Caderno de Sábado

D. Leopoldina, conspiradora do Palácio S. Cristóvão

Arquiduquesa Maria Leopoldina da Áustria
Arquiduquesa Maria Leopoldina da Áustria Foto : Josef Kreutzinger / Reprodução / CP

Desde 1815, quando D. João VI eleva o Brasil à condição de Reino Unido a Portugal, resgatando os atrasos políticos, um fervor patriota e de união circula por todas as províncias, congregando os brasileiros em torno de uma nova bandeira, ao contrário do que ocorre por toda a América Espanhola 

Ao ser aclamado e coroado em 1817 como Rei, D. João VI no Rio de Janeiro onde é benquisto e reverenciado por todos, a mensagem de que o Brasil é o Reino, ao passo que Portugal distante, empobrecido e governado por Junta Administrativa, sujeito a um rei distante, agora é colônia do Brasil aumenta o caráter de brasilidade, ainda mais por haver sucessores: D. Pedro I e Maria Leopoldina. O relacionamento do casal em alta. Cativado pela cultura pelos conhecimentos em economia e política da esposa, parceiro na leitura dos livros e das discussões decorrentes, D. Pedro I descobre ter uma conselheira com visão nos assuntos de governo.

D. João VI como rei de Portugal, mantém contato por carta com a Junta de Lisboa, apesar do tempo levado para o recebimento e resposta de ofícios. Mas o soberano feliz e realizado no Brasil não tem interesse na volta. Ao incorporar a Província Cisplatina em 1818., define as fronteiras sul de um Brasil mais unido, A entidade nacional aumenta, com acréscimo de população, com novas riquezas como o café e o algodão. D. João VI rege um Brasil que descobre a sua identidade, centrado na estabilidade do reino e com as receitas das alfândegas não indo para Lisboa.

Maria Leopoldina, mantendo contato por cartas com parentes na Europa está ao par do que ocorre na Europa e no Mundo. Depois no Rio de Janeiro, no meio diplomático estabelece relações com cônsules e dignitários diplomáticos das principais nações. Ela percebe que seus filhos, chamados de meus brasileirinhos, nunca teriam o Reino de Portugal, por isso é ardorosa defensora da Independência do Brasil, com a separação dos dois reinos; ela vai ocupar papel de destaque nos próximos eventos que tumultuam o Reino de D. João VI no Brasil. 

Em 24 de agosto de 1820, na cidade do Porto eclode uma revolta liberal contra a intromissão britânica nos negócios de Portugal e demanda nova Constituição, onde a família real deve retornar do Brasil com menos poderes. Há alternativas, onde o soberano fica e manda D. Pedro I seu lugar. Leopoldina usando a gravidez, convence o esposo a ficar, pois D. Pedro I tem ideias liberais e quer retornar a Lisboa. Em 9 de janeiro de 1821, o dia do Fico, D. Pedro I declara:
“ Se é para o bem de todos diga ao povo que fico.” 

Devido as pressões, evitando derramamento de sangue, em 25 abril de 1921, um choroso D. João VI volta para Lisboa, levando o tesouro real e parte da corte. Na despedida fica o conselho ao filho, agora regente do Reino do Brasil:
“Sé é para nos separar, antes seja para ti que vai me respeitar do que para outro aventureiro.”

Dona Leopoldina, aumenta a sua atuação de conspiradora, sabe que a separação será inevitável, mas antes precisa vencer a teimosia do esposo e garantir o direito dos seus filhos. Agora é adepta da Independência e procura estimular apoiadores. Em março de 1821 nasceu João Carlos, futuro herdeiro da coroa do Brasil, ela sabe que Portugal não vai aceitar a existência de 2 reinos, que o objetivo das Cortes Portuguesas é reduzir o Brasil a condição de antiga colônia, abolindo todos os decretos e alvarás de D. João VI, algo inadmissível para ela e para a maioria dos brasileiros. 

Com o aumento das pressões de Lisboa, com a ordem dos comandantes militares no Rio de prender D. Pedro I e família, ela busca refúgio numa chácara escondida no interior. Devido ao calor e pelas condições da viagem, o príncipe João Carlos que tem problemas de saúde, morre em 4 de fevereiro de 1822 o que enfurece D. Pedro I. Com o apoio das tropas dos navios estrangeiros, surtos no porto do Rio de Janeiro, por sugestão da esposa, prende os comandantes lusos que são exilados para Portugal. Devido a problemas em São Paulo, em missão de pacificação, D. Pedro I deixa sua esposa como regente, com plenos poderes à frente do governo. Maria Leopoldina ao receber notícias que frota armada partirá de Portugal para restabelecer a ordem e prender D. Pedro I e família, toma decisão plena de autoridade. Em 2 de setembro de 1822, declara a separação do Brasil, com apoio de todo o gabinete, onde José Bonifácio é aliado, Era importante comunicar ao esposo a decisão, necessário apenas o aceite e a assinatura no documento. Junto ao despacho envia carta.

“O pomo está maduro, hora de colher a fruta, antes dela apodrecer,” 
A mensagem e carta encontram a comitiva de D. Pedro I em 7 de setembro de 1822, no riacho Ipiranga em São Paulo. Depois de ler as mensagens. D. Pedro I, brada as palavras aguardadas por todos os brasileiros, sacando as fitas portuguesas da farda: 
“ Independência ou Morte.”
Começa a consolidação do continente Brasil. 

* Engenheiro, professor e escritor com 16 livros publicados.