Caderno de Sábado

Como habitar a finitude

Especialista em práticas curatoriais, a curadora Leticia Lau trata da poética de Sandra Gonçalves na exposição “Tessituras do Adeus”

Obra da mostra "Tessituras do Adeus", de Sandra Gonçalves, em exibição no Museu de Arte do Paço: "O dentro e o fora se misturam, traços da presença estão por toda parte, a passagem surge como libertação"
Obra da mostra "Tessituras do Adeus", de Sandra Gonçalves, em exibição no Museu de Arte do Paço: "O dentro e o fora se misturam, traços da presença estão por toda parte, a passagem surge como libertação" Foto : Sandra Gonçalves / Reprodução / CP

Não vivemos a própria morte. Conhecemos a finitude através da ausência, da espera e das despedidas. Talvez por isso as experiências de perda transformem nossa relação com o tempo. Subitamente, aquilo que parecia banal — um gesto, uma imagem, uma presença — adquire uma densidade inesperada. A consciência de que tudo é transitório pode nos aproximar mais da urgência da vida do que da morte e valorizar mais o presente e aquilo que pulsa, do que o final de um ciclo, de uma trajetória ou de uma existência.

É nesse território delicado que se insere a exposição “Tessituras do Adeus”, de Sandra Gonçalves, professora de Fotografia e pesquisadora na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Nasce de uma vivência pessoal, mas se desdobra em algo que pertence a todos nós. Ao acompanhar a doença de sua mãe até seu falecimento, a artista volta seu olhar para aquilo que permanece e o que silenciosamente tece a memória, os vínculos e os afetos.

Em "Ser e Tempo", Martin Heidegger compreendeu a finitude não como um evento situado no final da vida, mas como uma condição que acompanha toda a existência humana. A consciência de que somos seres finitos nos faz estreitar os vínculos afetivos, a necessidade de guardar lembranças e de deixar vestígios. É justamente a fragilidade da vida que confere singularidade aos encontros e transforma as lembranças em algo precioso.

Se Heidegger nos lembra que somos seres finitos, Sandra Gonçalves nos recorda que também somos seres frágeis. E talvez seja justamente essa fragilidade compartilhada que nos torna capazes de cuidar, lembrar, criar imagens e permanecer uns nos outros. Reside aí uma das razões mais profundas da fotografia. Diante da impossibilidade de deter o tempo, o ser humano produz imagens. Ao capturar um instante, a fotografia não o salva do desaparecimento, mas preserva seu vestígio. Toda imagem testemunha algo que existiu e já não é mais o mesmo. É nessa tensão entre presença e ausência que a fotografia se torna memória, afeto e saudade.

A partir de fotografias realizadas em momentos de espera, durante o acompanhamento da doença de sua mãe, Sandra Gonçalves transforma pequenos instantes em registros de delicada intensidade. Ressignificadas em composições híbridas, essas imagens deixam de ser documentos pessoais para se converterem em reflexões sobre a vida, a finitude e a memória.

Ao longo da história da arte, muitos artistas encontraram na morte e no luto uma possibilidade de pensar a própria condição humana. De Albrecht Dürer e Francisco de Goya às poéticas contemporâneas de Christian Boltanski, Sophie Calle e Rosângela Rennó, a arte tem se ocupado menos da representação da morte em si, do que dos vestígios que ela produz: a memória, os afetos, os arquivos e as ausências.

Há ecos dessa tradição em "Tessituras do Adeus". Como em Boltanski, a imagem surge como resistência ao esquecimento. Como em Sophie Calle, uma experiência profundamente íntima encontra formas de se abrir ao outro e de adquirir uma dimensão compartilhada. E como em Rosângela Rennó, as fotografias ultrapassam sua função documental para se tornarem lugares de elaboração da memória.

Essa proposta conceitual se materializa, por sua vez, na própria disposição das obras no ambiente, ganhando corpo na espacialidade da mostra. Em sentido anti-horário, a exposição se organiza como uma frase composta por imagens. As fotografias funcionam como palavras que encontram seu sentido pleno na relação com as demais. A sequência das obras acompanha uma travessia marcada pela construção dos vínculos, pela espera e pela despedida, conduzindo o visitante por uma experiência em que a fragilidade e a transcendência se entrelaçam.

As tramas tecidas pelas aranhas são as primeiras imagens observadas na exposição. Há algo de profundamente humano nesse trabalho paciente e silencioso. A teia é ao mesmo tempo abrigo, vestígio e também fragilidade. Ela pode ser desfeita pelo vento e, ainda assim, é refeita incessantemente.

Em "Tessituras do Adeus", a metáfora da aranha sintetiza a própria experiência da perda. Tecemos relações, acumulamos lembranças e deixamos marcas uns nos outros sob a consciência de nossa condição transitória. Talvez seja justamente aí que reside uma forma possível de continuidade. E a fotografia, assim como a teia, torna-se um gesto delicado de resistência ao desaparecimento.

Desde os primeiros passos na exposição, o visitante é conduzido por uma experiência em que o tempo parece desacelerar. Em preto e branco e suas nuances, pequenas aranhas e as delicadas tramas de suas teias anunciam a lógica do percurso. À medida que as imagens se sucedem, surgem camadas veladas, transparências sutis, paisagens difusas e atmosferas etéreas que compõem uma cartografia afetiva em que o visível e a lembrança se entrelaçam.

Há nas obras uma suspensão que remete à experiência de habitar o tempo de outra maneira. A urgência da vida cotidiana cede lugar à contemplação, enquanto as imagens, atravessadas pela dor da partida, transformam o silêncio em saudade. Como as teias delicadamente tecidas pelas aranhas, as fotografias articulam fragilidade e resiliência em uma trama em permanente transformação. O visitante percorre estados de espírito, atravessando a espera, a vulnerabilidade e, por fim, uma atmosfera de sublimação e transcendência.

Se a finitude nos lembra da fragilidade da existência, as imagens de Sandra Gonçalves parecem recordar que, mesmo diante da perda, continuamos a tecer. Entre lembranças, afetos e ausências os vínculos reafirmam sua resiliência, encontrando sentido no próprio ato de continuar.

SERVIÇO

  • Exposição “Tessituras do Adeus"
  • Artista: Sandra Gonçalves
  • Curadora: Letícia Lau
  • Visitação: até 3 de julho
  • Horário: de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h
  • Local: Museu de Arte do Paço - praça Montevidéu, 10 - Centro Histórico - Porto Alegre
  • Entrada gratuita
  • Censura Livre