No 80º aniversário da liberação de Auschwitz-Birkenau, em 27 de janeiro de 2025, o mundo teve a oportunidade de relembrar um dos capítulos mais sombrios da história humana. Carregada de simbolismos, a cerimônia não foi apenas um ato de memória, mas um alerta contra a indiferença e o silêncio que permitiram o Holocausto. À luz do pensamento de Hannah Arendt, podemos compreender mais profundamente as implicações deste evento e suas lições para o hoje e, quiçá, para o amanhã.
A banalidade do mal
Hannah Arendt, filósofa política alemã de origem judaica, introduziu o conceito de "banalidade do mal" em sua obra "Eichmann em Jerusalém". O conceito revolucionou a compreensão sobre a natureza do mal, especialmente no contexto do Holocausto - entendido como extermínio massivo e sistemático, patrocinado pela Alemanha nazista e seus colaboradores, de 6 milhões de judeus, durante a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945).
Principais aspectos do pensamento de Arendt:
* Mal como algo ordinário: Hannah Arendt argumenta que o mal não é necessariamente praticado por monstros, mas por pessoas comuns que falham em pensar criticamente sobre suas ações.
* Ausência de pensamento: O verdadeiro perigo, segundo Arendt, reside na incapacidade ou recusa de pensar sobre as consequências morais daas ações.* Burocracia e distanciamento moral: O sistema burocrático nazista permitiu que indivíduos se distanciassem moralmente de suas ações, vendo-as como meras tarefas administrativas.
* Responsabilidade individual: Arendt enfatiza a importância da responsabilidade pessoal, mesmo em sistemas totalitários.
Auschwitz: Testemunho da banalidade do mal
A cerimônia no principal campo nazista - onde 1,1 milhão de pessoas foram mortas, sendo cerca de 90% judeus -, 80 anos após sua liberação, serve como um poderoso lembrete das consequências do que Arendt descreveu. Durante a solenidade, prestigiada por nomes como o Rei Charles e o presidente ucraniano Wolodomyr Zelensky, os testemunhos de quatro sobreviventes da Shoá ilustram vividamente como o mal pode se manifestar de formas aparentemente banais. "Fomos despojados de toda a humanidade", disse o ex-prisioneiro do campo, Leon Weintraub, de 99 anos - fazendo ecoar o entendimento de que sistemas totalitários podem desumanizar tanto vítimas quanto perpetradores.
Silêncio como cúmplice
A celebração dos 80 anos de Auschwitz, realizada sob uma tenda gigante montada onde localiza-se o famigerado "Portão da Morte", em Birkenau, teve repercussão na imprensa mundial (1.000 jornalistas estavam credenciados para o ato - sendo o Correio do Povo o único periódico brasileiro in loco). Apenas com falas de sobreviventes, do diretor do museu de Auschwitz-Birkenau, Piotr Cywinski, e de um dos principais mantenedores do projeto, o presidente do Congresso Judaico Mundial, Ronald Lauder, a atividade destacou o papel crítico do silêncio e da inação na perpetuação dos crimes nazistas. Afinal, foi dito: não foram apenas os perpetradores diretos que podem ou devem ser responsabilizados, mas, em certa medida, também aqueles que permaneceram em silêncio, agindo com complacência e distanciamento. A inércia da sociedade permitiu que o Holocausto ocorresse. Pequenos atos e cumplicidade, também tiveram seu papel, pois, conforme Arendt, o mal também se manifesta por meio de pequenas ações e da assistência passiva daqueles que observam ou se beneficiam.
A importância da memória e do pensamento crítico
Com pouco mais de 100 minutos de duração, a cerimônia em Auschwitz enfatizou a crucial importância da memória, alinhando-se à necessidade da reflexão contínua: "A memória machuca, a memória ajuda, a memória guia... sem memória você não tem história, nem experiência, nem ponto de referência", observou Piotr Cywinski.
A declaração, mais uma vez, encontra guarida no raciocínio de Hannah Arendt, que enfatiza a importância do pensamento crítico e da memória histórica como barreiras contra a repetição do mal. Por isso, trabalhos como o do Museu de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, do Museu do Holocausto de Curitiba (o primeiro do Brasil, aberto em 2011), e de outros centros de estudo, pesquisa e conscientização se fazem cada vez mais prementes.
Construindo um futuro mais humano
A celebração dos 80 anos da liberação de Auschwitz, mais do que lembrar o passado, tratou de jogar luzes sobre como moldar ativamente o futuro, a partir de premissas que busquem o diálogo, enfatizando a necessidade de comunicação aberta e honesta; a troca cultural, promovendo a compreensão entre diferentes grupos; o respeito pelas diferenças, reconhecendo e valorizando a diversidade humana; e a educação e conscientização, utilizando a história como ferramenta para prevenir futuras atrocidades.
Desafio contínuo
O aniversário da liberação de Auschwitz, visto através da lente do pensamento de Hannah Arendt, nos lembra que a luta contra o mal banal é contínua e exige vigilância constante, em um cenário no qual o globo, no raiar de 2025, parece rumar para cenários de polarização extremados. Não basta lembrar; devemos pensar criticamente, questionar ativamente e agir com coragem moral. Afinal, como estudioso do Holocausto há mais de uma década - tendo já visitado uma dezena de campos de concentração e extermínio, produzido conteúdos para mídias nacionais e internacionais, e entrevistado mais de 20 sobreviventes, no Brasil, na Europa e em Israel - entendo que o verdadeiro antídoto para a banalidade do mal é o compromisso incansável com o pensamento ético e a ação responsável. Em um mundo onde o silêncio e a indiferença ainda permitem injustiças, a mensagem de Auschwitz e as reflexões de Arendt permanecem dolorosamente relevantes e urgentemente necessárias.
Saiba mais: o que era Auschwitz
Auschwitz era originalmente uma instalação militar do Exército polonês no sul da Polônia. A Alemanha nazista invadiu e ocupou a Polônia em setembro de 1939 e, em maio de 1940, transformou o local em uma prisão para presos políticos.O oficial nazista designado comandante do campo de concentração, Rudolf Höss, levou o lema Arbeit Macht Frei — "o trabalho liberta" — de outro campo onde havia trabalhado, em Dachau, na Alemanha (o engodo permanece lá até hoje, inscrito acima do portão de entrada do campo que ficou conhecido como Auschwitz 1).
À medida que a guerra e o Holocausto avançavam, o regime nazista expandiu consideravelmente o local. As primeiras pessoas a serem mortas com gás foram um grupo de prisioneiros poloneses e soviéticos em setembro de 1941. No mês seguinte, começaram as obras para construção de um novo campo, Auschwitz 2-Birkenau. Esse campo se tornou o local das enormes câmaras de gás, onde centenas de milhares de pessoas foram assassinadas até novembro de 1944, e dos crematórios, onde seus corpos foram incinerados. Birkenau se tornaria o maior dos seis campos de extermínio nazistas. Três outros, em Belzec, Sobibor e Treblinka, também foram concluídos em 1942.Os primeiros judeus enviados para Auschwitz 2-Birkenau foram 999 mulheres e meninas da Eslováquia, em março de 1942. Logo na sequência, foram realizadas deportações da França e, mais tarde, da Holanda e da Bélgica. Em 1944, 12 mil judeus estavam sendo assassinados todos os dias.A empresa química alemã IG Farben construiu e operou uma fábrica de borracha sintética em Auschwitz 3-Monowitz. Outras empresas privadas também tinham fábricas nas proximidades, para usar os prisioneiros como mão de obra escravizada. Tanto Primo Levi quanto o ganhador do Prêmio Nobel Elie Wiesel sobreviveram ao campo de concentração de Monowitz.
Quando Auschwitz foi finalmente liberado pelo exército russo em 27 de janeiro de 1945, tinha mais de 40 campos e subcampos - sendo que, na data da liberação, havia pouco mais de sete mil sobreviventes no local.
* A participação do jornalista foi custeada pelo ISPO Pesquisa e Comunicação, em parceria com Museu do Holocausto de Curitiba, Casa da Memória Unimed Federação/RS e Instituto Marc Chagall, com apoio do Correio do Povo.