Conto como Dona Mafalda me contou. Foi numa manhã de sábado, que sempre imagino ensolarada. Um pequeno caminhão estaciona diante da casa de Erico Verissimo na rua Felipe de Oliveira, bairro Petrópolis, em Porto Alegre. Dentro dele estão algumas caixas com muitos de livros em português e espanhol. São obras que o escritor escolheu na Biblioteca Pública para a grande aventura. Para lê-las em sua casa, precisou de uma autorização especial do governador do Estado. Sim, antes de iniciar este romance imenso, ele tem que mergulhar a fundo na história do sul do Brasil.
Entre esses livros, no entanto, enxergo sempre um alienígena. Nunca perguntei, mas sinto que E o vento levou..., obra à qual Margareth Mitchel dedicou vinte anos de vida, está na gênese de O Tempo e o Vento. Cronologicamente, tudo se ajusta. O filme baseado no livro encantava o mundo. A saga do sul dos Estados Unidos pode ter deixado uma semente de ouro na imaginação do escritor gaúcho. Scarlett O’Hara estaria, assim, no DNA de Ana Terra.
A verdade é que as primeiras linhas de O Continente já devolvem o cruzaltense às suas origens:
Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão.
A imaginação de Erico volta à terra natal para escrever a obra de sua vida. Assim, nada de estranho que tenha escolhido o sobrenome Terra para a família de Ana. E Cambará, nome guarani de uma árvore nativa de seus pagos, para o Capitão Rodrigo. O escritor deixara há muitos anos sua pequena cidade em busca de horizontes mais amplos. E fora fiel a essa decisão. A prova é que seus livros, até aquela noite fria de lua cheia, só se ocuparam de temas urbanos. E ele próprio andava muito longe de suas raízes.
Raiz, palavra mágica, principalmente no plural, como diz Pablo Neruda em “Confieso que he vivido”. E as raízes mais profundas de Erico são missioneiras. Por isso, o segundo capítulo do livro se intitula A fonte e começa no ano em que os guaranis terminaram a construção da Catedral de São Miguel Arcanjo:
Naquela madrugada de abril de 1745, o padre Alonzo acordou angustiado. Seu espírito relutou por alguns segundos, emaranhado nas malhas do sonho, como um peixe se debate na rede, na ânsia de voltar a seu elemento natural.
Por sorte nossa, Erico Veríssimo conseguiu escapar da rede. Embora tenha escrito excelentes livros urbanos, o elemento natural do escritor era a terra natal. E teve que voltar a ela para escrever seu livro maior.
Uma das mais belas edições de O Tempo e o Vento, aquela ilustrada por Nelson Boeira Faedrich, traz como prefácio o ensaio de Mozart Pereira Soares denominado A mulher na obra de Erico Veríssimo. Contou-me o professor Mozart que foi o próprio autor quem o convidou para essa apresentação, encantado que outro missioneiro tivesse tão bem apanhado a sua obra.
Mozart Pereira Soares nos revela com profundidade as diferentes abordagens do autor frente às personagens de ambos os sexos. Ressalta que, para os homens, essa apresentação é direta. Depois de um rápido retrato físico, não raro em traços caricaturais, ele nos oferece um esboço da fisionomia moral do personagem que passa a agir. As mulheres são apresentadas de maneira inversa. Nunca direta e cruamente, mas como que refratadas pela ambiência em que se movem.
Vamos ver como Erico nos apresenta sua mais famosa personagem feminina, nas primeiras linhas do capítulo a ela dedicado:
Sempre que me acontece alguma coisa importante está ventando, costumava dizer Ana Terra. Mas entre todos os dias ventosos de sua vida, um havia que lhe ficara para sempre na memória, pois o que sucedera nele tivera a força de mudar-lhe a sorte por completo. Mas em que dia da semana tinha aquilo acontecido? Em que mês? Em que ano? Bom, devia ter sido em 1777: ela se lembrava bem porque este fora o ano da expulsão dos castelhanos do território do Continente. Mas na estância onde Ana vivia com os pais e os dois irmãos, ninguém sabia ler, e naquele fim de mundo não existia calendário nem relógio. Eles guardavam de memória os dias da semana; viam as horas pela posição do sol; calculavam a passagem dos meses pelas fases da lua; e era o cheiro do ar, o aspecto das árvores e a temperatura que lhes diziam das estações do ano. Ana Terra era capaz de jurar que aquilo acontecera na primavera, porque o vento andava bem doido, empurrando grandes nuvens brancas no céu, os pessegueiros estavam floridos e as árvores que o inverno despira, se enchiam outra vez de brotos verdes.
Nessa descrição da terra sulina, do seu estranho sabor naquele tempo, o escritor nos revela a imensa solidão de Ana no pampa varrido pelo vento. É a futura mãe de todos os gaúchos, ainda muito jovem, que sente no corpo o pulsar da primavera. Caminha em direção à sanga, equilibrando sobre a cabeça uma cesta de roupa para lavar. No pensamento, sonha em partir para um local mais povoado, Rio Pardo, Viamão, ou até mesmo voltar para a Capitania de São Paulo, onde nasceu. Mas seu destino a espera logo ali na frente.
Um homem caído de borco, os braços abertos em cruz, a mão esquerda mergulhada na sanga.
Ana tenta recuar, mas é tarde. Ela é o símbolo da mulher que irá povoar essas terras imensas. É um elo da nossa miscigenação que começa a se plasmar. Ao entregá-la a Pedro Missioneiro, o escritor exige respeito ao nosso sangue indígena. E o faz também em causa própria. Erico Verissimo carrega, bem visível em seus traços fisionômicos, muito dessa origem guarani.
Assim, Ana Terra passa a ser a mais importante ancestral da família imaginária Terra Cambará e também da própria etnia do escritor. Neta de um paulista, que ganhou uma distante sesmaria por seus feitos de guerra, Ana vai unir em seu filho Pedro duas das vertentes que mais honram a nossa formação histórica: a dos tropeiros de Sorocaba e Laguna e a dos missioneiros dos Sete Povos.
Interessante também, uma vez que a personagem é certamente um símbolo da nossa terra em seus primórdios, transcrever um trecho do capítulo que nos revela a opinião do autor sobre a origem dos nossos conflitos agrários, que me levou a escrever o livro Ana Sem Terra:
O Continente ia sendo aos poucos dividido em sesmarias. Isso seria muito bom, se houvesse justiça e decência. Mas não havia. Em vez de muitos homens ganharem áreas pequenas, poucos homens ganhavam campos demais, tanta terra que a vista nem alcançava.
E foi nessa terra que a mulher branca se uniu ao indígena. O erotismo xucro da paixão de Ana Terra por Pedro Missioneiro é de uma pureza natural, telúrica, descrito para revelar o drama de todas as mulheres prisioneiras da solidão.
Arrastada à sanga pela música da flauta de Pedro, Ana sente nas solas dos pés a terra morna do chão. Mais uma vez Erico, que escreveu esta narrativa numa época de muitos preconceitos, mesmo sem usar metáforas transforma o ato de entrega numa cena quase mitológica. Como Anteu, Ana ganha a energia da terra através dos pés descalços. Como as heroínas de Homero e Sófocles, ela cumpre à risca o seu destino. E Pedro também. Tanto assim que, meses depois, quando Ana está grávida e o convida para fugir, ele se refugia no misticismo para cumprir seu fado:
Demasiado tarde. Voy a morrer. Eu vi. Vi quando dois homens enterraram mi cuerpo cerca de un árbol. Demasiado tarde.
Pedro é assassinado pelos irmãos de Ana e enterrado perto de uma árvore. Demasiado tarde para ele, símbolo da nação Guarani, fugir do destino trágico do seu povo. Mas não é tarde para o filho que vive no corpo de Ana Terra. Um mestiço destinado a levar seu sangue e o de seus algozes através dos séculos, per omnia saecula saeculorum, como ele diria. E Erico narra esse momento de maneira genial:
(...) nesse mesmo instante o filho começou a mexer-se em suas entranhas e ela passou a brincar com uma ideia que dali por diante lhe daria a coragem necessária para enfrentar os momentos duros que estavam por vir. Ana trazia Pedro dentro de si. Pedro ia nascer de novo e portanto tudo estava bem e o mundo no fim das contas não era tão mau.
Tudo que acontece daí em diante com Ana Terra, inclusive a cena bárbara em que é violentada, não a desviará jamais do seu caminho. Porque, no romance, ela representa a gênese da terra e da mulher gaúcha.
Sim, sejamos gratos a Erico Verissimo. Seguramente, ele criou Ana Terra para ser a mãe imortal de todos nós, homens e mulheres, que nascemos nestas terras varridas pelo vento sul.