Nascido em plena vigência da escravidão legal, Paulino Azurenha foi um homem negro criado em condições precárias pela mãe, talvez sem ter conhecido o pai biológico – há uma crônica em que ele declara ser órfão, o que é possível, mas também é especulável que esta fosse apenas uma maneira polida de ele lidar com o caso: filho de ventre escravizado em 1860, o bebê José Paulino foi alforriado na pia batismal pelo dono da mãe, muito possivelmente seu pai biológico.
Porto-alegrense, teve a sorte de receber educação de bom nível, graças a um padre jesuíta, como também se lerá numa das crônicas do livro. Consideremos por um momento que ele tinha onze anos no momento da citada Lei do Ventre Livre, e 28 anos quando da Lei Áurea. Que mundo ele terá vivido no cotidiano daquela Porto Alegre? Que constrangimentos experimentou, que obstáculos racistas precisou enfrentar?
Seu começo profissional dependeu de contato com Aurélio Verissimo de Bittencourt, outro homem negro, com destacada posição política. Foi aprendiz de tipógrafo, como aliás outro homem negro brasileiro, Machado de Assis, e virou revisor de alta confiança e jornalista. Em 1895, era parte do trio que fundou o Correio do Povo; em 1897, assinou com dois colegas, Mario Totta e Souza Lobo, o “romance de sensação” Estricnina.
Em suas crônicas, essas coisas da vida concreta aparecem menos do que outras, mais gerais, mais sutis. Azurenha, com seu eloquente pseudônimo de Leo Pardo, assinou por muitos anos uma coluna chamada Semanário, no Correio do Povo de seus primeiros tempos. Nela, o leitor acompanha menos a variedade da vida da cidade, e mais os eventos marcantes para a sensibilidade do cronista.
Ele celebra, por exemplo, o fim do infame caso Dreyfus, um caso de antissemitismo abominável, acobertado e mesmo impulsionado pelas elites francesas. Em outro momento também cosmopolita, enfocará a relação dos Estados Unidos com o Japão, no momento de uma guerra famosa entre o país oriental e a Rússia. Noutra passagem, um terremoto na Calábria ocupa sua atenção.
Assuntos de crônica também são locais, como uma cheia do rio; certas datas do calendário anual, como a chegada da primavera ou a quaresma; uma andorinha morta; os dez anos do Correio do Povo; a saudade; a virada do ano; o sol; os gafanhotos.
Ênfase especial parecem merecer pessoas que morriam – figuras da cidade, como o ancião Felicíssimo de Azevedo, o professor Inácio Montanha, o padre Reis, este seu benfeitor ex-professor, assim como o Padre Cacique, todos eles de alguma forma figuras paternas, a quem ele trata com desvelo. Em outra hora, é o velório de um marinheiro, um marinheiro qualquer, na igreja dos Navegantes, que ocupa o centro da cena. Tudo com delicadeza, com detalhamento, coisa de quem trata a vida com cuidados, porque sabe de seu valor.
Seu vocabulário tem aqui e ali algo de parnasiano ou preciosista (o que certamente se poderá atribuir ao momento, em que a poesia de Bilac e outros era um paradigma de excelência), mas é preciso admitir que Azurenha dedica grande energia a falar dos de baixo, dos perdedores da história. Não se trata de panfleto, e bem pelo contrário: na crônica sobre o velório do marinheiro, toda uma solidariedade humana, forte mas discreta, funciona como um cimento entre as frases e parágrafos.
São no geral descrições minuciosas, a que não faltam menções aos encantos da Terra Virgem abordada pela colonização. De vez em quando, alguma menção à mitologia clássica é feita, assim como às vezes reponta na linguagem algum diminutivo espanholado (arvorezita, asita, avezita), de resto prática comum na linguagem sulina.
Na genial crônica de 17 de novembro de 1906, o autor esboça um inesperado contraste entre uma estátua, com suas qualidades artísticas, e certa notícia, lida num jornal de Uruguaiana, sobre um velório de pessoa pobre. Isso que o tema inicial da crônica eram as virtudes do contraste, como forma de olhar para a vida!
Naquela que talvez seja a crônica com mais investimento emocional de todo o conjunto, publicada a 29 de setembro de 1906 – nenhuma delas tem título –, nosso cronista evoca um evento que para a maioria dos escritores brasileiros, assim como a maioria dos leitores, talvez tenha tido pouca ou nenhuma força, nenhum significado especial. É que num 28 de setembro, 35 anos antes (em 1871), fora promulgada a Lei do Ventre Livre. As mulheres escravizadas, dali por diante, não mais seriam vítimas de uma das mais odiosas marcas da escravidão de africanos e afrodescendentes, nos séculos em que teve vigência, nas Américas especialmente. Esta marca era a transmissão da condição escrava de mãe para filho.
Sim, verdade que houve outros momentos da história humana em que povos escravizaram outros, em muitos contextos; mas quase nunca a condição de servidão passava para os filhos. Essa perversão está, talvez, entre as mais abomináveis peculiaridades do escravismo moderno e molda, ainda hoje, a visão de algumas deletérias elites no Brasil sobre o povo.
Paulino sabia do que falava, e por isso esse texto tem algo de sublimação e de sublime, em meio à intensa dor moral e afetiva que devia habitar seu coração. O texto vai contrastando o prazer dos escravagistas, que não trabalhavam, e a dura vida dos escravizados:
Até ali quem lavrava a terra, quem capinava a terra, quem cultivava a terra – era o escravo. Ele a abria, virava-a, cavava-lhe sulcos, com a enxada ou com o arado; ele deitava a semente, zelava a planta e fazia a colheita.
Se o algodão, branquejando, florescia, era porque o escravo encanecera no amanho da terra que devia produzir; se o café rubidamente frutificava, era porque o escravo suava sangue no seu plantio.
Azurenha, como se vê, tem o cuidado de mostrar o nexo entre escravidão e produção até nas cores: o branco do algodão era fruto do escravo de cabelos alvos de velhice; o vermelho do café era proporcional ao sangue que o escravo suava. Impressionismo a serviço do desenho exato da iniquidade da escravidão.
Pois toda essa maravilha estava até aqui escondida numa esquecida edição feita em 1926 pela nascente editora da Livraria do Globo, que naquele momento arrancava para sua jornada de grandes serviços prestados à literatura. O autor havia falecido em 1909, relativamente jovem, ainda em seus 49 anos; um de seus admiradores, o também escritor Zeferino Brasil, assina a introdução, rendendo sua homenagem ao homem bom e ao grande escritor que foi Paulino/Leo Pardo.
O livro (foto ao lado) foi republicado ano passado pela editora estúdio MAR edições, aqui de Porto Alegre, com sensível apresentação de Brenda Vidal e uma Nota Biobibliográfica assinada por Alex de Cassio, editor. Agora, outra coletânea de crônicas saiu pelo mesmo selo editorial, recolhendo textos que até aqui estavam imóveis nas edições do jornal em que trabalhou e em cuja redação faleceu. Na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre, haverá um debate sobre os livros e o autor, no dia 11, terça que vem, às 16h30min. Ótima oportunidade para se aproximar dessa figura incontornável da literatura da cidade e do país.