Fé cega/faca amolada, acredite: a palavra de Caio Fernando Abreu, trinta anos depois de sua precoce e dolorosa partida, continua afiada, afiadíssima, e corta os pruridos e a caretice desse tempo que nos cabe viver. Diferentes e contínuos, os preconceitos continuam com o prazo de validade em dia, a desafiar o bom senso e a autonomia das escolhas que não se enquadram nesse comportamento padrão oficialmente aceito. A hipocrisia dos novos fariseus não esconde a verdade dos fatos: quanto maior a repressão, mais presente é a vida pulsante e subterrânea dos que não se submetem aos padrões normativos vigentes.
A literatura de Caio não deu trégua aos caretas, reivindicando sempre a liberdade individual como baliza. Liberdade sexual, para cada um ser o que quiser. Liberdade de pensamento para desafiar os padrões do coro dos contentes. Liberdade para ser, enfim e tão-somente. E, assim como é possível reconhecer os traços autoritários de uma época historicamente definida, o grito de liberdade de suas palavras é muito maior do que o contexto histórico de sua época. O mundo sem Caio precisa de seus contos e romances, de suas cartas, de suas opiniões libertárias. O mundo sem Caio é um deserto maior do que o deserto de seu tempo. Avanços da ciência e do conhecimento, não impediram que uma nova ordem moralista se firmasse num mundo sem tolerância. Violência banalizada, violência crescente e perigosamente próxima. Diariamente, lemos matérias nos jornais dando conta de crimes e feminicídios repugnantes. Diariamente, continuamos a matar travestis. Diariamente, discursos de ódio contaminam o debate político brasileiro. Por isso, por ser uma voz em defesa de minorias oprimidas é que a voz de Caio é tão atual, presente e permanente.
A indignação de Caio não é impulsiva ou canhestra. Caio sempre foi um artesão das palavras, lapidando sua obra com uma obsessão dos que procuram a literatura dos grandes mestres. Sou testemunha. Quando liberava para leitura geral, sua obra mostrava a prévia de meses de um trabalho contínuo e permanente. Eu mesmo acompanhei sua busca pela palavra precisa, de forma rigorosa e incessante, lendo em voz alta o material que estava burilando. Um sacerdote oficiando o sagrado e o profano, a banalidade do desejo entranhando corpos e pensamentos. Caio pagou o preço por tanta fidelidade aos seus propósitos. Viveu uma vida de necessidades materiais e nunca traiu sua literatura, seu propósito, sua palavra. Inquieto, determinado e operante, viveu em trânsito, uma vida nômade e borbulhante. Nele, o desejo pulsava procurando uma vida melhor, buscando uma segurança financeira básica para deixá-lo viver. Trabalhou muito para isso: jornais, revistas, magazines. Muitas vezes quebrou a cara, muitas vezes pensou em desistir, muitas vezes deixou sua teimosia levá-lo adiante. Em um de seus períodos mais difíceis, viveu em Londres, dormindo em “squatter houses”, sem o menor conforto. Nesse período escreveu uma de suas peças mais famosas, “Pode ser que seja só o leiteiro lá Fora”, que muitos anos depois vim a dirigir no Clube de Cultura, meu primeiro prêmio de direção. Outras montagens se seguiram, peças, contos, colagens. Caio acompanhou tudo com incessante curiosidade, com amor ao teatro, com fé. Marcos Breda e Luiz Arthur Nunes, dois de seus melhores parceiros de vida e de cena, também o levaram aos palcos. Hoje, grupos jovens que surgiram no cenário artístico depois de sua passagem, o amam e reverenciam.
Em Recife, onde vou acompanhar o festival “Janeiro de Grandes Espetáculos’, sempre encontro na grade de programação uma obra inspirada por ele. Esse ano, o espetáculo da vez foi “Pela Noite”, montagem bela e dilacerada, onde esteve presente o fluxo da busca incessante da vida e da literatura de Caio.
Errância, procura, agonia e êxtase. A vida em sua obra se instala com som e fúria. Caio era a delicadeza em pessoa, mas também a fúria impossível de controle, o silêncio ameno e apaziguado e o grito primal do primeiro homem. Sua obra literária buscava o indizível, a epifania do amor totalizante, a fina ironia, a plenitude, a felicidade. Quando o assunto era literatura, Caio não estava para brincadeiras.
Queria o melhor do humano, a esperança possível, o amor – sempre o amor. Com uma fita cassete de Adriana Calcanhotto na mochila, percorreu a Europa, olhos e coração ligados ao Brasil, procurando cores, amores, esperanças e tudo o que alimentasse sua fome da vida plena e transbordante.
Trinta anos sem sua presença física reforçam sua presença onipresente. Trinta anos lendo e relendo seus contos, seus romances, suas crônicas, aumentam a certeza de que Caio está vivo em cada leitor, novo e antigo, em cada amigo, em cada cilada que a vida apronta sem avisar. A força de Caio se alimentou, e ainda se alimenta, das forças e fraquezas humanas, misérias e grandezas dos eternos náufragos que somos. A obra de Caio nos ajuda a compreender porque a vida é amiga da arte. Porque sobrevivemos às catástrofes. Caio vive, mais que antes, mais que ontem, mais que nunca. Sua obra nutre e alimenta nossa sede de esperança. Que um escritor brasileiro consiga tamanho resultado, vivo, presente e atuante trinta anos depois de sua morte, é fato a ser comemorado.
Caio vive. Hoje. Aqui. Agora. E isso é bom. Suas palavras são luzes, faróis, sinais. Palavras de um valor inestimável, inescrutável, profundo. Para Caio, sempre, afeto, reconhecimento e aplausos e, sim, todo o amor que houver nessa vida.