O Patrono da Nação, que a tanto foi guindado por ato da ditadura militar, viveu uma vida em que as mulheres primaram pela ausência, embora alguns autores do século XX insistam em lhe imputar casos amorosos. Verdade que Joaquim José era assíduo frequentador de um prostíbulo de Vila Rica, o das “costureiras” conhecidas por Pilatas – pilata era a pia de água benta nas igrejas, isto é, onde qualquer um metia a mão –, mas sua única mancebia remonta a maio de 1786, em seus 40 anos, quando conheceu Antônia Maria do Espírito Santo, menina de 15 anos órfã de pai. Atraiu-a com um presente, a escrava gestante Maria Angola, e promessas de casamento, “debaixo das quais”, lê-se em recatado documento, “lhe roubou sua pudicícia”. Retirada com violência da casa da mãe, Antônia Maria deu à luz uma filha, Joaquina, em fevereiro de 1787.
A 2 de março, menos de um mês após o nascimento de Joaquina, o alferes obteve uma licença do regimento e raspou-se para o Rio de Janeiro, abandonando em Vila Rica a incipiente família, sabe-se lá em que condições de subsistência. Ignorou o batismo de Joaquina, em 31 de dezembro do mesmo ano. Conseguiu prorrogar a licença por dois meses e, alegando doenças e outras causas, excedeu-a. Voltou a Vila Rica, apresentando-se no regimento, em 28 de agosto de 1788. Informado ou desconfiado de que, naquele ano e meio, Antônia Maria não lhe foi fiel, enxotou-a da casa, ela e a filha, e reclamou publicamente da doação da escrava, que conseguiu retomar. O rancor dele foi mais longe: a um soldado do regimento, Ventura Mendes Barreto, e também a um capitão da mesma unidade, Luís Antônio de Velasco Saião, revelou pormenores de suas relações com Antônia Maria, jactando-se de tê-la deflorado.
Ignoram-se os destinos de Antônia Maria e Joaquina. Em 1791, ainda viviam pobremente em Vila Rica, mas seus nomes já não aparecem no primeiro recenseamento do novo século, em 1804.
Também é mencionada pelos biógrafos outra mulher, Eugênia Maria de Jesus, com a qual o alferes teria um filho, o João de Almeida Beltrão cujos bisnetos, os irmãos Pedro de Almeida Beltrão Junior, Maria Custódia dos Santos e Zoé Cândida dos Santos, de Dores de Indaiá (MG), recebiam uma pensão do governo federal pelo ilustre parentesco, concedida por decreto-lei de 1969 derivado de sentença judicial. O sobrenome do menino teria sido trocado para escapar à infâmia que se abatera sobre Tiradentes, seus filhos e netos, no acórdão condenatório de 1792. Este enredo dos primeiros anos da ditadura foi a sagração de mais um mito. Eugênia Maria era a irmã mais velha de Antônia Maria, ou seja, “cunhada” do alferes, e o pequeno João, nascido em 1787 como Joaquina, era filho legítimo do cadete José Pereira de Almeida Beltrão, que o reconheceu como tal e era fato historicamente assentado quase oito anos antes dos favores judiciais recebidos pelos irmãos Beltrão. Por isso, mais tarde, a pensão foi anulada.
Também é citada uma terceira mulher, Ana Clara Freire, filha do soi-disant sargento-mor Alberto Rolim e sobrinha de um dos Inconfidentes, o padre José da Silva e Oliveira Rolim.
MAIS UMA TRAPAÇA
Que começa assim: a 21 de maio de 1789, em Vila Rica, o visconde de Barbacena, governador de Minas Gerais, ordenou ao ouvidor que promovesse rigoroso exame nos papéis do tenente-coronel Domingos de Abreu Vieira, um dos denunciados no tumulto conhecido por “conjuração mineira”. A 26, o ministro cumpriu a diligência e apreendeu duas cartas, uma delas datada de 30 de março e endereçada a Abreu Vieira pelo padre Rolim. Na carta, o padre perguntava por Tiradentes:
Mande-me notícias de seu compadre Joaquim, a quem não escrevo por pensar que estará ainda no Rio. Sobre uma recomendação do dito, não há dúvida, haverá grande contentamento e vontade.
Naquele mês a “conjuração” já se esfacelara, mas o padre, que estava banido da comarca do Serro do Frio e, clandestinamente, lá se achava, nada sabia a respeito e quis vangloriar-se junto a Abreu Vieira, dando a entender que persistia na adesão ao levante. Em novembro, já na prisão, Rolim foi interrogado e, para não se comprometer mais do que já estava, mentiu que aquelas palavras aludiam a um pedido do Tiradentes para que ele, padre, convencesse seu irmão Alberto a conceder a mão da filha Ana Clara. Foi quanto bastou para que uma chusma de biógrafos entronizasse outra mulher na vida amorosa do alferes. Um deles, Luis Wanderley Torres, no livro Tiradentes: a áspera estrada para a liberdade, de 1977, não hesita em devanear. Leia-se meia página:
Foi em Minas Novas que conheceu a filha do Sargento-Mor Alberto da Silva e Oliveira Rolim, Ana. Tinha ela, como se disse, 15 para 16 anos, e ele mais de 35. Deu de frequentar a vila, de aparecer no Tijuco, onde residia o Padre Rolim, seu grande amigo e tio da moça. Com este, conversava sobre ela. Impaciente, relutava em ir à fazenda do sargento-mor, sete léguas de Minas Novas, para vê-la. Quase sempre, do Tijuco regressava a Vila Rica, para logo mergulhar numa diligência, às vezes para os lados dos sertões de Paracatu, muitos dias de viagem distante, onde a notícia de um “descoberto” fizera acorrer uma avalanche de faiscadores que era preciso controlar. Certa vez criou ânimo e procurou o sargento-mor. Deixou-o meditando sobre o que pretendia o alferes. O bravo Joaquim José era um tímido para com as mulheres. Certamente fora na missa onde vira Ana, único lugar permitido pelos pais irem as filhas casadoiras. Para que o deixasse assim, tão irrequieto, tão meditativo, teria sido uma bela flor daqueles sertões, tímida, olhares furtivos para os lados daquela figura angulosa, bem entonada na farda azul de galões cintilantes, de cabeleira basta e escura, atirada para trás, que insistentemente a fitava. Desse romance fugaz e platônico há uma tênue notícia nos Autos da Inconfidência. Não obstante sutil, vem dar um colorido humano à vida vazia de mulheres, do alferes. Procurou Joaquim José ao Padre Rolim e rogou que se empenhasse pedir Ana ao pai, em casamento, pois estava apaixonado. “O casamento se faria com grande contentamento e vontade”, diz o padre.
Como pode um biógrafo digressionar assim, sem que fonte alguma o autorize? Como pode alterar o texto de um documento, substituindo a expressão “sobre uma recomendação do dito” por “o casamento”? Em que papel andou lendo que Tiradentes propôs casamento ao pai de Ana Clara e “deixou-o meditando”? Como soube que foi na missa que o alferes conheceu Ana Clara, e como soube que efetivamente a conheceu? Onde se registra que Tiradentes “estava apaixonado?”
Em 1788, ano em que padre Rolim teria recebido a missão casamenteira, Ana Clara, nascida em 1774, ainda brincava de bonecas. Dois anos antes, o alferes já se afeiçoara a uma ninfeta colonial, mas a reprise foi tão-só uma quimera do século XX. Tiradentes jamais conversou com Alberto Rolim sobre essa matéria ou qualquer outra, pois não se viam desde o tempo em que ele era mascate e estivera preso em Minas Novas, quando Ana Clara não tinha nascido ou teria, se tanto, um ano de idade.
Quando o padre Rolim regressou do degredo, em janeiro de 1805, Ana Clara o tratou com desprezo e lhe negou a devolução dos bens que tinham sido sonegados ao sequestro nos Autos de devassa, só o fazendo quase 30 anos depois, quando o reverendo contava 86 anos e já não podia usufruí-los – morreria aos 88, em 1835.
O noivado de Tiradentes e Ana Clara não passou de mero artifício de um religioso que, em seus negócios, não fez outra coisa senão delinquir. Não deu certo com os juízes, mas serviu para ornamentar narrativas sobre o Patrono, às quais seus visionários paladinos se aferram com a tenacidade de uma cãimbra.