Hoje, 12 de outubro de 2024, Dia da Criança, estarei participando da Feira do Livro de Alegrete. Porque hoje é sábado, como dizia o Vinícius de Moraes. E voltar à terra da minha infância e adolescência, me encanta o coração.
Cheguei em Alegrete, analfabeto, com quatro anos de idade, aprendendo a ler e escrever no Instituto de Educação Oswaldo Aranha. Assim, quando digo que sou um escritor alegretense, não estou faltando com a verdade. Foi aqui também que aprendi a nadar, a andar a cavalo, a jogar mal o futebol e bem melhor o vôlei e o basquete, a dançar e namorar nos clubes Cassino e Caixeiral, a gostar de circo, cinema e teatro. E, entre muitos outros fatos marcantes da minha vida, foi aqui que lancei o meu primeiro livro, “Versos do Extremo Sul”, no CTG Farroupilha, com a presença de seu prefaciador, o poeta Jayme Caetano Braun, do qual estamos comemorando o centenário de nascimento.
Daquele dia 18 de maio de 1966, até este mês de outubro de 2024, publiquei mais de trinta livros, principalmente romances históricos, alguns deles traduzidos para o espanhol, francês, inglês e alemão. Vivi três anos na França e um na Alemanha, outros dez anos em São Paulo, andarilhei pelo mundo, mas nunca perdi o rumo da querência. E essa palavra para mim, significa Alegrete.
Há vinte e dois anos, comecei a dar aulas de Oficina de Criação Literária, tendo hoje mais de cem livros publicados por alunas e alunos meus. Assim, tomei a decisão de voltar bem acompanhado a esta Feira do Livro, da qual já fui patrono, o que muito me orgulha. Estarão comigo em Alegrete, neste dia 12 de outubro, às 17 horas, quando faremos uma palestra antes dos autógrafos:
Ariane Severo, a minha mulher, com a segunda edição do seu livro “Freud de Viena a Paris”, um romance histórico que esgotou sua primeira edição em apenas seis meses e já está traduzido em alemão. Eu próprio estou vertendo essa obra para o francês.
Aniuska Van Helden, alegretense, com seu primeiro livro publicado, “Beijo de Goiaba”, uma coletânea de contos onde revela um raro talento para a arte de escrever. Sabe narrar com o sabor de uma nascente de água pura, que logo se transformará num rio.
Nilton Araujo, outro alegretense com os pés apoiados na sua terra natal e a mente em contato com o universo. Ele inspirou-se na raposa do Pequeno Príncipe para criar o conto “Olhar de Sorro Manso”, que dá nome a seu primeiro livro.
Jorge Alfredo Barcellos, autor do livro “O Espelho, a Menina e o Mascate”, sabe que a palavra conto vem do verbo contar e, para fazê-lo, é preciso imaginar o leitor à nossa frente e nunca perder o sentido da oralidade. É o que ele faz a cada narrativa, como nos oferecendo um mate, cevado sempre com o que tem de melhor.
Paulo Joaquim Silla também lança conosco seu primeiro livro solo, de Janeiro ao Uruguai, uma coletânea de contos jovens, narrados com maturidade. Seu avatar com os personagens é tal, que nos conquista por completo.
Da minha parte, estarei lançando na Feira do Livro de Alegrete os romances históricos “O Pacificador – A história da vida do Duque de Caxias” e “Viamão – Trincheira Farroupilha”, além da coletânea de contos “Uma vela acesa descendo a correnteza”.
Nos acompanha o jornalista Daniel Miranda, diretor da Editora do Pampa, cuja coleção Contos do Extremo Sul foi inaugurada com meu livro acima mencionado, seguido pelas obras de meus alunos Jorge, Nilton e Paulo.
Em homenagem ao Dia da Criança, ofereço a todas elas um conto incluído em minha coletânea:
A VACA CHOCOLATE
- Levanta, meu filho, teu pai já te chamou.
- Sim, mãe… o que foi?
- Teu pai precisa de ti para ajudar a tirar leite. Tu sabes, ele só te chama uma vez. Tu não és peão e estás de férias.
- Tá bem, mãe. Me levanto num pulo.
Mario enfiou as bombachas, botou uma camisa velha e foi lavar o rosto e escovar os dentes. Ainda estava escuro quando chegou no galpão. Respirou o cheiro conhecido de esterco pisoteado e escutou os berros dos terneiros que esperavam para mamar. Três homens tiravam leite, entre eles seu pai. Com muitas vacas a serem ordenhadas, metade ainda esperava a sua vez. Como a colheita manual de trigo na vizinhança estava pagando bem, dois peões por dia tinham deixado o serviço. E a carroça com o leite precisava sair antes do nascer do sol.
Uma hora e pico até a cidade, para depois começar a repartir o leite de casa em casa em tempo para o café da manhã. Daqui a pouco o peão leiteiro, o Seu Nenê, tinha que parar de tirar leite para preparar a jardineira, metendo o tordilho velho, o Diabo Branco, entre os varais e a mula Diana numa lateral. Só no inverno, o burro Manchuriano era colocado do outro lado, por exigência da estrada embarrada.
Mario deu bom-dia diretamente ao pai, depois a todos, e bateu no ombro do Seu Nenê, que tirava leite agachado. O leiteiro respondeu a saudação com um grunhido e entregou-lhe o caneco de dois litros ainda pela metade. Fez isso e saiu apressado, porque precisava aprontar a carroça e engolir um café com bolachas, na cozinha, onde sua mulher, a Dona Constança, o esperava com tudo pronto. Também lhe daria a infalível lista de compras daquele dia, que ele pegava no Armazém Estrela e deixava tudo apontado no caderno.
Serviço brabo, o de leiteiro. Como não havia luz na Granja, não se podia guardar o leite de um dia para o outro. Assim, até nos domingos ele repartia uns cinquenta litros na cidade, tendo um único dia livre por ano, a sexta-feira santa. Isso porque, segundo a crença ancestral, se alguém ordenhasse uma vaca, em vez do leite, sairia sangue.
Bueno, ao pensar nisso, Mario sorriu, porque tinha uma vaca daquelas que fora apelidada de Chocolate por ser diferente das outras. Pelo menos para o Luiz Antônio, seu irmão mais moço. Há meses que o divertimento da peonada era vê-lo chegar, já dia claro, pedindo para tomar leite da Chocolate. A vaca, que era de pelo marrom claro, ficava para ser ordenhada no fim, para o leite da peonada. Ela dava uns cinco litros, que eram repartidos nas canecas, depois que a carroça do leiteiro já sacolejava em direção à porteira.
O velho capataz, o Seu Miguel, era encantado com o Luiz Antônio e lhe dissera que aquela vaca era milagrosa. Por sua própria conta, encomendara umas latas de Toddy, e punha duas colheres cheias no fundo da caneca do menino. Quando ele chegava, era uma alegria para o homem velho, que não tinha netos. Ele mesmo ordenhava a vaca, fazendo bastante espuma, mas não branca como habitual, pois aquela vaca dava leite com chocolate.
Naquela manhã, depois que o patrão foi tomar o seu café, o velho capataz repetiu o ritual, enquanto Luiz Antônio esperava ao lado de Mario. Quando o menino recebeu sua caneca, agradeceu ao capataz, que lhe deu um abraço. Depois disse para o irmão mais velho:
- Vou tomar lá nas casas, Mano. O pai e mãe tão nos esperando.
Quando dobraram a esquina do galpão, ele cochichou para o irmão:
- Vaca que dá leite com chocolate… Eu já tenho quase sete anos e o Seu Miguel pensa que eu sou criança.
Mario olhou impressionado para o irmãozinho.
- Mas, há quanto tempo tu sabes disso?
- Desde a primeira vez.
- Mas…
- Ele me mima durante todas as férias, encilha o meu petiço, não custa nada me fazer de bobo pra ver a alegria dele.
-…
- Tu sabe, Mano, o coitado me disse que nem sabe o que é televisão.