Um revolucionou o teatro a golpes de criatividade, acidez e horror à hipocrisia. Mas era fascista. Gostava de Benito Mussolini. O outro, sendo homem, criou uma das personagens femininas mais verossímeis da história da literatura: Madame Bovary. Aos 58 anos de idade, Pirandello apaixonou-se por uma atriz de 25 e mudou de lado. O amor faz milagres. Ela foi o seu fetiche no palco. O resto vai do platonismo à privacidade. Luigi Pirandello ainda não foi cancelado. Morreu em 10 de dezembro de 1935, há 85 anos. Como data, para o jornalismo, significa pouco, não é redonda como cem. O século é o grande fetiche. Meio século também fascina, mas não tanto. Pirandello colocou vastas doses de ironia e de humor nos seus textos. O mais famoso deles é “Seis personagens à procura de um autor”. Levou o Nobel da Literatura, em 1934, quando se estava a um passo da perdição. Flaubert nasceu em 12 de dezembro de 1821, há redondos 200 anos.
Em “Seis personagens à procura de um autor”, essas criaturas invadem um ensaio de teatro, renegadas que foram pelo demiurgo, e tentam a última chance, ou seja, ser aceitas pelo diretor. Pirandello consagrou o teatro do espelho, aquele que quer capturar a realidade sem filtros. Numa época em que tudo é narrativa, com a realidade reduzida a uma projeção da mente de cada um, lembrar Pirandello é render homenagem a uma ideia, talvez utopia, dos fatos, quando ainda existia um referente, lastro contra o qual medir as ficções e as filosofias. Depois, tudo se virtualizou. Flaubert foi processado, em 1857, por atentado ao pudor com sua adúltera Bovary. Queria levar a realidade para cada linha escrita. Martha Ribeiro sustenta que Marta Abba, atriz da última paixão do dramaturgo italiano, era uma “vamp virtuosa”. Estiveram juntos no Brasil. O que isso tem a ver? Não sei.
Já não escrevo. Sou escrito por meu inconsciente, que seria também o nome do meu gato, se eu tivesse um. Havia algo no ar: a obra deveria ter qualidades que não dependessem da biografia do escritor. Mais tarde, franceses declarariam a morte do autor. Esse atestado de óbito indicava que, publicado o texto, o criador não interessava mais ou era só uma assinatura. Daí a inveja de muitos. Ilusão de independência da obra? Trapaça intelectual que criava qualidades intrínsecas quando tudo estava ligado às circunstâncias das biografias com suas relações e marketing? A biografia ressuscitou. Pirandello e Flaubert pertenceram a tempos, como Céline, em que a genialidade era categoria respeitável e superior às ideologias e aos seus zeladores?
Pirandello tinha sua filosofia da arte: “Todo o fantasma, toda a criatura de arte, para existir, deve ter o seu drama, ou seja, um drama do qual seja personagem e pelo qual é personagem. O drama é a razão de ser do personagem; é a sua função vital: necessária para a sua existência”. O drama de Madame Bovary era a vontade de escapar da mediocridade. Hoje falamos de bovarismo. Pode haver também o drama de cada época. O do nossa é a insustentável opacidade do ser. Haverá um novo Pirandello? Um novo Flaubert? Ainda poderemos admirar alguém de quem não possamos nos orgulhar ideologicamente? Entramos na era da diferença absoluta, no tempo da indiferença refrigerada ou na obrigação da equivalência moral incondicional? No auge de Pirandello e de Flaubert, absolvido pela justiça apesar do moralismo dominante, fazer arte, ao que parece, era poder sair da sua marca d’água.
* Jornalista, professor, escritor, sociólogo e coordenador editorial do Caderno de Sábado