A Biblioteca Pública do Estado (BPE), em Porto Alegre, entre 5 de dezembro e 28 de fevereiro de 2025, os visitantes serão apresentados à complexidade e belezas culturais da Tchéquia. Organizada pela Embaixada da República Tcheca, Consulado-Geral da República Tcheca em São Paulo, Consulado Honorário de Porto Alegre, BPE, Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado (AABPE), Instituto Unimed/RS, Associações Tchecas do RS e pela Casa da Memória Unimed Federação/RS, a exposição "Gigantes da Cultura Tcheca" presta homenagem a Franz Kafka, Karel Čapek, Francis Pelichek, Valdomiro Lorenz e Pavel Roučka. O quinteto, nascido na Boêmia, ostenta obras que transcendem o tempo. Agora, as histórias se entrelaçam, unindo o RS à rica herança da República Tcheca.
Caminhar da língua
Os primórdios da literatura tcheca remontam ao século X, quando as lendas de São Venceslau foram redigidas em eslavo eclesiástico, idioma que representa o registro inicial de uma língua eslava. Conforme o doutor em Semiótica e Linguística Aleksandar Jovanovic, costuma-se atribuir a Tomás Stítný (1331- 1401) o papel de primeiro escritor de importância em terras tchecas. A reforma linguística legada por Jan Hus (1371 – 1415) emprestou às gerações posteriores ao Renascimento um idioma bem estruturado; o que seria brecado durante a Guerra dos Trinta Anos (1618 – 1648), resultado da opressão política que a dinastia dos Habsburgos se encarregou de comandar. Com isso, o renascimento efetivo da língua tcheca como veículo literário surgiria apenas no final do século XVIII e início do XIX, com as figuras de Josef Dobrovský (1752 – 1829), Karel H. Mácha (1810 – 1836) e Bozena Nemcová (1820 – 1862). No fim do século XIX, Jan Neruda (1834 – 1891) emergiu como destaque e, no raiar do século XX, despontaram Petr Bezruc (1867 – 1958), Otakar Brezina (1868 – 1929) e Jaroslav Hašek (1883 – 1923). É nesse contexto que vicejam Franz Kafka (1883 – 1924) e Karel Čapek (1890 – 1938), homenageados da exposição Gigantes da Cultura Tcheca.
Kafka: Sussurro do absurdo
Natural de Praga, a “mãezinha com garras”, Franz Kafka foi um autor cuja obra influenciou profundamente a literatura. Conhecido por seu estilo peculiar de explorar o absurdo, emergiu das sombras de um lar opressivo para se tornar um farol de genialidade. Imagine acordar um dia e descobrir-se transformado em um inseto monstruoso. Este é o pesadelo vívido que Kafka apresenta em "A Metamorfose", obra-prima que desafia a realidade e mergulha nas profundezas da condição humana. Kafka criou um universo inteiro, um labirinto de burocracia sufocante e alienação palpável. "O Processo" e "O Castelo" são espelhos distorcidos que refletem lutas contra sistemas incompreensíveis e opressivos. Um século após sua morte, o impacto do autor transcende fronteiras e idiomas. Agora, a BPE oferece uma exposição que captura a essência de Kafka, proporcionando um vislumbre do mundo que o inspirou e da atmosfera enigmática que deu origem ao universo kafkiano.
Čapek: Profeta dos robôs
Karel Čapek, escritor tcheco e profeta literário, cunhou o termo "robô" e revolucionou a ficção científica com sua peça "R.U.R." (1920). Na obra, ele imagina um futuro onde robôs, concebidos como força de trabalho, se rebelam contra seus criadores humanos. A peça introduziu o conceito à cultura popular, servindo como poderosa metáfora sobre os perigos da exploração tecnológica. Ardente defensor da democracia, também usou sua literatura como ferramenta de resistência contra regimes totalitários, colaborando estreitamente com Tomáš Garrigue Masaryk, primeiro presidente da Checoslováquia (1918). Čapek faleceu de pneumonia em 1938, pouco antes da invasão nazista. Seu irmão Josef, pintor e escritor, não teve a mesma sorte, perecendo no campo de concentração de Bergen-Belsen, em 1945. Tal destino sombrio ecoou o das irmãs de Franz Kafka, que também sucumbiram ao Terceiro Reich (nos campos da morte de Hitler), sublinhando o impacto devastador do regime nazista na intelligentsia tcheca.
Quem veio antes
A presença de Kafka e Čapek no RS – por meio da exposição em cartaz na BPE – é precedida pelo desembarque em terras gaúchas dos conterrâneos Francisco Valdomiro Lorenz (1872 – 1957) e Francis Pelichek (1896 – 1937). Enquanto o primeiro chegou ao estado em 1893, Pelichek estabeleceu-se em 1922.
Lorenz: Guardião das palavras
Em Dom Feliciano, Valdomiro Lorenz encontrou um lar para sua missão cultural. Filólogo e poliglota, que dominava cerca de cem idiomas e dialetos, dedicou-se ao discurso de paz e à preservação das línguas. Natural de Vrdy, aos 19 anos, emigrou para o Brasil. Autor do primeiro dicionário tcheco-português, Lorenz – pai de 24 filhos (12 adotivos) – comunicava-se em idiomas como sânscrito, hebraico, grego antigo, chinês, japonês e árabe. Chegou a traduzir uma passagem do Evangelho de João para 70 idiomas. Seu interesse incluía também aramaico, tupi-guarani e outros. Sem posses, faleceu em 1957, mas sua produção literária continua a ser estudada por pesquisadores no Brasil e na Europa, fascinados por como um homem tão simples poderia dominar até linguagens mortas do Egito.
Pelichek: Boêmio e brasileiro
Francis Pelichek trouxe a POA sua sofisticação e olhar aguçado, impactando o cenário artístico local. Em 1922, tornou-se professor no Instituto de Belas Artes da Ufrgs, onde atuou por 15 anos. Mergulhou na vida cultural da cidade, ganhando respeito e admiração de nomes como Angelo Guido e Fernando Corona. Peli deixou sua marca na Revista do Globo e em diversos outros trabalhos, capturando a essência do regionalismo, celebrando o espírito e os costumes do RS com um toque autêntico. Naturalizou-se brasileiro em 1935. Morto em 1937, seus cadernos de estudos são tesouros documentais, repletos de registros e anotações do cotidiano. A exposição "Gigantes da Cultura Tcheca" exibe algumas de suas produções e apresenta trechos de seu diário, escrito em tcheco e que deve virar livro no próximo ano.
Roučka: Arte Contemporânea
A mostra oferece, ainda, a oportunidade de apreciar o talento do pintor Pavel Roucka (1942). A produção de Roučka, reconhecida por sua expressividade e técnica, chega a Porto Alegre para, em seguida, ganhar o país; em março de 2025, as litogravuras do artista estarão em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, no maior projeto cultural já realizado pelas missões diplomáticas da República Tcheca em território nacional.
Ponte entre mundos
A exposição "Gigantes da Cultura Tcheca" une tesouros tchecos e acervos locais, fortalecendo laços entre a Tchéquia e o RS. Mais do que uma exibição, é palco vivo para o diálogo cultural contínuo, construindo pontes entre povos, promovendo respeito e colaboração internacionais. Com os gigantes, é possível redescobrir a humanidade compartilhada, vislumbrando um futuro de rico intercâmbio cultural.