Caderno de Sábado

Dos Açores ao Território de Ninguém

A pesquisadora, professora e jornalista Letícia Vieira Braga da Rosa é a autora do texto abaixo

O estudo trata especialmente do grupo ‘açoriano-carolino’, imigrantes que, após a invasão espanhola à vila do Rio Grande, foram para o Uruguai
O estudo trata especialmente do grupo ‘açoriano-carolino’, imigrantes que, após a invasão espanhola à vila do Rio Grande, foram para o Uruguai Foto : LETICIA VIEIRA BRAGA DA ROSA / ESPECIAL / CP

Uma das principais preocupações da atualidade é a questão migratória. O Relatório Mundial sobre Migração 2024, da Organização Internacional para as Migrações (OIM), agência da ONU, estima que 281 milhões de pessoas vivem fora do seu país de nascimento, o que equivale a cerca de 3,6% da população mundial. Por trás desses números estão histórias marcadas por desigualdades, conflitos e pela busca por sobrevivência.

O tema encontra reflexos no Rio Grande do Sul, onde a compreensão histórica dos fluxos migratórios pode contribuir para políticas públicas mais eficazes. Foi com essa perspectiva que surgiu a pesquisa “Dos Açores às Terras dos Confins e ao Território de Ninguém”, centrada no programa migratório lançado pelo Edital Régio de 31 de agosto de 1746. Com esse edital, a Coroa portuguesa incentivou a vinda de famílias açorianas para ocupar áreas do sul do Brasil: os “Casais do Número”.

O estudo volta-se especialmente ao grupo “açoriano-carolino”, que se refere aos imigrantes que, após a invasão espanhola à vila do Rio Grande em 1763, foram levados ao território espanhol, atual Uruguai, para fundar o povoado de San Carlos, na região de Maldonado. Após 1777, com o Tratado Preliminar de Santo Ildefonso, o grupo retornou ao domínio português, sendo que uma parte passou a ocupar o chamado “Território de Ninguém”.

O “Território de Ninguém” designava a faixa entre os rios Piratini e Jaguarão, mantida como zona neutra diante da disputa de limites entre Portugal e Espanha. Apesar de oficialmente as Coroas Ibéricas proibirem sua ocupação, ignorando a presença dos povos originários, foi para essa região que afluíram muitos dos regressados de San Carlos, incentivados pelas autoridades portuguesas.

Embora os números e marcos históricos desse fluxo migratório sejam conhecidos, aspectos como as trajetórias individuais, os vínculos familiares e as estratégias de sobrevivência dos imigrantes permanecem pouco explorados.

A pesquisa teve início de forma espontânea no ano 2000 e ganhou caráter científico junto ao Programa de Pós-graduação em Processos e Manifestações Culturais da Universidade Feevale. Desde então, passou a integrar o projeto internacional “Local2Global”, financiado pelo Centro de Investigação Transdisciplinar da Universidade do Porto, em colaboração com investigadores da Casa de Sarmento – Centro de Estudos do Património, da Universidade do Minho. Com a participação da pesquisadora Maria Norberta Amorim, reconhecida por desenvolver o Método de Reconstituição de Paróquias (MRP), a investigação adota seu modelo de cruzamento sistemático de dados paroquiais de batismo, casamento e óbito.

Outra parceria importante foi estabelecida com o Cham Açores – Centro de Humanidades da Universidade dos Açores. Em sua fase atual, o projeto conta também com financiamento da Fapergs.

A proposta é localizar os “Casais do Número” que deixaram os Açores no século XVIII e deram origem às famílias açoriano-carolinas, cadastrando esse grupo no Repositório Genealógico da Casa de Sarmento, uma base de dados de acesso aberto, disponível para consulta pública através do site https://porgener.csarmento.uminho.pt/.

Correio do Povo

Uma fonte importante para a investigação foi a relação de proprietários de terras ao sul do Piratini, que contém o nome dos criadores com marca de gado registrada em 1807. Transcrita pelo historiador Paulo Xavier e publicada com o título “Fronteiras do Piratini” no Suplemento Rural do Jornal Correio do Povo, de 24 de novembro de 1978.

Essa lista contribuiu para realizar o mapeamento das famílias que se estabeleceram ao sul do rio Piratini e que deram origem à freguesia do Espírito Santo do Serrito no Jaguarão, acompanhando sua trajetória desde a saída das ilhas até os primeiros tempos da freguesia, quando ela abrangia os atuais municípios de Jaguarão, Arroio Grande, Herval, Pedras Altas e Pedro Osório.

Resultados

A pesquisa resultou na publicação do livro “Dos Açores às Terras dos Confins e ao Território de Ninguém”, lançado pela Editora Feevale com apoio do Governo dos Açores. O livro foi lançado inicialmente em San Carlos, no Uruguai e em Jaguarão, como um retorno às origens.

No dia 28 de maio, às 19h30min, ocorre o lançamento na Casa dos Açores do Rio Grande do Sul (Caergs), em Gravataí, com a entrega oficial dos exemplares da obra ao Governo dos Açores. Além da versão impressa, o livro está disponível gratuitamente em formato digital: https://feev.as/6bfaaf4.