Ao meu amigo Flávio, e seus quarenta afilhados e afilhadas, com afeto e admiração.
Com a palavra o professor Flávio Loureiro Chaves, paraninfo dos formandos da Turma Erico Verissimo, do Instituto de Letras, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em lugar de destaque, o grupo de jovens olha com simpatia para o paraninfo. Com apenas trinta anos, ele foi escolhido entre um grupo altamente qualificado. Professores como o catedrático de Literatura, Guilhermino César, um iluminista de cultura universal; o diretor Donaldo Schüler, helenista que lê os poetas gregos e latinos no original; Albino de Bem Veiga, Celso Pedro Luft, Olga Fedossejeva, José Hildebrando Dacanal, Lilian Brass, a Homenageada Especial, Nora Ther Thielen, o professor que recebe a Homenagem Póstuma, Elpídio Paes, e tantos outros que souberam transmitir seus conhecimentos aos quarenta formandos.
Diante da tribuna, Flávio Loureiro Chaves acomoda as folhas de papel com seu discurso datilografado, ergue o peito e fala para a plateia atenta:
Magnífico Reitor, Professor Ivo Wolf; Magnífico Vice-Reitor, Professor Homero Jobim; Senhor Diretor, Professor Donaldo Schüler; Senhor Vice-Diretor, Professor Walter Koch; Senhora Secretária, Professora Cemina Rocha Zimmermann; Senhor Milton Geraldo da Silva, Funcionário Homenageado Especial; Demais autoridades civis, militares e eclesiásticas; Familiares e amigos dos formandos, em especial os seus pais e cônjuges, que os apoiaram em todos os momentos; Meus afilhados, que me dão a honra de ocupar esta tribuna como paraninfo de uma turma que acaba de receber seu diploma do Curso de Letras:
Há poucos instantes vós prestastes um juramento que deverá vos servir de guia em vosso caminho profissional: “Prometo cumprir fielmente com os deveres do meu grau, honrar e defender os valores do espírito e da verdade, tudo fazer em prol da cultura e da grandeza do Brasil.”
Não por acaso, vós escolhestes Erico Verissimo como o nome que eternizará vossa Turma, dedicando a ele as seguintes palavras: “Escolhemos este querido escritor para Patrono, com a finalidade de prestar uma justa e reconhecida homenagem a ele que é uma das maiores expressões literárias do nosso país.”
Infelizmente, no dia 28 de novembro, depois que os levei, como vosso paraninfo e amigo de Erico e de sua esposa Mafalda, a fazer-lhe pessoalmente o convite para patrono de vossa turma, o escritor nos deixou no plano terreno, tendo sido esta, certamente, a última homenagem que recebeu em vida.
Assim sendo, nada mais me resta do que transformar esta saudação a vós dirigida, numa despedida ao escritor que, mercê da fantástica obra literária que nos deixou, continuará sendo, e para sempre, uma das maiores expressões literárias do nosso país.
Tocado de profunda emoção, Flávio interrompe a leitura por alguns segundos, com muitos olhos, alguns enevoados de lágrimas, nele concentrados. Depois, prossegue:
Ao longo de sua obra, Erico Verissimo sempre manteve presente a problematização do ato da escritura, discutindo o próprio texto que apresenta ao leitor. O debate sobre a função da literatura é questão obsessiva para algumas das suas personagens, tornando-se núcleo do texto de ficção. Desde os romances iniciais, onde a personagem Noel tenta escrever uma narrativa, até o diário do Professor Terra em “Incidente em Antares”, passando pelo alter ego Floriano Cambará, a figura do escritor é seguidamente transportada para dentro da própria história narrada, propondo o tema “do livro dentro do livro”.
Creio que as raízes primeiras dessa questão encontram-se num diálogo de “Um lugar ao sol”, onde Noel diz compreender a literatura como uma fuga da vida real, e é severamente advertido por Fernanda: “Quando se procura um livro não é para fugir à vida, mas sim para viver ainda mais, viver a vida de outras personagens, em outras terras, outros tempos. Ainda é o desejo de viver que nos leva para os romances”.
O problema retorna com intensidade num livro de 1943, “O resto é silêncio”, através da personagem Tônio Santiago. Aqui, pela primeira vez, a figura do escritor é trazida para o primeiro plano, ocupando o centro da narrativa, para funcionar como o ponto de convergência dos vários subenredos, prenunciando já a técnica de “O arquipélago”. Neste processo narrativo identificam-se a personagem problemática, que se confronta com a realidade degradada, e o escritor que elabora o mundo da ficção numa tentativa de interpretar e superar essa mesma realidade. O depoimento sobre a sociedade observada – que é inicialmente uma intenção do autor e, portanto, um elemento extrínseco à obra – passa a ser uma função das personagens. Constitui assim um fator inerente à ficção e que participa necessariamente do discurso literário. Na palavra de Tônio Santiago mescla-se indissoluvelmente a fotografia social e a possibilidade de transferi-la para um texto imaginário que, não obstante, está diretamente engajado na impugnação da realidade. Ao responder a uma pergunta da filha, que indaga se pretende apenas contar uma história, ele diz: “Ainda quando um escritor quer ser imparcial e absolutamente objetivo, na simples escolha do tema, das personagens, na pura disposição das cenas, ele está dando a sua opinião sobre a vida, o mundo, os homens...”
Escrever um romance significa, pois, dialetizar a realidade em todos os níveis – do individual ao social, do histórico ao mítico – revelando-a no mundo da ficção.
Foi a luz dessa compreensão do sentido da literatura que o realismo social de Erico Verissimo atingiu o vasto painel de “O tempo e o vento”, incluindo aí simultaneamente a crônica duma família, a visão crítica da sociedade gaúcha, a arguição do código burguês, uma profunda reflexão sobre a marcha da História e a fundação de um universo mítico. Os fundamentos desse universo são as suas personagens: Pedro Missioneiro, Ana Terra, Bibiana, os dois Rodrigo Cambará, Maria Valéria, Licurgo e Floriano Cambará. Este último é novamente um alter ego de Erico Verissimo, personagem-escritor de “O arquipélago”; e pela sua palavra fica explícito o valor atribuído ao julgamento da sociedade numa forma peculiar de romance onde a invenção e a fantasia estão intimamente vinculadas à inquirição sobre o destino da sua terra e da sua gente. Constatando a desagregação moral da sua família, que não é senão um reflexo maior da corrupção social e política, Floriano Cambará conclui: “A situação fascinava o contador de histórias, mas como homem e personagem daquela comédia de erros, ele não podia deixar de sentir uma certa inquietação e um desconcertante mal-estar”.
Por isso Floriano Cambará-Erico Verissimo se decide a contar a história de Santa Fé e do Rio Grande, e, assim, o último parágrafo do “Arquipélago” coincide com o primeiro de “O continente”, globalizando a reflexão histórica. O escritor não pretende a mera celebração dos antepassados, mas, antes, indagar a falência social de que se sente prisioneiro.
A ficção de Erico Verissimo se faz engajada, não só porque registra objetivamente a sua sociedade, mas, sobretudo, porque o escritor-personagem situa-se de maneira voluntária e consciente no centro da ação narrada. Deriva precisamente daí o confronto com as piores formas da tirania no mundo atual, estabelecida nos textos mais recentes de Erico: “O senhor embaixador”, “O prisioneiro” e “Incidente em Antares”. No primeiro desses romances se dá o desmascaramento da engrenagem política internacional; no segundo, o libelo contra a tortura e a devastação da guerra ideológica, prevalecendo em qualquer dos casos a análise do inútil sacrifício da individualidade. Finalmente, no cenário fantástico do “Incidente em Antares”, a reiteração da técnica narrativa que se tornou característica desde a invenção de Jacareacanga e Santa Fé: a humanidade é sintetizada e projetada no espaço de uma cidade microscópica.
Mergulhados a fundo nas palavras do paraninfo, os formandos interpretam individualmente, como leitores, os conceitos que explana com conhecimento e emoção. Sim, ninguém melhor que Flávio Loureiro Chaves para pintar esse mural sobre Erico Verissimo.
... que determina a privação da liberdade. Afinal, o universo de Erico sempre girou em torno dessa maldição que se instalou em nosso mundo e, por isso mesmo, a sua adesão está reservada a certas personagens que - muitas vezes sem saberem a razão – lutam por exorcizá-la. Esta é a luta de Fernanda e Noel, de Clarissa e Vasco, de Olívia e Eugênio contra o machismo caudilhesco de Jacareacanga ou o código estreito da burguesia; de Floriano Cambará contra a má tradição da violência física e moral dominante na formação de sua gente; de Pablo Ortega contra a vida mecanizada da sociedade pós-capitalista que se estratificou nos extremismos políticos essencialmente castradores.
Alguns dos formandos remexem-se nas cadeiras. Se ele continuar assim, não duvido que o prendam na hora da saída. Tem muita gente neste salão enfiando o barrete até às orelhas.
... se manteve em firme confronto com todas as manifestações do totalitarismo triunfante... E é nesse nível da interpretação crítica que se pode deparar com a verdade mais profunda expressa em sua obra.
A generosa elaboração da atitude humanista perante um mundo desumanizado levou-o a identificar a consideração do problema relativo à privação da liberdade com a própria luta entre a vida e a morte. Assim, a mais terrível batalha de “O tempo e o vento” não ocorre sobre campos e coxilhas ensanguentados, não pertence a caudilhos e guerreiros; está cifrada na silenciosa luta de mulheres fortes e pacientes como Ana Terra, Bibiana, Maria Valéria para assegurarem a continuidade da vida contra o instinto de morte que trabalha na civilização. É pelas mãos da primeira delas que inicia a dolorosa reconstrução, na primeira parte de “O continente”, depois que o espaço circundante foi inteiramente devastado pela arremetida bestial da violência.
Para além da fotografia realista e do juízo social, mas sempre a partir daí, a ficção de Erico Verissimo reescreve sempre o drama da condição humana cifrado no mito da luta contra a destruição e a morte. Isto assegura a integridade do homem através de quarenta anos de produção literária ininterrupta e constitui o fundamento de uma obra que alçou a ficção rio-grandense ao seu nível mais alto.
Flávio ergue os olhos da última folha de papel de seu discurso e encara a turma de formandos:
Nada mais vos tenho a dizer, minhas afilhadas e afilhados, senão repetir as palavras que Erico Verissimo colocou nos lábios da personagem Fernanda:
“Quando se procura um livro não é para fugir à vida, mas sim para viver ainda mais.”
Confiem nas Letras como o farol que ilumina e iluminará as vossas vidas. Sede felizes e honrai as palavras que durante os últimos anos, uma a uma, nós professores e os mestres da literatura colocamos diante de vós!
Flávio Loureiro Chaves desce da tribuna aplaudido de pé pelos formandos e pela maioria dos presentes.
Assim, no dia histórico de 20 de dezembro de 1975, foi prestada uma das mais importantes homenagens ao grande mestres do romance rio-grandense, brasileiro e universal. Digna de ser contada neste alvorecer de 2025, que vamos dedicar, nas plagas do Sul, aos cento e vinte anos do nascimento de Erico Verissimo e aos cinquenta anos de sua partida.