Caderno de Sábado

Contar as palavras como quem lê um poema infinito

Escritora e doutora em Literatura e Crítica Literária pela PUC de São Paulo, Isabela Bosi, analisa a obra de Elida Tessler no Caderno de Sábado

Elida Tessler, está celebrando os 20 anos de uma de suas mais potentes obras –  “Você me dá a sua palavra?” com mostra nos três anos do V744 Atelier
Elida Tessler, está celebrando os 20 anos de uma de suas mais potentes obras – “Você me dá a sua palavra?” com mostra nos três anos do V744 Atelier Foto : Filipe Conde / Divulgação / CP

Você me dá a sua palavra? Essa pergunta, que tantos de nós já recebemos, convidados por Elida Tessler a escrever, em um prendedor de roupas de madeira, uma só palavra, a nossa palavra, essa pergunta também podemos devolver à artista: Elida, você nos dá a sua palavra? Em resposta, porém, não recebemos apenas uma, mas inúmeras palavras, reunidas por ela ao longo de suas obras: as palavras rasuradas em “O Homem sem qualidades caça palavras” (2007) ou carimbadas de vermelho em “Vous êtes ici” (2010) ou grudadas nos pratos de Tanto (2004) ou gravadas nos segredos de Todos os nomes chaves (2003) ou em rolhas de garrafas lançadas no mar da travessia de Ulisses em Dubling (2010) ou em lupas no texto de Euclides da Cunha em Desertões (2015) ou des-re-feitas nas pecinhas de uma máquina de escrever que ajuda o tempo a passar em Carta ao pai (2015) – e essa lista segue, imensa.

São muitas as palavras de Elida, que são também sempre de outrem, retiradas de livros ou entregues por muitas pessoas em um envio e reenvio contínuo, vertiginoso, ilimitado entre palavra e imagem, entre a artista e seus interlocutores. Você me dá a sua palavra? – trabalho que festeja agora os seus vinte anos no V744 Atelier – é uma das peças que compõem o mosaico de palavras que a obra de Elida elabora e faz atravessar os tempos. Ao nos pedir e receber a nossa palavra, a artista conjura também as palavras de toda a sua obra, criando um movimento de criação poética, em que cada palavra carrega em si uma infinidade de possibilidades, de sentidos, de memórias – a palavra em trabalho no mundo ou o mundo trabalhado pela palavra, um word-work-world ressonante.

"Você me dá a sua palavra?” remonta às memórias de todas as mãos que escreveram as suas palavras como uma confidência, sem saber que estavam escrevendo também um poema infinito, que hoje conta com mais de sete mil prendedores que, pendurados ao longo de um fino fio de aço, somam quase 200 metros de comprimento. No entanto, esses números podem mudar e mudam a todo instante. Inclusive agora, durante a escrita deste texto, é possível que Elida esteja recebendo uma nova palavra e ampliando um pouco mais esse poema – como ela me diz, em uma de nossas conversas: "as palavras e os números estão ali para nos confundir, nos fazer sair do cálculo justo e dançar na incerteza da contabilidade".

É esse um work in progress, ou um word in process, feito por palavras que, a cada releitura, ganham sempre novos sentidos, convocando ainda as palavras que permeiam toda a trajetória de Elida, todos os seus livros, os seus objetos e os de seus doadores. Caminhando ao longo do varal disposto no Atelier V744, cada um de nossos corpos fará uma coreografia única. As palavras que você lerá certamente não serão as mesmas da pessoa ao seu lado. A poesia que se forma diante de cada pessoa é única e irrepetível, por isso também sem fim.

Virginia Woolf dizia que a poesia só existe se e quando libertamos as palavras de seus significados utilitários. Aqui, pois, o gesto de Elida é poético, libertando e deslocando a palavra de sua utilidade, a partir do pedido (que nomeia o trabalho) e do encontro que acontece quando a palavra lhe é confiada e entregue. Surge assim um poema que se estira em uma coleção de palavras únicas, como a coleção de areia de Ítalo Calvino, na qual um grão nunca é igual a outro e, como ele diz: “uma praia de pedrinhas cor-de-rosa nunca é igual a outra praia de pedrinhas cor-de-rosa”. Cada praia carrega, em si, uma singularidade e uma multiplicidade de memórias e pedrinhas, assim como o varal de Elida, composto por palavras livres de seus usos comuns e únicas a partir das mãos que as escrevem e das leituras que fazemos.

Ao adentrar o Atelier V744, somos também lançados de volta ao trabalho no qual Elida reuniu, pela primeira vez, palavra e prendedor de roupa: Temporal (1998), com suas palavras-toalhas penduradas ao vento, imóveis nas fotografias de Vilma Sonaglio, em um movimento incessante no tempo. Temporal que cai sobre Você me dá a sua palavra?, criando uma nova paisagem nesse poema que se escreve a muitas mãos. Aqui, a linha reta do varal subitamente se refaz em um rizoma, uma rede de caminhos e conexões (im)possíveis, na qual um trabalho anterior pode suceder o seguinte que, por sua vez, tem início bem antes de si mesmo.

O fio de aço, reto e emaranhado, cria imprevisíveis pontos de contato, onde amor pode ser lido junto à emergência e onde azul já não significa uma cor, mas sim olá na Cabília. Azul ao lado de azul, portanto, não cria uma mera repetição; e amor amor amor amor, escritos em tantos prendedores, não têm um só e mesmo significado. Essas e outras palavras, recebidas e guardadas por Elida ao longo de duas décadas, podem agora ser re-lidas em um fio que cria diferentes caminhos, a partir da leitura de cada pessoa que o atravessa. Mais: diante da pá-lavra que Elida nos entrega, somos encorajados a cavar mais e mais fundo, lendo para além do que está escrito. Assim, nesta montagem de “Você me dá a sua palavra?”, trabalho que merece ser imensamente celebrado, Elida nos dá, enfim e uma vez mais, as suas palavras, que são também as nossas.