Caderno de Sábado

As novas Penélopes

Professora titular da Ufrgs e escritora, Jane Tutikian, destaca o livro “Verde Água Maresia” da atriz, diretora e professora Luciana Éboli, que volta a cartaz com o espetáculo “Florbela, à Margem de um Poema” no Teatro Renascença

"Florbela, à margem de um poema" tem novas apresentações de 18 a 27 de julho, no Teatro Renascença
"Florbela, à margem de um poema" tem novas apresentações de 18 a 27 de julho, no Teatro Renascença Foto : Mateus Éboli / Divulgação / CP

A chegada de um livro novo é sempre motivo de alegria. Lembro da escritora Julieta de Godoy Ladeira, excelente contista paulista porque, toda a vez que ofereci a ela um novo livro, ela fechou os olhos, colocou a mão sobre a capa e sussurrou alguma coisa. Era um ritual tão bonito que, embora curiosa, nunca tive coragem de perguntar. Tinha certeza de que era algo como que prometendo futuros ao livro. Me bastava. O livro então, podia percorrer seu destino, agora que seu caminho havia sido “abençoado” pela escritora. Devia ter perguntado e já justifico. Se a chegada de um livro novo é sempre motivo de alegria, muito mais é a chegada de um livro novo de um autor novo.

Depois da participação em várias antologias, Luciana Éboli brinda ao leitor com “Verde Água e Maresia” seu primeiro livro de poesias. Evidentemente que a autora já é conhecida na cultura gaúcha. Professora do Departamento de Arte Dramática/Ufrgs, é diretora de teatro e excelente e premiada atriz. Recentemente, fez e faz sucesso com “Florbela, à Margem de um Poema” (que voltou a cartaz neste fim de semana), a bela interpretação da poeta Florbela Espanca, grande sonetista portuguesa, ao lado de Luiz de Camões, Antero de Quental e Bocage.

“Verde Água e Maresia” é uma explosão de sensibilidade e de inteligência. O eu que amarra os poemas assume todos os riscos do viver, porque seus riscos são os de uma mulher capaz de perceber a vida e enfrentá-la: “Será a nova Penélope/ dona de seu tempo/ já não pensa em tramas intermináveis.” Essa é a essência do sujeito lírico, um eu-feminino, que apreende a vida com sensibilidade e a devolve ao leitor com força, encantamento e paixão.

O livro é dividido em blocos: O salto, O voo, Elas, O pouso. O salto inicia com o belíssimo “Poeira Cósmica”, um olhar para dentro, numa revisitação ao passado. Há dor, dita ou interdita, porque a falta de comunicação corresponde à derrocada do amor. “Sutil” vem na mesma linha, quando o eu lírico toma para si a culpa. Um belo poema. “Se naquele dia/ distante e opaco/ eu percebesse que/ o que/ brilhava/ era/ uma/ lágrima/ talvez o tempo parasse/ na chuva morna do teu abraço/ sem precipício/ uma outra vez.” Em “Sombras” a ausência é sofrida. O conjunto de poemas é dor e saudade, a luta entre o que foi, o que gostaria que tivesse sido, o querer que seja. É como se alça ao salto, ao voo. Aqui, o sujeito lírico quer ver tudo, apreender tudo, sentir tudo, e devolve a outro a culpa “Tento entender, por que roubaste os nossos sonhos?” E busca caminhos. No passado, leva o eu lírico à reconstrução, à infância, no bonito “Contravenção” .

No “Voo”, há procuras, encontros e desencontros, como afinal é a vida. Tenho comigo que a poesia é isto: a cristalização dos momentos e dos sentimentos em palavras. Essa é a sua força.

É assim em “Voo”. Amor e desamor, solidão. “Lavei miasmas na tempestade/- as folhas secas dizem de nós./Em todo renascer não te reconheço/é processo/é solidão. E o voo termina num “imenso vazio num futuro sem nome.”

É como o leitor chega em “Elas”. Abrem este bloco lindos poemas em homenagem às grandes Frida Kahlo, Maria Auxiliadora, Virgínia Woolf, Florbela Espanca, Clarice Lispector, Rita Lee e Fernanda Montenegro. Todas mulheres que falaram e falam por mulheres! Mulheres que ultrapassaram e ultrapassam seu tempo. Elas formam um espelho de múltiplos talentos, um mosaico, cujos reflexos trazem à cena a oitava mulher, a poeta, em seu primeiro livro solo. Aliás, em O pouso, ela ratifica: “A mulher carrega / o peso invisível/ do nunca mais.” “O pouso”, entretanto, não é tranquilo ele é busca. A busca incansável do amor, a “dor de uma música distante/ ondas de Portugal/ onde nos banhamos no êxtase/ da saudade sem fim. Em “O pouso”, nós, os leitores, nos deparamos com fissuras existenciais expostas. Entretanto, não há desespero. Apesar do alerta de que “com o tempo para de doer”, não há desistência. É essa, por ventura, a força da poesia da Luciana Éboli, haverá outros voos, outras descobertas dessas novas Penélopes.

Ah! Devia sim ter perguntado à Julieta!