A 10ª edição do Festival Kino Beat, que desde agosto se desenrola em Porto Alegre e Liverpool, na Inglaterra, chega à sua reta final. O formato desta edição, espraiado ao longo de cinco meses, se assemelha mais a uma programação institucional continuada do que a um festival tradicional. Os poucos dias concentrados e a maratona de atividades deram lugar a uma programação “acupuntura”, com inserções pontuais em alguns dos principais equipamentos culturais da cidade: Margs, CCMQ, Instituto Ling, Cinemateca Capitólio, Teatro Olga Reverbel, Instituto Remanso, Bar Opinião e Clube do Comércio.
Essa estrutura foi pensada para apresentar, com o máximo de tempo possível, um histórico de dezesseis anos de proposições. Antes de se tornar um festival em 2014, o Kino Beat surgiu como uma mostra de filmes relacionados à música em 2009, daí o seu nome: Kino (cinema) Beat (batida, ritmo). Ao longo dos anos, a marca desenvolveu de forma gradual sua identidade e espaços de atuação, posicionando-se atualmente como um festival de arte contemporânea que articula a arte do seu tempo, independente da linguagem.
Ao propor a programação deste ano com longa duração, imaginei o Kino Beat como um tipo de instituição, que utiliza linhas de pesquisa para investigar e produzir ações e trabalhos. As principais linhas de pesquisa, fomentadas ao longo de quase duas décadas, organizam-se da seguinte forma: paisagens sonoras e músicas globais; visualidades e seus desdobramentos; tecnologias emergentes; pensamento ecológico e estudos ambientais; e uma linha sempre aberta para ideias ainda não realizadas no festival.
Através dessas linhas de pesquisa, que estruturam e aproximam uma diversidade ampla de artistas e linguagens, surge também um olhar para a própria imagem da “linha”. Nesta edição, a palavra linha tem dupla função: situar a programação (nas linhas de pesquisa), e no uso do sentido de linha, e seus muitos derivados: fio, traço, rabisco, escrita, partitura, etc, para pensar com liberdade e poesia, as discussões e sensações que os projetos conduziram o público. A ideia é livremente inspirada no antropólogo Tim Ingold, que elaborou uma teoria singular sobre como as linhas em geral estão presentes na vida, no cantar, escrever, pintar, caminhar, contar histórias, e por aí vai.
Uma vez estabelecida a programação completa do festival, composta por dezenas de atividades em formatos como exposição, instalações, performances, shows, mostra de filmes, festa, residência artística e ações formativas, convido o público a imaginar a metáfora das linhas para melhor compreender a organização e as possíveis relações de uma multiplicidade de propostas. Essas linhas conectaram espaços, pessoas e cidades, atravessando o oceano para uma colaboração internacional entre o Kino Beat e a instituição inglesa FACT (Foundation for Art and Creative Technology), através do Ano Cultural Brasil/Reino Unido 2025–26, promovido pelo British Council e Instituto Guimarães Rosa.
Com a residência artística Portos Conectados: Construindo Mundos Digitais e Encontros em Porto Alegre e Liverpool, propusemos, através do campo da arte, aberturas para conhecer e relacionar as cidades. O projeto, realizado entre agosto e outubro de 2025, contou com os brasileiros Henrique Fagundes e Trojany e as britânicas Dongni Liang e Sophie Rogers, permitindo que os artistas circulassem entre os dois países para desenvolver trabalhos inéditos.
A residência partiu de duas premissas: os portos e as águas que banham Porto Alegre e Liverpool. Durante duas semanas em cada cidade, os residentes pesquisaram e experienciaram o cotidiano local, sendo instigados a não se fixarem em nenhuma delas. O desafio era transformar deslocamentos e vivências em criações impregnadas desses lugares, mas não necessariamente reconhecíveis.
Dos encontros nos dois territórios, das trocas virtuais e da limitação de ser um residente temporário em uma terra desconhecida, emergiu um espaço especulativo. Mais do que comparar as cidades em busca de afinidades e diferenças, a residência e a exposição artística resultante, criaram zonas intermediárias: colagens entre localidades, compostas por suas histórias, dados, imagens e sons que se diluem em uma geografia incerta. Pedaços do Brasil e da Inglaterra que se somam às pesquisas prévias dos artistas para formar novas produções situadas em um terceiro lugar.
A Terceira Cidade é o nome da exposição fruto da residência, montada na Sala Augusto Meyer da Casa de Cultura Mario Quintana, em cartaz até 30/11. A exibição é composta por instalações de arte híbridas que utilizam ferramentas digitais e narrativas audiovisuais como portais para o universo-cidade de cada artista.
Neste terceiro espaço, cada trabalho pode ser percebido como todo, mas também como parte, o resultado individual da investigação de cada residente, uma obra-cidade autônoma. E, ao mesmo tempo, fragmento de uma unidade coletiva, como bairros interligados por caminhos invisíveis. Uma terceira cidade, miragem entre dois continentes, que se revela como exposição e aguarda visitantes dispostos a criarem os seus próprios percursos entre os trabalhos e, porventura, descobrir alguma cidade.
A possibilidade de vislumbrar possíveis cidades através de uma exposição de arte, também se expande para o festival como um todo. Ao ocupar diversos espaços da capital, com o suporte das leis de incentivo federal e estadual e da Petrobras, o evento reforça sua missão de ser um agente catalisador de encontros, experiências estéticas e reflexões. O Kino Beat é um festival que estabelece pontes com o exterior ancorado em Porto Alegre e, nesse fluxo local/global, busca oferecer lentes para reconfigurar o olhar sobre recortes da cidade e do mundo através de sua programação.
SERVIÇO
Kino Club – Festa de Encerramento do 10º Festival Kino Beat
22 de novembro de 2025 (sábado)
Das 20h às 4h
Clube do Comércio (Rua dos Andradas, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre)
Palco Petrobras: KOKOKO! (Congo), Omoloko e Kabulom (Mathosa DJs), Loua Pacôm Oulai e Felipe Merker Castellani, Tom Nudes.
Salão Cristal: Batida de Fruta (Pedro Cassel e Viridiana), Betamaxers (Bel Medula e Luciano Zanatta), Jeff Pulz, Raquel Krügel, Roger Canal.
Entrada gratuita – garanta seu ingresso pelo Sympla