Erico Verissimo (1905-1978) e Thomas Mann (1875-1955) são dois grandes escritores que, mesmo situados em contextos distintos, guardam características ricas e comuns entre os gigantes da Literatura Universal. Cada um, em sua realidade e em seu campo de atuação — bastante diversos — construiu uma obra singular e marcante.
O nosso essencialmente Verissimo escreveu sobre a sociedade gaúcha e brasileira, identidade nacional, desigualdade social e a eterna e endêmica corrupção política no Brasil. Com estilo realista direto e simples, retratou a vida cotidiana e as relações humanas de forma objetiva. “O Tempo e o Vento”, trilogia publicada entre 1949 e 1962 e narra a saga da família Terra Cambará desde a origem no Brasil até o século XX, perpassa guerras e eventos históricos, entremeados por conteúdo humanista e realista.
Já Mann, escritor complexo, filosófico e igualmente modernista, trilhou os caminhos da crítica social com um estilo profundo e elaborado. Explorou a decadência da sociedade burguesa alemã e europeia, além de confrontar o nazismo. Entre sua vasta produção, merecem destaque duas obras primorosas: “Morte em Veneza” (1912) e “A Montanha Mágica” (1924).
O encontro inédito entre esses dois ícones do modernismo, promovido pela Casa da Memória, Goethe-Institut Porto Alegre e Instituto de Letras da Ufrgs – com apoio do Centro de Estudos Europeus e Alemães da PUCRS e Ufrgs -, ocorreu no auditório da Unimed Federação/RS na noite de 25 de novembro, no evento “Thomas Mann e Erico Verissimo – Um Só Jubileu, Romances-Rio que Confluem”. A palestra foi ministrada por Paulo Soethe, professor de Língua e Literatura Alemãs da Universidade Federal do Paraná — primeiro latino-americano a integrar a Academia Alemã de Letras — com moderação do professor Gerson Neumann, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Na abertura, Soethe retomou a leitura que Erico Verissimo fez de “A Montanha Mágica”, obra que o gaúcho classificou como um romance-rio. A expressão descreve um romance de fôlego longo, contínuo, profundo e marcado por um fluxo narrativo amplo — tal qual um rio que se estende, se aprofunda, serpenteia e abre margens interpretativas diversas.
Segundo Soethe, “A Montanha Mágica” é essencialmente um romance sobre o tempo da vida individual e o tempo histórico no qual cada um se insere. E refletiu: Na obra, Mann conseguiu moldar a própria experiência biográfica de modo a integrar-se ao tempo histórico, tornando-se, 150 anos após o nascimento e 70 anos após a morte, um dos autores preferidos de múltiplas gerações. Essa permanência, argumentou, revela a força daqueles que criam histórias e que, por meio delas, tornam-se instituições vivas capazes de sustentar identidades coletivas.
O professor ainda estabeleceu um paralelo entre “A Montanha Mágica” e “O Tempo e o Vento”, observando como ambas as obras continuam sendo marcos de formação de jovens leitores que se constroem como cidadãos de bem a partir dessas experiências literárias.
A aproximação entre Verissimo e Mann começou antes do encontro físico. Em 1935, Herbert Caro, judeu alemão recém-chegado a Porto Alegre e fugindo do nazismo, apresentou a Verissimo a obra do escritor alemão. A partir daí, Erico passou a estudá-lo profundamente, tornando-se um dos primeiros brasileiros a divulgar Mann no país. Em 1937, aos 32 anos, escreveu sobre “A Montanha Mágica”, descrevendo-a como um romance caudaloso que suspendia o leitor da pressa do mundo moderno.
Décadas depois, estudiosos reforçaram esse elo literário ao aproximar “O Tempo e o Vento” de “Buddenbrooks”, obra que garantiu a Mann o Prêmio Nobel de Literatura em 1929. Assim, mesmo que oriundos de universos culturais distintos, ambos autores produziram sagas familiares que dialogam em profundidade.
Além da afinidade literária, houve também um encontro real. Em 1941, Verissimo viajou aos Estados Unidos como conferencista em missão cultural. No livro de viagens “Gato Preto em Campo de Neve”, ele relata que encontrou Thomas Mann em Denver, Colorado, momento que descreveu com humor:
“Tomei cerveja, burguesamente, em Denver, com Thomas Mann.”
Esse encontro, breve e cordial, consolidou simbolicamente a ponte literária entre os dois escritores.
A relação ganha um contorno adicional ao lembrar que a mãe de Thomas Mann, Júlia da Silva Bruhns, era brasileira. Nascida em Paraty, filha de um imigrante alemão, viveu parte da infância no Brasil até ser levada por seu pai, após a morte da mãe, para Lübeck, aos 7 anos. Mann, portanto, carregava em sua formação cultural um quarto de brasilidade, elemento que torna ainda mais rica essa confluência literária.
O diálogo entre Erico Verissimo e Thomas Mann ultrapassa épocas, fronteiras e idiomas. Suas obras, como verdadeiros romances-rio, seguem fluindo — encontrando leitores, revelando sentidos e ajudando a moldar identidades. E, quando revisitadas em encontros como este, reafirmam a força duradoura da literatura na construção da memória cultural.