Entre os diversos campos específicos do universo das artes plásticas, um deles versa sobre uma verdadeira confraria: os escultores e escultoras que dedicam-se a extrair sua arte do material pétreo de milhões de anos, as rochas. Desta natureza, por exemplo, resultam os mais antigos produtos humanos que se tem registro em forma de arte, os petróglifos (relevos em rochas) e as pedras entalhadas, animalísticas ou antropomórficas, muitas delas surgidas antes das pinturas nas cavernas. As primeiras civilizações, dos assírios aos egípcios, utilizaram esculturas com todos os tipos de rochas. Na Mesoamérica, os maias destacaram-se na escultura monumental. Os maiores gênios do mármore foram Michelangelo e Bernini, no Renascimento; Canova, no Neoclássico. A escultura moderna em pedra teve a sua grande força com Brâncusi, Henry Moore e Barbara Hepworth.
No Brasil, modernistas também trabalharam na pedra, de Bruno Giorgi a Sérgio Camargo. No Rio Grande do Sul, Xico Stockinger produziu seus trabalhos mais abstratos em diversos tipos de rochas e Vasco Prado também realizou linhas de trabalho esculpidas em pedra. Bez Batti e Paulo Aguinsky, entre os nossos principais artistas, há décadas fixaram-se exclusivamente na pedra. Nas gerações atuais, dentro do vasto campo das inúmeras formas de expressão sob a denominação “escultura”, a arte em pedra sobrevive entre os poucos que a praticam como único material de ofício. A produção com rochas nunca foi fácil, por isso, são muito poucos os profissionalizados nesse material – os que vivem unicamente desse trabalho. E são vários os motivos.
Esculturas em basalto, granito e mármore requerem um ateliê específico, de modo a propiciar uma produção que constituiu-se em labor profissional insalubre e com certo nível de periculosidade. É preciso, portanto, investimentos de tempo, recursos, matérias-primas, equipamentos e infraestrutura nessa atividade. Em produção sob dedicação exclusiva – a condição de profissionalizado –, é também difícil produzir obras em dimensões razoáveis sem assistentes, em especial quando se atende a clientela para esculturas em espaços abertos. Por outro lado, é importante o estímulo a quem deseja produzir esculturas sem necessariamente querer sobreviver só de arte. Nesse sentido, é preciso dar condições ao “segundo ofício”, a escultura em pedra como outra carreira, a visar a qualidade plástica e sob capacidade técnica: a arte como produção a mais profissional possível, em expressão individual e distintiva, e não como um lazer ou terapia.
E é justamente esse estímulo à produção de qualidade o objetivo da oficina de Escultura em Pedra do Atelier Livre Xico Stockinger. Visa a propiciar aos artistas que produzam e desenvolvam suas obras em espaço físico adequado e sob orientação profissional. Essa oficina especializada começou paulatinamente, em 2012, a partir de um curso temporário ministrado pelo escultor convidado, Ricardo Olszewski, e foi sendo gradualmente ampliada em tempo de orientação e adequação do espaço, recebendo melhorias em 2024 e 2025. Assim, trata-se de um dos únicos, senão o único ateliê público municipal de escultura em pedras “duras” do Brasil. Para celebrar os anos de produção nessa área, o Atelier Livre Xico Stockinger organizou uma exposição com obras de integrantes da oficina e de artistas que recentemente passaram por lá.
A mostra “Geologias Poéticas” está em cartaz até o dia 27 de fevereiro, na sala de exposições Palácio do Ministério Público do RS, um belo espaço museográfico em um dos prédios mais antigos da capital, na Praça da Matriz, esquina Rua Jerônimo Coelho, conhecido como “Forte Apache”. Sob a promoção do Memorial do Ministério Público do RS e do Atelier Livre Xico Stockinger, a exposição traz 40 obras de 13 artistas: Adriano Mayer, Ana Álvares Tita, Daniele Almirom, José Kanan, Luciano Machado, Lúcio Spier, Marta Santos, Milton Caselani, Rogério Maduré, Sobral, Sol Stangler, Zeca Albuquerque e o escultor convidado, Ricardo Aguiar, profissional este entre os mais atuantes da escultura em pedra, também com passagem pelo Atelier Livre.
Na exposição são exibidas obras abstratas e figurativas, pequenas e delicadas, em grandes dimensões e centenas de quilos, cortadas, esculpidas, lixadas e polidas, especialmente em granito, basalto e diversos tipos de mármores, matérias-primas oriundas do Brasil e da Itália. Também há rochas pelas quais se inicia na área, como a pedra-sabão, e até mesmo esculturas em pedras incomuns na escultura, como a sodalita.
Todo este conjunto variado de formas, materiais e cores é apresentado por escultores com experiência na área e no domínio dos materiais e equipamentos envolvidos, artistas os quais já são detentores de carreiras e estilos próprios.
SERVIÇO
- O QUÊ: Exposição: “Geologias Poéticas”, até o dia 27 de fevereiro de 2026
- ONDE: Palácio do Ministério Público do RS, praça Mal. Deodoro, 110 - Centro Histórico, Porto Alegre
- QUANDO: De segundas às sextas-feiras, das 9h às 19h
- QUANTO: Gratuito
- COMO: Confira horários no recesso de carnaval: @ministeriopublicors. WhatsApp - Memorial do MP-RS: (51) 99731