Caderno de Sábado

Desígnios do tempo

O arquiteto, professor da PUCRS, escritor e poeta Flávio Kiefer escreve sobre a exposição, “Acordei ontem, ainda era hoje”, do fotógrafo Fábio Del Re, que inaugura neste sábado, 15, 17h, no V744atelier

O fotógrafol Fábio Del Re inaugura no próximo dia 15 de março, sábado, às 17h, sua nova exposição, “Acordei ontem, ainda era hoje”, no V744atelier.
O fotógrafol Fábio Del Re inaugura no próximo dia 15 de março, sábado, às 17h, sua nova exposição, “Acordei ontem, ainda era hoje”, no V744atelier. Foto : Fabio Del Re / Viva Foto / CP

Ao ser convidado a escrever esse texto – que eu chamo de observações de uma exposição de artista – duas coisas me chamaram a atenção. A primeira é o lugar: Vilma e Enio disponibilizaram salas de sua moradia para que artistas expusessem seus trabalhos. Também ali, é o ateliê da moradora, que é artista, e lugar de encontros e debates. Tudo isso sem interesse comercial de qualquer natureza. Uma junção rara e, talvez, inédita para a arte em nosso meio. Tudo é feito em nome da valorização dos artistas e da sua produção. A outra é a riqueza de significados que emanam dos trabalhos escolhidos por Fabio para serem apresentados nesse espaço.

A arte fala por si, esse é um bordão conhecido. Entretanto, na contemporaneidade, essa máxima tem sido contraposta pelo costume da arte ser apresentada por um terceiro: o curador, figura que passou a intermediar a obra e o público. No caso da exposição de Fabio Del Re, essa praxe não foi usada. Aqui não há curadoria de terceiros. Aliás, atitude que o Ateliê V744 incentiva, pois tem, também nisso, uma proposta diferenciada das galerias de arte tradicionais.

Percebi logo que Fabio e Vilma tinham toda razão, uma curadoria intelectualizada corria o risco de limitar o alcance artístico do seu trabalho. Estamos diante de um artista que se expõe sem intermediação, ele mesmo se responsabilizando pela seleção do que e como expor. Isso por si só suscita um diferencial para essa mostra.

Mas Fábio não se furta de expressar suas intenções motivadoras, de falar da busca que fez na elaboração desses trabalhos: a sua vontade de entender os desígnios do tempo. O passado permanece, ele segue entre nós, nos diz. É disso que ele trata através de suas fotos/obras que ultrapassam o conceito tradicional de fotografias. Estamos diante de uma produção que quer falar sobre o tempo, sobre a memória, sobre a presença e a ausência como conteúdo norteador, mas, se nos deixarmos levar pela fruição do que nos é apresentado, fala de muito mais.

Sobre a questão do tempo, ele nos mostra a presença do passado através de uma série de retratos de um tempo que passou, de objetos antigos como garrafinhas que já foram utilizadas em sua função original. As fotos, que ele refotografou e manipulou, foram buscadas nos briques da vida. Não lhe importam as datas, o lugar, as feições desses personagens anônimos. Pelo contrário, suas feições são recortadas, deixando à mostra substratos de outra ordem: o nitrato de filmes velados que emanam a pulsão tão própria do que é vivo. Os personagens sem rosto não deixam de passar as emoções do momento da foto pela linguagem de seus corpos, pela pose, contexto, distribuição dos personagens na composição, costumes, relacionamentos e afetos. Mais pulsão à vista.

O passado não é estático, ele se move, cresce e pode morrer se não for bem cuidado como as plantas que ele guarda carinhosamente em garrafinhas com água. Tão vivas quanto as fotos ali mergulhadas, que parecem estar aguardando o momento de brotarem. E nós também somos incorporados a esse ambiente de passado-presente quando vemos nossa imagem refletida num misto de espelho e filme velado de radiografias que não revelaram antes e agora nos revelam.

Todo esse discurso seria suficiente para apaziguar os anseios contemporâneos de uma racionalização do que se vê, mas, em sendo arte, faço questão de dizer que não é possível reduzir essa exposição a esses argumentos. Não. Sabemos que o que movimenta o artista é seu mundo interior, onde o inconsciente tem domínio quase absoluto. E é ele que pede para estabelecer uma conversa com os nossos mundos internos. Está aí a maior beleza da arte. Está aí a impossibilidade de transformá-la em discurso sem prejuízo dela própria.

Aqui, preciso dizer que o mundo interior de Fábio é muito rico e complexo e é disso que a exposição também fala. A delicadeza e cuidado estético de cada obra, o estudado efeito visual e compositivo de cada uma delas, sua graça particular e localização relacional fazem aflorar muitos substantivos e adjetivos que não conseguem expressar o que verdadeiramente sentimos ao apreciá-los. Não se aflija, é assim mesmo. É arte. Desfrute-a.

SERVIÇO:

O Quê: "Acordei ontem, ainda era hoje”. Exposição individual de Fabio Del Re.

Texto critico de Flávio Kiefer

Quando: Abertura dia 15 de março de 2025, sábado, das 17h às 20h. Visitação de 17 de março a 28 de março de 2025, de quartas a sextas, das 14h às 17h. Outros dias e horários, agendamento pelo DM do @V744atelier.

A partir do dia 28 de março até 26 de abril, a visitação será de terça a sábado, das 10h às 18h.

Onde: V744atelier | Rua Visconde do Rio Branco, 744 | Porto Alegre - RS

Quanto: Entrada franca

Recomendação etária: Livre