Há livros que contam uma história. Outros, sem abandonar a intimidade dos personagens, conseguem contar a transformação de um país. “Murmúrios da Terra”, de Anna Mariano, pertence a essa segunda linhagem. A saga começa em 1936, em Vale Vêneto, na Quarta Colônia, e atravessa quase meio século, até 1984. O que parece, de início, a história de algumas famílias ligadas à terra vai se ampliando até revelar uma mudança decisiva no Brasil: a passagem de uma agricultura familiar e comunitária para a agricultura mecanizada, a agroindústria e o agronegócio que redesenharia o mapa econômico do país.
Anna faz isso sem transformar o romance em tratado histórico. A História entra pela cozinha, pelas receitas, pelo modo de falar, pela religião, pelos conflitos familiares e pela herança. Entra, sobretudo, pelos personagens. Cecília Sterzi, descendente de italianos, e Palmira Cavalheiro Rezende de Souza, mulher negra, ocupam o centro de uma narrativa em que origem, raça, pertencimento e classe interferem nos afetos e nos destinos.
A história começa algumas gerações depois da chegada dos italianos ao Rio Grande do Sul, quando a imigração já se transformou em cultura: famílias numerosas, pequenas propriedades, trabalho duro, catolicismo, talian, comida, solidariedade e também rigidez. A terra não é apenas patrimônio. É identidade. Deixá-la ou vendê-la significa mexer na própria ideia de quem se é.
Nesse mundo aparece Pedro e, com ele, quase discretamente, uma planta ainda chamada de “feijão-soja”. É um momento pequeno no romance e imenso quando olhado de hoje. O leitor sabe o que aqueles personagens ainda não podem saber: aquele grão modificará o Brasil. A soja deixa de ser cultivo e se torna personagem histórica. Move homens, capital, máquinas, estradas, indústrias e famílias.
A grande qualidade de “Murmúrios da Terra” está justamente aí. Anna não narra o agronegócio já pronto. Mostra sua formação. Um personagem entra na indústria de máquinas agrícolas; outro se aproxima do mercado e da Bolsa; outros seguem para novas terras. Surgem cooperativas, colheitadeiras, indústrias de óleo, comércio, crédito. A agricultura deixa de caber apenas dentro da porteira.
Nos anos 1970, esse processo encontra o projeto desenvolvimentista do regime militar. O Estado investe em crédito, infraestrutura, pesquisa e expansão da fronteira agrícola. A ciência torna possível cultivar soja em novas regiões; a mecanização aumenta a escala; terras mais baratas atraem famílias do Sul. Gaúchos partem para o Centro-Oeste levando técnicas, trabalho, ambição e uma ideia de futuro. A fronteira agrícola se desloca e, com ela, parte do centro de gravidade econômico do país.
Mas Anna não transforma essa marcha numa epopeia sem sombras. Todo progresso deixa alguma coisa pelo caminho. Aparecem os conflitos pela terra, a mudança brutal das paisagens, os que prosperam e os que fracassam. Famílias se espalham. Comunidades perdem filhos. A promessa da terra nova cobra o preço do desenraizamento.
Por isso é tão significativo que a narrativa chegue a 1984, ao Grito do Campo, quando milhares de agricultores e cooperativas foram às ruas de Porto Alegre protestar contra a política agrícola do governo Figueiredo. Há quase uma ironia histórica nisso. Os agricultores que haviam participado da modernização do campo agora enfrentavam juros, endividamento e instabilidade. O Estado que ajudara a impulsionar aquela transformação revelava também os seus limites. E o campo, às vésperas do fim da ditadura, ocupava a praça.
Foi lendo “Murmúrios da Terra” que voltei a “Maya”, de Hilda Simões Lopes. E percebi que os dois romances, separados por quase um século, podem ser lidos como capítulos distantes de uma mesma história sobre o Rio Grande do Sul e, por extensão, sobre o Brasil.
“Maya” olha para o século XIX. É o Rio Grande das estâncias, das charqueadas, da escravidão, das guerras de fronteira e de uma economia sustentada por relações brutais de poder. A protagonista, filha da sudanesa Dandara, é lançada ainda menina ao universo das vivandeiras, mulheres que acompanhavam tropas, cozinhavam, cuidavam dos feridos, sofriam abusos e, quando necessário, também pegavam em armas.
Se em “Murmúrios” a terra produz riqueza e movimento, em “Maya” a terra é, antes de tudo, território em disputa. O poder se mede por propriedade, gado, escravizados, armas e sobrenome. As vivandeiras vivem atrás dos exércitos e, metaforicamente, atrás da própria História. Sustentam a guerra sem ganhar estátuas.
“Maya”, porém, atravessa esse mundo e chega a outro: o das mulheres que começam a disputar ideias. Em Porto Alegre encontra figuras ligadas à educação, à abolição e aos direitos femininos, entre elas Luciana de Abreu e Maria Clemência. Aprende a ler, torna-se contadora de histórias e reconstrói sua identidade a partir também de suas matrizes africanas e indígenas. Em “Maya”, a transformação começa quando alguém que estava condenado ao silêncio adquire voz.
É aí que os dois romances se aproximam de maneira mais profunda. Ambos contam grandes transformações nacionais a partir de pessoas que raramente ocupam o centro da História. Hilda olha para quem estava atrás dos exércitos. Anna olha para quem estava dentro das lavouras, das cozinhas, das famílias, das fábricas e dos caminhões que partiram para o Centro-Oeste.
São também dois momentos econômicos de um mesmo país. “Maya” mostra um Brasil escravista, pastoril, latifundiário, organizado pela força da propriedade e pela desigualdade entre seres humanos. “Murmúrios” encontra outro Brasil: trabalho livre, pequenas propriedades de descendentes de imigrantes, industrialização, mecanização e, finalmente, uma agricultura em escala ligada ao mercado nacional e internacional.
Mas talvez sejam as mulheres que façam a ponte mais forte entre as duas obras. Maya, Dandara, Luciana, Cecília, Palmira. Mulheres de tempos, raças e origens diferentes, mas igualmente essenciais para compreender aquilo que acontecia ao redor delas.
Porque as grandes mudanças econômicas costumam chegar até nós por números: hectares, cabeças de gado, sacas de soja, quilômetros de estrada, índices de produção. A política chega por nomes de presidentes, revoluções, guerras e governos.
A literatura faz outra pergunta. O que aconteceu com as pessoas enquanto tudo isso acontecia?
O que aconteceu com a mulher que acompanhava uma tropa sem que seu nome fosse registrado? Com a família que passou gerações trabalhando o mesmo pedaço de terra e um dia precisou abandoná-lo? Com os filhos que partiram? Com quem ficou? Com quem prosperou? Com quem não conseguiu acompanhar o novo tempo?
Entre “Maya” e “Murmúrios da Terra” há quase um século. Colocados lado a lado, porém, os dois romances parecem conversar. Um encontra o Rio Grande das guerras, da escravidão e das estâncias. O outro encontra os descendentes dos imigrantes, a pequena propriedade, a indústria, a soja e a marcha para novas fronteiras.
Um país inteiro se modifica entre essas duas histórias. Mudam as máquinas, as relações econômicas, os governos e a paisagem. Mudam até as formas de riqueza. Mas permanece uma espécie de murmúrio subterrâneo: a vida das pessoas que a História oficial quase nunca consegue contar inteira. Talvez seja para isso que existam romances como esses. Para nos lembrar que, antes de virar história, tudo foi vida.
- A autora Fátima Torri é jornalista e fundadora da plataforma Fala Feminina.