riu e disse: “Espero que para melhor”. Estava realizada, mas ainda ficaria mais.

Em 2022, eu e meu amigo Fabio Shiraga viramos social media da banda, quando retornou aos estúdios após 27 anos para lançar um single duplo chamado “Oui Je Regrette Tout!”, que mantêm a sonoridade visceral, as diversas referências literárias e as metáforas improváveis. Assim, acabamos nos aproximando de Cris, Ivan, Vicente, Marcelo e Alvin, não só por causa de conversas profissionais, mas também por interesses em comum, como rock‘n’roll e viagens. Por exemplo, Alvin sempre nos mandava fotos de suas andanças. Temos registros dele na França, na Holanda, na Inglaterra, no Egito, nos Estados Unidos, no Japão e na Alemanha. Ele adorava viajar – principalmente para ir a feiras de vinil – e compartilhar essa alegria com os outros. A gente aproveitava pra incentivá-los a fazerem pelo menos um show de lançamento, mas além de cada integrante estar morando em uma cidade diferente agora, Alvin L tinha pânico de palco, e sempre recusou sem pensar duas vezes.

Na Páscoa de 2023, fui ao Rio de Janeiro a passeio, e como sou cara de pau, convidei-o para tomarmos um café. Ele não só topou como foi e foi pontual, para minha surpresa (para quem não sabe, cariocas adotam muito o estilo de vida “vou ver e te aviso”). Ele, tão afável pessoalmente quanto on-line, era tagarela, tinha interesse genuíno pelo outro e atraía olhares. Nesta noite, Alvin me convidou para jantar, talvez, no restaurante mais chique que eu já fui, com tudo o que tinha direito. Como ele era infinitamente mais culto do que eu, confesso que tinha medo do papo ficar truncado. Mas Alvin, tão versátil quanto na música, conseguia conversar com gente dos 18 aos 80 anos, tamanho repertório. Se acabasse o assunto sobre cultura? Tudo bem, falávamos de coisas da vida, ou de “pé na bunda” mesmo (e ele tinha um jogo de cintura magistral para não expor sua vida pessoal) – Ele me deu altos conselhos que eu já pus em prática. Alvin também não nos poupava de algumas histórias de bastidores de seus amigos globais.

Alvin L e Ananda Zambi em um dos quatro encontros entre eles, no Rio de Janeiro | Foto: Acervo Pessoal / Ananda Zambi / CP

O encontro foi tão bom que, antes de voltar a Porto Alegre, resolvi deixar um chocolate de lembrança na portaria do seu prédio no Flamengo. “Estou compondo em casa, se quiser subir”, disse ele. Ao chegar no apartamento, achei que só ia entregar e descer, quando falou: “Vamos comer. Bons momentos precisam ser compartilhados”. Acabou que fiquei umas duas horas lá, comendo, conversando e ouvindo vinil (Alvin era um colecionador voraz). Mais um atestado de gentileza e generosidade dele.

Nos encontramos quatro vezes no total. A última foi no dia 14 de março deste ano, também no Rio. Eu, que sou atrasada para tudo, cheguei com 10 minutos de antecedência. Passamos uma hora nos atualizando da vida, ele contou por cima da briga entre dois integrantes de uma famosa banda de rock nacional dos anos 1980 e resolvi confirmar se ele realmente tinha se aposentado: “Sim, porque eu não tenho mais nada para dizer. Tudo já foi dito”.

Três anos depois do nosso primeiro encontro, 20 dias depois do último e quatro dias depois da nossa última troca de mensagens, a voz de Alvin L se calou de vez, sem deixar recado. Nossa amizade em construção foi interrompida sem explicação. Mas sem dúvida alguma ficam apenas lembranças boas, e sou extremamente grata por todas elas. A mensagem que eu daria agora para ele, se pudesse, seria a mesma que já havia lhe dado em 2020: Obrigada por mudar a minha vida. Só que agora não só artisticamente; também humanamente. Aprendi com ele, mais do que sobre música, a dar e receber afeto. E acredito que ele gostaria de saber – se não fosse a precocidade – que morreu dormindo num domingo de Páscoa. Como ele mesmo disse, em parceria com Marina e Antonio Cicero: O céu deve ser assim. É assim que vejo Alvin L.