Caderno de Sábado

(Apontamentos para um tempo de urgências)

Psicanalista Edson Luiz André de Sousa, membro da APPOA, analisa a obra de Hélio Fervenza, que abre mostra “Ruído de Fundo: Saída”, neste sábado na V744 Atelier

Hélio Fervenza explora o espaço e a urgência em exposição que abre neste sábado, 3 de maio, no V744atelier
Hélio Fervenza explora o espaço e a urgência em exposição que abre neste sábado, 3 de maio, no V744atelier Foto : Hélio Fervenza / Divulgação / CP

“...devo murmurar cada coisa do mundo

até que sejas o incêndio de minha voz...”

Herberto Helder ("O corpo o luxo a obra”)

Paul Celan escreveu um verso em um dos seus poemas que nos chega como um ruído de fundo, pois nos convida a pensar em nossa responsabilidade diante das ruínas que vemos acontecer diante de nós: “o mundo está partido, devo carregar-te”.

Passamos a vida buscando as palavras e as imagens que nos permitam cavar alguma saída de emergência quando nos vemos capturados em lugares onde não é mais possível respirar. Mas sabemos bem que estas saídas não são evidentes. Quantas vezes voltamos aos lugares de sempre atravessando as portas que acreditávamos nos levar para algum fora? A vida como um labirinto com suas promessas e armadilhas. O desafio que temos nestes cenários ruidosos é aprender a reconhecer os sinais na pista, não necessariamente para segui-los, mas antes para tentar decifrar suas gramáticas e interrogar sua pertinência.

Hélio Fervenza se debruça há muitos anos em seu trabalho artístico a investigar a natureza do espaço, para evocar aqui o título de um dos livros do geógrafo Milton Santos. Sabemos bem que esta natureza é complexa e, como este autor evoca logo na abertura do seu livro, só podemos pensar o espaço numa relação indissociável entre sistemas de objetos e sistemas de ações. Hélio parece seguir à risca este fio de pensamento na medida em que seu trabalho evidencia com radicalidade a função do gesto/ação na criação do espaço. Esta é uma gestação que precisa de tempo. Assim, o artista nos coloca diante de alguns sinais que exigem um tempo de pausa, espera e silêncio para que possamos adentrar em suas gramáticas.

“Ruído de fundo: saída”, como nomeou sua exposição no Espaço V744, nos coloca diante de um poema visual em que os sentidos se embaralham e nos deixam confusos sobre que direção ir. Contudo, é este campo de incerteza que nos abre um espaço de liberdade diante deste trabalho, acionando um desejo de deriva. São muitos os circuitos possíveis de leitura. Hélio tem esta habilidade rara de torcer o signo em seu horizonte de linguagem, eviscerá-lo, e assim, nos apresentar sempre o que resta depois das intervenções de recorte que costuma fazer. Em cinco fotografias, vemos a mão do artista funcionar como pista de pouso para os recortes que faz dos folhetos de segurança de aviões indicando as saídas de emergência. Desenha ali um diagrama da ideia de urgência. Uma escrita da urgência em que o tempo se comprime sempre que precisamos achar a saída. Não são todas as vezes que as saídas estão indicadas e, assim, precisamos inventá-las com o que temos de mais precioso nas mãos: a linguagem. Como disse certa vez Glauber Rocha, “Sem linguagem nova, não há realidade nova”. Quando vejo estas imagens, penso que as saídas que nos interessam são justamente as que estão fora dos manuais de instruções, já que estas sempre reiteram o senso comum.

Em uma espécie de mapa expandido, Hélio desenha no espaço da exposição sinais gráficos de pontuação (parênteses, chaves, colchetes) que adquirem escala humana. A medida da linguagem agora é outra: uma desmedida. Sabemos bem a função destes sinais que servem para separar palavras ou frases, sublinhar algum fragmento que precisa ser destacado, incluir uma ideia que interrompe o fluxo de um enunciado. Cumprem, portanto, uma função de corte na linha discursiva. Mas não é este o fundamento de toda linguagem que surge sempre de forma fragmentária, com suas derivas e interrupções? Insistimos na maior parte das vezes em velar estes intervalos para evitarmos o encontro com os espaços vazios. Hélio os recoloca em cena com muita ênfase. Como evoca Felipe Moreno em seu livro O clarão das frestas, estamos diante da “arte de uma ênfase lapidada”. O curioso é que estes sinais são parcialmente recriados com setas em suas extremidades apontando para uma série de frases que nos fazem pensar no impossível do ideal da perfeição. É aqui que encontro o motor ruidoso deste trabalho: a arma ideal / o medo perfeito / a mentira ideal / a violência perfeita / o esquecimento ideal / o sexo perfeito / o incêndio ideal / a cidade perfeita / a saída ideal / a entrada perfeita / o vírus ideal e tantas outras que podem ser lidas na exposição. Estas frases perfuram nosso pensamento com pontas de lança como espinhos expandidos em algumas letras. Podemos evocar nesse ponto o poeta português Daniel Faria, que escreve: “abrem os anzóis profundos dos sinais”.

Hélio Fervenza tem levado suas reflexões para muitos lugares. Já representou o Brasil na Bienal de Veneza, uma das mais importantes exposições mundiais de arte contemporânea, Bienal de Yakutsk na Rússia, Bienal Internacional de Gravura na Eslovênia, Bienal de São Paulo, e recentemente esteve com uma exposição individual aqui em Porto Alegre, “Conjunto vazio”, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Temos a chance aqui em Porto Alegre de visitar esta exposição no Espaço V744, que tem sido um lugar precioso para que possamos pensar, junto com os artistas, alguma outra saída para a desordem que vivemos no mundo. Esta exposição busca recuperar um tempo de pausa que se perdeu na urgência do mundo. É, portanto, uma espécie de “poema escrito numa língua perdida”, como evoca a poeta Isabela Bosi no livro “É perigoso deixar as mãos livres”. A esperança é que possamos fazer de nossas mãos algum campo de pouso para este mundo partido. Ruído de fundo: saída é uma porta de entrada para renovarmos nossas perguntas sobre os ruídos de fundo que testemunhamos no mundo que vivemos.

SERVIÇO

O Quê: Exposição “Ruído de fundo: saída”. Individual do artista visual Hélio Fervenza. Texto crítico de Edson Luiz André de Sousa. Mostra integrante Projeto Portas para a Arte - 14ª Bienal do Mercosul.

Onde: V744atelier | Rua Visconde do Rio Branco, 744 | Porto Alegre - RS

Quando: Abertura dia 3 de maio de 2025, sábado, das 17h às 20h. Visitação: De 6 a 31 de maio de 2025, de terças a sextas, das 10h às 18h. De 2 a 20 de junho de 2025, de quartas a sextas, das 14h às 17h. Outros dias e horários, agendamento pelo DM do @V744atelier.

Quanto: Entrada franca