Ao som de Baitaca, cantor tradicionalista, a atleta canoense Maria Lúcia Rocha de Campos embala seu skate com firmeza e leveza necessárias para acertar as manobras de sua série na pista da Orla. Ao fim de sua terceira volta, envolve-se na bandeira do Rio Grande do Sul e levanta os braços, sob aplausos e gritos de uma plateia emocionada. Não era apenas o terceiro lugar na modalidade street feminino do STU Pro Tour etapa Porto Alegre que estava em jogo, mas uma emoção compartilhada com o público: a superação de um trauma. Quase um ano após as enchentes que paralisaram o estado, desalojando milhares de pessoas, inclusive a própria Maria, a pista de skate se transformou em palco de um momento simbólico. O evento, sediado às margens do Lago Guaíba, em um lugar que foi totalmente inundado, marcou uma tentativa de curar uma ferida latente. Uma efervescência capaz de ressignificar o espaço urbano e atualizar o imaginário porto-alegrense.
Assim como foi com a enchente dos anos 1940, maio de 2024 ficará gravado na memória coletiva dos gaúchos como um mês de perda e suspensão. Em Porto Alegre e em cidades vizinhas, como Canoas, milhares de pessoas foram forçadas a deixar suas casas diante da força descontrolada das águas. Bairros submersos, ruas transformadas em canais, grande parte do estado sem energia, transporte ou qualquer perspectiva de normalidade. Nesse cenário, nós não perdemos somente a infraestrutura de nossas cidades – o que colapsou foi também a sensação de continuidade do cotidiano, a ideia de ter abrigo em uma terra segura e a confiança de encontrar prazer no espaço urbano.
Traumas coletivos como esse se alojam no corpo social, reverberam nos silêncios, nos vazios das ruas, no olhar inseguro de quem retorna. Segundo o sociólogo Maurice Halbwachs, a memória coletiva se constrói a partir dos lugares que habitamos em comum. E quando esses lugares são atingidos, a identidade coletiva também se vê fragmentada. Por isso, retomar espaços simbólicos – como a Orla do Guaíba – representa uma tentativa de reconstruir o elo entre cidade e pertencimento.
A cena presenciada na maior pista de skate da América Latina, midiatizada por veículos de comunicação e pelas redes sociais, não pode ser compreendida apenas a partir da lógica do esporte e da celebração de uma vitória em competição. Há ali uma camada mais densa de sentidos que atravessa o corpo.
Para outro sociólogo, Michel Maffesoli, vivemos em um tempo marcado pelo retorno da sensibilidade e da emoção como forças estruturantes do social. A racionalidade moderna, com sua promessa de ordem e progresso, cede lugar a formas de socialidade empática, imediata, vivida no presente. Essa “razão sensível” é o que permite compreender fenômenos como a vibração coletiva que tomou conta de Porto Alegre durante o STU como um gesto de reencantamento.
Na efervescência da plateia, no suor das manobras e nas lágrimas de superação; nos abraços dos reencontros e nos corpos que se aglomeravam sob o sol escaldante do meio-dia produziu-se um instante de suspensão da dor. Não para esquecê-la, mas para ressignificá-la. O conceito de efervescência social, central no pensamento de Maffesoli, ajuda a entender esse momento como uma espécie de explosão simbólica que reconecta os indivíduos ao coletivo. Shows, festas, manifestações culturais e competições esportivas agem como choques de vitalidade em um corpo social que, após o trauma da enchente, estava exaurido. Se a tragédia climática dissolveu, desfez, desorganizou a cidade e suas relações, a efervescência desses eventos reagrupa, ainda que temporariamente, as partículas do tecido social. Trata-se de um gesto estético, mas também político: ao ocupar o espaço público, os corpos na pista e nas arquibancadas reafirmaram o direito à cidade. Uma cidade que não se limita a ser um território administrativo, mas sim um espaço vivo, pulsante, desejado.
PISTA DA ORLA COMO SÍMBOLO URBANO
As pistas públicas de skate, como a da Orla, vivem uma tensão fundamental. De um lado, representam um raro investimento público brasileiro em infraestrutura esportiva e cultural voltada à juventude e à ocupação democrática da cidade. De outro, expressam o que o antropólogo Giancarlo Machado chama de enquadramento estratégico da citadinidade, isto é, uma tentativa de controlar, canalizar e estetizar a prática do skate dentro de uma lógica institucionalizada, previsível e até mesmo turística. Este último tema merece um artigo inteiro para aprofundamento, portanto opto por focar em um terceiro ponto, que é o simbolismo desses espaços.
Uma pista de skate é composta por ícones que remetem a outros elementos. Ocorre assim com os bowls e snakes, que simulam as piscinas vazias da Califórnia nas quais a prática tem origem. Também é assim com as pistas de street – cujo termo em inglês já entrega a referência: a rua. Esse tipo de pista recria elementos urbanos reais, como escadas, corrimões, bancos, calçadas e muretas. A relação ocorre por meio da semelhança formal, mas também simbólica.
A pista não é a cidade, mas se parece com ela. Esse parecer-se com cria um campo semiótico de reconhecimento. Para o skatista, a pista evoca a rua, sem que ele precise estar nela. Ao mesmo tempo, a pista não é uma imitação: ela é uma síntese idealizada da cidade e medeia o desejo de ocupá-la. No cotidiano ou mesmo durante um campeonato, a pista vira palco de manobras e disputas, mas também de afetos, superações e projeções coletivas.
No caso da pista da qual falo, essa dimensão simbólica atinge um grau ainda mais profundo no contexto pós-enchente. A Orla do Guaíba foi inundada, assim como muitas outras partes da cidade. A água cobriu os obstáculos que remetem à rua, encobrindo simbolicamente a própria paisagem urbana idealizada que ali se desenhava. A pista, ícone da cidade, desapareceu sob a força descontrolada da natureza, da crise climática e da fragilidade da infraestrutura urbana.
Por isso, quando, meses depois, o público retorna a esse lugar para acompanhar um evento esportivo internacional, a pista seca e reconstruída se torna metáfora da resistência da cidade, da sua capacidade de se reerguer e de afirmar sua vitalidade frente ao colapso. O ícone da cidade para o skatista se amplia para todos os presentes. A cidade sonhada, sintetizada na geometria dos obstáculos, é agora também a cidade sobrevivente, tanto testemunha de um trauma quanto promessa de superação dele.
Essa ressignificação emerge do próprio cotidiano, da apropriação coletiva do espaço por quem o habita, o transforma e o carrega de sentido. A celebração da vitória de uma atleta gaúcha portando inúmeros símbolos de nossa tradição – música gauchesca, camiseta do Inter e uma bandeira do Rio Grande do Sul resgatada de sua casa alagada – reforça essa reinscrição simbólica do pertencimento. São momentos de reconfiguração afetiva em relação à Porto Alegre, uma forma de dizer: a cidade ainda é nossa, e ela pode, novamente, ser lugar de encontro, criação e alegria.