Caderno de Sábado

Do nada ao nada

Diretor e dramaturgo Luciano Alabarse apresenta “As Cadeiras: Alguém vai Vir”, seu novo espetáculo, que estreia neste sábado, no Teatro de Câmara Túlio Piva

"As Cadeiras: Alguém vai Vir" é o novo espetáculo com direção de Luciano Alabarse. Inspirado nos textos de Ionesco e Jon Fosse, o diretor assina a dramaturgia da peça com estreia marcada para 15 de novembro no Teatro de Câmara Túlio Piva
"As Cadeiras: Alguém vai Vir" é o novo espetáculo com direção de Luciano Alabarse. Inspirado nos textos de Ionesco e Jon Fosse, o diretor assina a dramaturgia da peça com estreia marcada para 15 de novembro no Teatro de Câmara Túlio Piva Foto : Juliana Alabarse / Divulgação / CP

Para Jon Fosse, Tempo e Espaço são difusos: passado, presente e futuro se misturam, os cenários nem sempre são o que parecem ser, o tempo não é linear e os acontecimentos borram quaisquer fronteiras entre eles. É assim, aprofundando linhas gerais, que Fosse deixa sua marca: através de uma escrita peculiar, seus personagens carregam em si a complexidade humana em sua forma mais vulnerável. Tão perto, tão longe de nós, essas criaturas encontram no teatro e na literatura seu habitat natural. Levá-los ao palco é muito simples e muito difícil. Um paradoxo, mas é isso que os torna magnéticos. Próximos e distantes, redundantes e circulares, tal como sua escrita propõe, são personagens que transitam por camadas paralelas de emoção e humanismo. Ionesco, por sua vez, autor identificado com o chamado “Teatro do Absurdo”, identificação contestada pelo próprio autor, tem em seu currículo textos mundialmente reconhecidos. “As Cadeiras” está incluída nessa lista como uma de suas peças mais significativas. Aplaudido como inquestionável maestro de uma dramaturgia das mais relevantes do século XX, seus personagens estão no limiar de situações que, ao mesmo tempo, os revelam e desequilibram.

Leio e admiro a obra de Jon Fosse desde antes do seu reconhecimento mundial. Montei “Lilás” no porão do teatro Renascença, um texto contundente, pequeno, potente. Quando li “Alguém vai Vir”, do norueguês já laureado com o Nobel de Literatura, em 2023, identifiquei no texto um prólogo perfeito para “As cadeiras”, projeto acalentado e adiado desde os primórdios da minha iniciação em direção teatral. Há pontos convergentes a aproximar os dois textos. Reuni-los em um terceiro texto foi minha opção e trabalhei como um escultor moldando cenas, cortando excessos e aparando arestas, até que realmente não se soubesse onde começa um e segue o outro. O resultado foi um texto original e único, decisão decorrente da proximidade dos universos dramatúrgicos dos dois autores. Empatia e complementaridade. Estranhamento e profundidade. Dramaturgia plena. Amálgama surpreendente. Como já ensinou a música brasileira, e a obra gigante desses dois dramaturgos corrobora, “a vida não é só isso que se vê”.

Dessa reunião, insólita e cheia de promessas, surgiu um terceiro texto, convite àquela direção nunca efetivada, sementes para um novo espetáculo, um teatro que me interessa sobremaneira, o teatro de texto. Surgia a semente de “As cadeiras: alguém vai vir”. Ato e ação, dois autores teatrais em convergência, as possibilidades cênicas de um terceiro texto, o texto final, afinal. Sem pular etapas, sem desperdiçar as chances de encontrar nele a textura exata de uma dramaturgia que desafia qualquer facilidade. Os pontos de tensão, o cotidiano misturando os tempos: passado e presente/ vida e morte/ planos visíveis e invisíveis, a intensidade diagnosticada como fator essencial para o palco lunar. Fácil e difícil, complexo, desafiador. A vida depurada, a linguagem da cena, as questões pertinentes à encenação, potência e depuração.

Lisi Medeiros é uma das mais talentosas atrizes do Rio Grande do Sul, e contar com ela em um elenco é garantia de que a interpretação teatral terá força e entrega, surpresa e potência. Sua escolha para dar vida à velha Semíramis é plenamente justificada. Convidei Carlos Azevedo, seu parceiro na vida real, para repetir a tabelinha na montagem. Azevedo, um reconhecido técnico e iluminador da cena gaúcha, com passagens também marcantes na área da interpretação, me levou a efetivá-lo como o Velho da dupla, parceiro de criação de Lisi. A química entre os dois é ousada e surpreendente. A intimidade de anos de convívio foi, certamente, um ingrediente facilitador à tarefa nada fácil de humanizar o velho casal da peça, oscilando entre tragédia e comédia, serenidade e tensão. O trio de atores é completado por Pingo Alabarce, meu talentoso e inquieto parente, a quem entreguei momentos bastante precisos e desafiadores. Três atores de teatro porto-alegrense, afinados, inquietos, buscando construir personagens complexos e cheios de camadas.

Quanto mais dirijo, mais acho o teatro um território sagrado de difícil acesso. O palco pede singularidade, atenção, cuidado, risco, intuição, dedicação. Uma encenação precisa congregar esses elementos sem desvirtuar o texto e sem ser paralisado por ele. Acertar a mão, ideias e metas compartilhadas com todos os envolvidos na montagem, convergir para um resultado coeso, metas às vezes contraditórias e incongruentes. Não é fácil, mas não há outro jeito. Não há truques fáceis que permitam chegar ao resultado almejado. Tentativa e erro, certo é que o teatro pede trabalho, muito trabalho. E fôlego para encarar o palco vazio, as teorias de Peter Brook sempre presentes. Penso muito nisso tudo quando estou envolvido com os ensaios de uma peça nova. Mais uma peça, sim, mais uma incógnita partilhada, mais um caminho a ser trilhado sem atalhos. É o caso aqui.

“As cadeiras: alguém vai vir” engloba e resume na sua construção tudo o que falei antes. Por isso, envolvente. Por isso, teatro.

SERVIÇO

  • O QUÊ: As Cadeiras: Alguém vai Vir
  • QUANDO: De 15 a 23 de novembro de 2025 (sessões aos sábados e domingos). Sábados, às 20h. Domingos, às 18h
  • ONDE: Teatro de Câmara Túlio Piva (Rua da República, 575)
  • COMO: Ingressos na plataforma Sympla e na bilheteria do teatro uma hora antes do início das sessões.
  • CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 12 anos

FICHA TÉCNICA

  • Elenco: Lisi Medeiros – A Velha (Semíramis), Carlos Azevedo – O Velho (Max) e Pingo Alabarce – O corretor/ O mensageiro
  • Direção: Luciano Alabarse
  • Diretora assistente e desenho do movimento: Angela Spiazzi
  • Produção executiva: Jaques Machado / Luciano Alabarse
  • Iluminação: João Fraga / Maurício Moura
  • Operadora de som: Manu Goulart/ Maya Serra
  • Cenário e Trilha Sonora: Luciano Alabarse
  • Construção de Cenário: Rodrigo Shalako.
  • Figurinos: O Grupo
  • Design e Redes: Siano
  • Fotos: Juliana Alabarse
  • Assessoria de Imprensa: Cátia Tedesco/Mauren Favero/Agência Cigana
  • Realização: Alabarse Produções Artísticas