Caderno de Sábado

Chico Buarque por Luis Fernando Verissimo nos anos 70

O Caderno de Sábado publica dois textos inéditos em livros, escritos por Verissimo no primeiro ano de colunista da Folha da Manhã, em 4 e 5 de junho de 1970

Luiz Fernando Verissimo e Chico Buarque em evento literário na Casa de Cultura Mario Quintana em 13 de agosto de 1999
Luiz Fernando Verissimo e Chico Buarque em evento literário na Casa de Cultura Mario Quintana em 13 de agosto de 1999 Foto : Ricardo Giusti / CP Memória

CHICO (I)

Folha da Manhã – 4/06/1970

Não é por acaso que a única ficção publicada, que eu saiba, do Chico Buarque de Holanda seja um conto chamado "Ulisses". Acho que o Jefferson Barros já escreveu sobre essa identidade, consciente e trabalha- da, do compositor com o grego aquele. Chico Buarque é o poeta do contra-épico. Homero depois do terceiro uísque, irônico e melancólico em vez de laureador. Suas letras cantam e recantam a anti-odisseia do anti-herói urbano brasileiro, do exilado na sua própria terra, do adulto contrafeito que, morando numa Ítaca de ême com uma Penélope de nada, evoca as líricas promessas da juventude: o samba antigo, o luar obsoleto, o violão sem compromisso, a fuga sem remorso, a rima sem vergonha.

Ulisses, nos sambas de Chico Buarque, é um menino vadio. Suas mulheres sempre o recebem de volta, resignadas e maternais. Com açúcar, com afeto e castradoras. Elas o exigem fraco e tolo e sem fantasia. E o herói se deixa domar. O herói limita sua aventura ao boteco da esquina. O relato das suas fugas tem acompanhamento de caixinha de fósforo e da bonomia sem crítica de uma mesa de malandros. Só o coração sente o desterro e marca o tem- po. O coração envelhece dentro do menino. A volta é sempre uma rendição. Penélope é ao mesmo tempo porto e prisão, abrigo e algoz. Nos braços de Penélope o herói prolonga a irresponsabilidade da sua juventude ao mesmo que trai as suas promessas.

(Essa estória vai longe. Continua amanhã. Nesse meio tempo, vá ver Chico Buarque no Encouraçado Butikin. Só 30 de couvert, com direito a ver a Adelita dançar, a Livia passar e o Tatata subir e descer a escadinha).

Um P.S. que se impõe, já que estamos falando de coisas boas. Tenho ouvido tantos elogios ao show do Carlos Nobre que me apresso a fazer esta retificação: minha participação no "script" é mínima. Não digo isso por modéstia e sim por justiça. O show é bom porque o homem é bom. Quase todas as ideias e piadas são dele, e mesmo as minhas poucas foram melhoradas e valorizadas pelo seu talento. Parabéns, Nobre.

CHICO (II)

Folha da Manhã – 5/06/1970

É o exílio de Chico Buarque que o identifica com o tom do seu tempo, na sua terra. Há momentos em que só um grave exercício da vontade nos salva de usar o termo “alienação”, e este é um deles. Mas "alienação" seria a palavra exata para o que Chico Buarque representa, se eu tivesse o despudor de aplicá-la. Quando seu exílio era apenas imaginário, o seu, digamos, distanciamento tinha a dosagem certa de graça, erudição e desencantamento para ressoar como ressoou entre os moços da sua classe. Era o samba bem pensado. Noel Rosa com curso na Europa. O que Ataulfo Alves faria se fosse filho do Sérgio Buarque de Hollanda. Até o lirismo desavergonhado das suas modinhas tinha suficiente engenho para absolvê-lo da pecha de pieguice - supremo insulto para uma geração que aprendeu a desconfiar da farsa por trás da pose, mesmo quando esta envolvia o talento e a coragem de um Geraldo Vandré, por exemplo. (Lição inútil. Hoje em dia, num país governado por poses). Nas suas imagens trabalhadas, na sua es colha de palavras, na simplicidade apenas aparente da sua música, Chico Buarque provava que autenticidade e inteligência não se chocam. Que o luar é para todos, mesmo para quem teve o infortúnio de não nascer em favela ou subúrbio. Que violão também toca bemol e é ser- vo e não mestre.

Que a Penélope que informa a nostalgia do nosso exílio bem nascido é uma cabrocha tão meiga ou cruel ou potencialmente in- fiel como a de qualquer malandro de morro. Chico Buarque descobriu um samba de elite que fugia ao tom lamentoso e uisquoso da sub-literatura de boate – Antônio Maria, Dolores Duran, Maísa, etc. – e da genial falta de assunto da bossa nova, até o seu aparecimento as únicas alternativas para o samba tradicional. A nossa, vá lá, alienação cultural ganhara um bardo articulado.

Quando, depois do 13 de dezembro de 68, o seu desterro tornou-se real, Chico Buarque assumiu - contra a sua vontade - um significado também representa e político que ressoa. A juventude brasileira é hoje uma espectadora da própria sorte, tão distante do Estado quanto Ulisses da pátria. Vivemos de nostalgia, pois a esperança é escassa para alimentar tanta fome e frustração.

Chico Buarque não nos oferece nem uma saída nem uma inspiração. Mesmo porque essa não é sua função. Mesmo porque - como bom torcedor do Fluminense - é um homem que acredita no sistema, na consciência social da aristocracia e na boa vontade e eventual redenção dos poderosos. A sua música é hoje um consolo. Uma evocação. Só isso.

O crítico Cyril Connoly, escrevendo sobre James Joyce, lembrou que o autor de "Ulisses" reproduzira, sua própria vida, a trajetória clássica dos antigos poetas gregos: a participação juvenil na vida e no governo da Cidade, depois o desterro, depois a volta e a recapitulação crítica do seu tempo e da sua tragédia. Stephen Dedalus, herói de "Retrato do Artista Quando Jovem" e personagem de "Ulisses", dá a receita para essa tarefa: "Silence, exile and cunning". Silêncio, exílio e astúcia. Como Joyce em "Ulisses", Chico Buarque já cantou o cotidiano do herói anti-épico nacional, do Bloom brasileiro. Com paixão, compaixão, e sofrido silêncio diante da sua sina de espectador sem voz, de exilado sem volta possível. Depois do seu exílio, e com a astúcia que ninguém lhes nega, Chico Buarque e os moços da sua classe talvez estejam prontos agora para cantar e imitar os feitos de Dedalus. O que destruía para reformar e melhorar. O que tinha soluções. O que apontava saídas.