A dramaturgia teatral persiste há séculos, mediante textos e encenações que deslindam a condição humana na presença corporal e nos conflitos que sustentam a cena. A partir de aparatos e de recursos variados, um fio vital move gestos, vozes, luzes, som e vestimentas para narrar diferentes histórias, sob a vigilância do deus Dioniso, noteatro grego, circunscrevendo a sistematização das formas da tragédia e da comédia, conforme Aristóteles apontou sobre a “arte poética”. Ambas vão abordar a relação com a vida, as problemáticas humanas e a finitude, permeando o trágico e o cômico nas situações mais profundas e ontológicas na religião, na política e na existência que finda, em circunstâncias situadas nos gêneros teatrais relativamente estáveis.
Os textos clássicos permanecem dialogando com a contemporaneidade e a tensionando. Em nossas vidas singulares, a arte dramática traça marcas profundas e questionadoras por meio de uma sutileza artística capaz de afetar os espectadores e os leitores. Estão na nossa alma cultural e subjetiva de narrativas e personagens do porte de Antígona, a irmã e filha de Édipo com Jocasta, e de Hamlet, filho do rei morto da Dinamarca e sobrinho do usurpador Cláudio. Em ambas tragédias, há fatores didáticos e relacionais entre os jogos discursivos e os de poder, nas sociedades em transformação e com novas proposições de organização de valores fundamentais, presentificados num palco/mundo. Isso tudo se encontra no espetáculo de corpo, vozes, palavras, movimentos, luz e som, em busca de determinado efeito catártico em alta densidade no público.
Em destaque, a tragédia chega para despertar o sono da realidade e para dar choques na realidade objetiva e na subjetiva dos espectadores, ao acompanhar a rede vital das personagens, cujos destinos e percursos abalam parte do que estava velado para a própria personagem e para os receptores da obra teatral, como o inconsciente que não se mostra puro e na totalidade, apenas pode semidizer sua verdade, ou seja, dizer de nossa relação com o próprio desejo radical. Na perspectiva psicanalítica, tal desejo que nos estrutura pela falta, assim como o teatro, exige de nós a fantasia como suporte para se mover e para o próprio desejar, no jogo de prazer e de desprazer, sendo sumarizado em certo gozo artístico e estético. Por isso, no descer das cortinas e no final da peça, algo cai e nos toca. Toca em forma de afetos múltiplos. Vale a analogia do espectador como sonhador, por ver em cena alguns desejos realizados ou plasmados no nível do horror, a exemplo de desejos criminosos e proibidos, também causadores da angústia de viver.
Sobremaneira, em rápidas pinceladas, contrastamos Antígona e Hamlet como tragédias singulares. A primeira está calcada no teatro grego antigo, a partir dos conflitos entre deuses e homens, e a segunda, no teatro shakespeareano, mediante os conflitos do homem consigo mesmo. Num plano amplo, as tragédias contêm o trágico em direção à dor, ao sofrimento, ao desprazer e ao gozo mortífero. Os afetos movidos nas encenações podem se configurar na dimensão dionisíaca: desmedida, loucura, embriaguez, êxtase e entusiasmo versus pavor, violência, volúpia, arrebatamento coletivo e destempero. Em contraste, a dimensão apolínia é representada pela medida, harmonia, ordem e forma. Essas representações cênicas sustentam suas posições ambíguas e complementares em corpos falantes por meio da performance, do gozo e da presença, como seres aptos para ver, ouvir, sentir, pensar, sonhar e delirar nos contextos de passado e nos de atualidade, pois, na encenação, algo retorna vivo e atual. Eis a magia ou a maldição do teatro. Um familiar e conhecido pula a janela, desta vez se aproxima estranho e inquietante, como o recalque que estava ocultado, mas não totalmente silenciado no mundo subterrâneo e vivo de cada um de nós. As personagens trágicas carregam no seu âmago a potência de implicações e de efeitos possíveis do ficcional.
ANTÍGONA
Se considerarmos a tragédia escrita por Sófocles, no século 5 a.C., compondo o ciclo tebano, com Édipo Rei e Édipo em Colono, podemos relembrar que os deuses brincam conosco, observando as Moiras, que são as tecedoras do destino, sendo cegas, possuidoras de apenas um olho para o uso das três, tramam a tristeza e o sofrimento de cada destino humano ao trançar, escolher o próximo fio e cortar o fio da existência. O destino tramado pode não significar nada, mas cabe ao herói trágico agir e buscar sua verdade, enfrentando seu drama cotidiano e conflitivo, como modelo de virtude e de coragem.
A personagem Antígona encarna forças ancestrais (incestuosas e parricidas) para desobedecer a Creonte, infringindo a lei da pólis ao não deixar o corpo insepulto de seu irmão Polinices para ser devorado por cães e aves de rapina, sendo que o outro irmão morto, no combate fratricida, Etéocles recebera todos os rituais fúnebres, podendo seguir ao mundo dos mortos, onde se encontram Édipo e Jocasta. A punição, o sacrifício e o martírio de Antígona serão, no primeiro momento, a lapidação (morte por apedrejamento), depois se troca por emparedamento dela viva, como afirma Lacan, ela está entre-duas-mortes. Duas mortes anunciadas que contrariam a ordem das coisas e dos deuses. De todo modo, o chão de Tebas já está poluído com miasmas de sangue da estirpe dos Labdácidas. Sabe-se que todos temos o direito de enterrar nossos mortos. É o nome próprio que preencherá nossas sepulturas. Os deuses se vingam. Em pior medida e devastação, isso chega quando os deuses ctônicos são desafiados. A vingança e a demolição vêm. Nem sempre temos um adivinho cego Tirésias por perto para aconselhar e para escamotear o futuro conhecido. São essas experiências intensas que vão deslindar na loucura e na despossessão de Creonte que, anteriormente à trama da obra, perdera o filho mais velho Megareu e que, no contexto da peça, perde mais duas vidas de seus familiares: a do noivo de Antígona e filho, Hêmon, e da esposa Eurídice, ambas personagens cometeram suicídio.
HAMLET
No escopo da tragédia shakespeareana, mais uma vez, captamos e perdemos algo de eterno e irracional do humano como ser cindido, angustiado e limitado; por conseguinte, frágil e claudicante por natureza. É na dúvida e na preterição da ação que, possivelmente, podemos também inserir Hamlet, o príncipe da Dinamarca. Se pensarmos apenas em vingança, corre-se o risco de rebaixar essa tragédia do início do século 17. Ela diz mais e constrói sentidos múltiplos. Há algo de podre no castelo régio, e é nesses corredores e quartos onde Hamlet titubeia e se questiona sobre os problemas mais profundos da alma humana. Seu desejo incestuoso pela mãe Gertrudes se acirra contra o tio e rei Cláudio, assassino de Hamlet-Pai. O sentido da vida e da morte são constantes nos pensamentos do príncipe-herdeiro. A ex-amada Ofélia enlouquece e se suicida, depois da morte do pai e conselheiro real Polônio. Para vingar suas mortes, Laertes, impulsionado por Cláudio, acaba ferindo letalmente Hamlet, depois morre também. A possibilidade de escapatória dos labirintos do poder e das posses de reinos é mínima.
Vale destacar o profundo diálogo dos coveiros no cemitério, ao chegar o cortejo fúnebre que carrega Ofélia. Valora-se a existência, a partir de sentidos empregados no além-túmulo. Outro destaque é a riqueza da dramaturgia teatral ao usar uma cena dentro da cena, como artifício para descobrir a verdade sobre o assassinato do antigo rei, cometido pelo seu irmão Cláudio, em possível conluio com Gertrudes. A vida é uma ratoeira... Na demanda do espectro do Hamlet-Pai, o pedido de vingança engloba o luto e o tormento do príncipe, perpassando as guerras internas e as guerras por territórios com a Noruega. O destino do príncipe é ser rei da Dinamarca. Seu trono fora usurpado pelo tio. O que acontece durante a peça é corrupção, vigilância, espionagem, negociatas e suspeitas. Sim, Hamlet é nosso contemporâneo. Ficamos na expectativa de um golpe mortal na encenação. Nós nos unimos ao príncipe dinamarquês e aguardamos pela legitimação do ato, que iluminará a ação dramática na dimensão do desejo insatisfeito nas malhas da política e das paixões.
NO DESCER DAS CORTINAS
As tragédias Antígona e Hamlet mantêm-se atuais, com brilho e força, tanto como texto, quanto encenação. Somos deslocados em várias direções de reflexão. Elas possibilitam ricas interpretações para diferentes tempos e espectadores. São fontes pulsantes nas construções de sentidos. Ambas possuem vitalidade e longevidade ao se atualizarem a cada nova roupagem cênica ou renovadas leituras interpretativas.
Desde as épocas primeiras do drama teatral, os conflitos e a condição humana são encenados. No sentido grego, homenageia-se ao deus Dioniso e se expressa no grito das bacantes e mênades: “evoé!”. “Evoé!” é interjeição festiva para o drama, para o canto, para a dança e para a música, performados no palco. “Evoé!” para a renovação de padrões mais elevados de humanidade e de cultura no contexto atual. Ou seja, “Salve!” ou “Viva!” a arte dramática, que tem um passado pela frente, em conjunto com a dinâmica dos desejos e dos narcisismos sem fronteiras.
SERVIÇO
- Violência e crise de valores em “Antígona” e “Hamlet”: conversa infinita, ética e estética entre Lacan, Artaud e Foucault.
- Encontro, com entrada franca, na Ufrgs, IFCH, Campus do Vale, sala Luís Otávio Aquino (Bento Gonçalves, 9500), dia 13/7, das 14 às 16h.
- Convidado: Prof. Dr. Roberto Medina (UnB-DF).
- Mediação: Profa. Dra. Cibele Cheron (PPGCP-Ufrgs).
- Participação: Jerson Medina (cantor e compositor, Cacequi-RS)