Caderno de Sábado

Digna é a volta de Sergio Faraco nos anos 1960

Professora de literatura, ensaísta e crítica literária, Lea Masina, analisa a mais recente obra do escritor alegretense, “Digno é o Cordeiro”, lançada em 2024

COLETIVA FINAL DA  70ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE EM 2024
COLETIVA FINAL DA 70ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE EM 2024 Foto : Mauro Schaefer / CP Memória

Sergio Faraco é, hoje, considerado um dos grandes contistas do Brasil, mas sua obra inclui crônicas, traduções, pesquisas e organização de antologias. Em 2002, publicou “Lágrimas na Chuva”, obra em que narra fatos e experiências vividas na Rússia (na época, União Soviética), por volta dos anos 1960. Lá frequentara a Universidade de Moscou com bolsa de estudos do governo russo, intermediada pelo Partido Comunista Brasileiro. Encontros, emoções, desenganos e o sofrimento desse período constituem o corpo da narrativa. E seu epílogo retrata a volta do jovem escritor ao Brasil, aqui coincidindo com a implantação da ditadura militar. O que se passa com ele, a partir de então, o livro silencia.

Por mais de vinte anos, amigos pediram a Faraco que escrevesse sobre seu retorno ao país, até porque sabíamos das dificuldades que vivera e o modo como as enfrentara. Ele se recusava. Conhecíamos algumas passagens, episódios que relatava ao acaso, pontas mínimas e visíveis de um iceberg de injustiças, crueldade e sofrimento. Não é fácil escrever sobre o terror. Mas, decorridas algumas décadas, às vésperas de ser celebrado Patrono da 70ª Feira do Livro de Porto Alegre em 2024, Sergio Faraco publica um livro maduro, com a clareza, o talento e a honestidade que fazem dele um grande escritor e uma pessoa verdadeiramente humana.

“Digno é o Cordeiro” retoma a narrativa do ponto em que “Lágrimas na Chuva” encerra: o retorno do autor a Porto Alegre, a Alegrete e à família, sob o peso da desilusão com o que vira e vivera na Rússia, agravada pelo internamento compulsório num abrigo para dissidentes do regime. Em capítulos curtos e intensos, o livro narra eventos tais como: a ida a Alegrete, onde se depara com os “alcaguetes de província”; as tentativas de retomar o emprego na Junta Trabalhista, com os empecilhos ditos burocráticos que dissimulavam perseguições compulsórias; o relacionamento tenso com “pseudoamigos”; e o período em que, mesmo sem culpa, foi interrogado e torturado por um comissário e por agentes da Interpol. São fatos repudiáveis, característicos dos regimes autoritários e ditatoriais, quando a proteção aos direitos individuais é abolida. E tornam-se mais chocantes por serem de natureza autobiográfica.

Mas literatura não se resume a depoimentos e relatos. O texto literário é teatro, é encenação. Há um capítulo inicial que ajuda a entender o recurso psicológico de que se vale o escritor no ato corajoso de escrever sobre o tema de sua prisão arbitrária e da crueldade a que foi submetido pela polícia do Estado. É no capítulo “Ameaça à meia-noite”, quando descreve o esbulho de sua privacidade e narra a invasão dos policiais ao quarto que ocupava no Hotel Carraro. Em busca de provas para acusá-lo, seu quarto é saqueado; roupas, livros, papéis, pertences são arrestados. E enquanto ele assiste, impotente, a essa violência, o texto se transforma: o “autor-personagem-narrador” divide-se entre o eu e o tu, para suportar a ameaça brutal e abusiva dos policiais: “E tu vendo aquele despejo dos teus pertences”. “E tu vendo”. “Te sentes do avesso”.

Seguem-se fatos concretos que ajudam o leitor a situar-se na Porto Alegre da época, a localização de ruas, logradouros, praças e prédios. E informações necessárias para compor o clima da história: a condição do escritor como funcionário de Junta Trabalhista em Tubarão, em Santa Catarina, seu encontro com amigos e parentes, além da sua já descartada filiação ao PCB. E, pela importância no desenvolvimento do enredo, cabe ressaltar o parentesco com o coronel Washington Bermudez, tio de Faraco e então Secretário da Segurança Pública do Rio Grande do Sul. Quem viveu os acontecimentos da época lembra que, durante a gestão do coronel, foram numerosas as atrocidades cometidas nos porões do DOPS e nas delegacias. No livro, Faraco elege uma fala do tio-coronel para marco referencial que irá pontear o desenvolvimento da narrativa: consultado pelos policiais sobre o que fazer com o sobrinho “comunista” detido pela Interpol, ele responde: “Segue o baile”! E o “baile” prossegue até quase os últimos capítulos. Um baile ímpar em que a dança é prepotência, crueldade, abuso e desajuste entre os pares. E a melodia, feita de silêncios medrosos, ameaças, estertores e gritos. No Capítulo VII, cujo título é “Segue o baile”, o Escrivão e o Comissário, personagens execráveis, dão início à “primeira valsa”. A partir de então, o escritor resume: “A Interpol me tirava para dançar”.

O leitor logo percebe que o livro não irá repetir o relato de ações subterrâneas, características da repressão policial e militar, permitidas ou tendenciosamente ignoradas pelos poderes públicos. O que se lê é o depoimento de um homem, então um jovem de boa formação intelectual, tomado por ideais de liberdade, que ainda sofre com os recentes ultrajes que o vitimaram em Moscou. E, quando regressa à pátria, ao invés de um fraterno abraço de acolhimento, é obrigado a enfrentar as rudes circunstâncias de um golpe militar que, contrário à ética e ao direito, abolira qualquer possibilidade de defesa individual. Sem culpa a confessar, no abandono e na solidão do cárcere improvisado, o jovem Faraco não consegue juntar o tio que o ensinara a dirigir o carro, quando criança, ao responsável permissivo pela atual condição de preso político cruelmente interrogado. Esse encontro amargo com a realidade dá a tônica da narrativa. O Coronel sabia ou ignorava as condições desses interrogatórios? A oscilação entre aceitar e negar realidade soa, para o leitor, como mais um traço da grandeza humana do depoente. A dúvida permanece e, com certeza, justifica a ironia constante na narrativa. E como ensinou o nosso velho Machado de Assis, a ironia é uma forma sutil de criticar e revelar as contradições e as hipocrisias de uma sociedade e de uma época: o prometido “baile”, com seus desdobramentos, o descompasso entre a música e a dança, “o amigo do Beco do Oitavo”, o “estatuto da rotina” no cárcere, as alusões a “tardias caraminholas” são alguns desses momentos.

E aqui é preciso realçar o humanismo do escritor, na medida em que o relato da prisão arbitrária e dos maus tratos, com óbvias consequências para a sua vida pessoal, em nenhum momento soa como revide. À medida em que avança a leitura de “Digno é o cordeiro”, lê-se, em cada capítulo, uma experiência diferenciada de resistência humana e da capacidade de superação de sentimentos, como ódio e vingança. Acredito mesmo que, para o escritor, a publicação do livro é o encerramento de um acerto de contas com a verdade. Sempre avesso à exposição, Sergio Faraco ao abrir a “Caixa de Pandora” que libera o mal da humanidade, libera também a esperança de que seu relato seja uma advertência aos que desconhecem ou desacreditam que a vida, sem liberdade, é tortura e solidão.

Confesso ter demorado um pouco para assimilar o título do livro, “Digno é o cordeiro”, expressão que se encontra em Apocalipse 5, 12. Trata-se de um canto que louva a morte sacrificial de Jesus e sua ressurreição. Acredito que, para Sergio Faraco, o fragmento bíblico seja uma declaração de fé na sobrevivência do lado bom da humanidade.