A literatura produzida por mulheres é pressionada por um escrutínio público que busca emparedar quem escreve. De um lado, classifica todas as experiências narradas pelas mulheres como conhecimento de nicho. Nessa espécie de argumentação ad homini, enclausura as autoras no estratagema de sugerir que, mesmo sem ter lido uma página do que alguma delas escreve, é possível imaginar do que tratará o texto de todas.
A consequência dessa predefinição para o pensamento artístico é nefasta: vende a ideia de que elas escrevem sobre o universo que elas supostamente conhecem – ou seja, o das mulheres – porque isso é mais fácil e menos criativo. Nesse sentido, quanto mais escrevem sobre si, menos autoras elas não. Daí de algumas autoras serem louvadas (geralmente por homens) por escreverem sobre o universo masculino como se tivessem descoberto o antídoto a esse suposto mal de ser mulher. Atribui-se, assim, um poder sobrenatural àquelas que não falam das mulheres como se estivessem mais próximas dos autores de verdade que são os homens.
Essas classificações da literatura escrita por mulheres são mera expressão de misoginia, materializada na prisão da experiência comum em material de baixo valor. Dessa predefinição saem instrumentos linguísticos violentos, que permitem, por exemplo, tentar humilhar as mulheres chamando-as de leitoras adolescentes e infantis – em outra manifestação da hierarquia masculina do mundo. Na histeria da hegemonia do homem, “Lolita”, de Vladimir Nabokov, é obra de arte e “Paixão simples”, de Annie Ernaux, é literatura de baixo calão.
Essa leitura enviesada do cenário, além da ilusão de superioridade já mencionada, toma como natural a antiga divisão dos sexos e pressupõe um corporativismo feminino que qualquer leitura mais atenta aos clássicos da teoria feminista derrubaria em poucos argumentos. A experiência feminina é tão complexa que não pode ser resumida por essa condição, seja pela complexidade de sua anatomia – em constante modificação – ou de psiquê, que elabora procedimentos sofisticados para sobreviver ao massacre cotidiano de corpo e mente.
Depois de Simone Beauvoir, é cansativo precisar repetir que a condição da mulher é construída pela opressão imposta por um mundo social organizado pela subjugação desse grupo. Depois de Sojourner Truth (1), é obrigação evitar generalizações que excluem muitas formas de ser mulher, impostas e construídas como resposta à opressão e que desafiam, muitas vezes com sucesso, o status quo em diferentes dimensões.
Desafiando desse olhar reducionista, a autoria de mulheres cria ferramentas, por meio das linguagens, para afirmar que a vida, inclusive a imposta pelo machismo, é digna de arte. E um grupo de mulheres, como Ernaux, trava uma luta com o decoro da literatura masculina – que criou o etarismo – para reafirmar que a voz da maturidade tem espaço. “Entre Marés” (Libretos, 2026, 192 p.), novo romance de Maria Helena Weber, insere-se nesse contexto. O romance mergulha na história d’A outra, mas contada por ela mesma. Se no mundo dos homens, não existe O outro, no das mulheres é inegável a presença desse arquétipo. Maria Helena Weber revisita a traição para superar o olhar capituneano sobre as mulheres e, nesse ímpeto, avança sobre a humanização daquelas que são preteridas. “Caetana perguntou se viveriam de remendos e morreriam sem experimentar uma vida em comum. ‘Essa viagem é maior que uma vida a dois’, ele disse. Ele tinha todas as respostas e ela se calou, fingindo adormecer até que o nó na garganta sumisse”.
Em todo o livro, a autora avança, na linguagem, pelo lirismo que havia exercitado em suas outras obras. “Nunca mais sangrei depois da despedida em Barcelona. Esperei, mas nada aconteceu nos meses seguintes. Assim, comecei a envelhecer mais sozinha. Meu último sangue ficou no velho continente, extraviado, durante aquela viagem mágica e apaixonada, abraçada a ele, meu antigo amor”.
Quando não se deixa dominar pela adjetivação das emoções, olha para seus personagens com ternura e desvela aquilo que o contexto social jamais permitiria que eles compartilhassem publicamente. É como se a todo momento, Maria Helena mostrasse como os personagens Caetana, Matteo e Chiara escolhem permanecer presos pelas formas de amar que sua geração garantiu que superaria. E nesse ponto o livro cutuca um dos principais legados da geração Baby Boomers: a falta de invenção daquilo que eles querem ser diante daquilo que sabem que já não podem ser mais. Se a geração libertária acabou sucumbindo a arranjos tão ou mais frustrantes que os escolhidos pelos pais, o que poderão fazer com a vida longa a que estão condenados com relação às gerações anteriores? Em “Entre Máres”, Maria Helena Weber reafirma, como Ernaux, a potência do desejo da mulher como ferramenta emancipadora para uma geração que parece ter recebido mais promessas do que uma vida de fato mais livre. E, escolhendo sua história, ela vai fazendo O outro, o homem, cada vez menos aquilo que ela pensava ser: o oposto de uma mera invenção, um sujeito livre.
1. Sojourner Truth foi uma proeminente abolicionista negra e ativista dos direitos das mulheres, mais conhecida por seus discursos impactantes, incluindo "Não sou eu uma mulher?", que expôs como as mulheres negras eram excluídas das noções tradicionais de feminilidade e igualdade, revelando a opressão singular que enfrentavam na interseção de raça e gênero.