“Isso nos incita a reconhecer que, mesmo escondida e recalcada, a incerteza acompanha a grande aventura da humanidade, cada história nacional, cada vida ‘normal’, pois toda a vida é uma aventura incerta: não sabemos de antemão o que serão para nós a vida pessoal, a saúde, a atividade profissional, o amor, nem quando ocorrerá a morte, ainda que essa seja indubitável.” *
Edgar Morin publicou essas palavras em 2021 ao refletir sobre as lições que a pandemia de Covid-19 deixaria para a humanidade. A crise sanitária havia exposto a fragilidade de nossas certezas e, para ele, era justamente nesse reconhecimento que residia uma oportunidade de transformação. Cinco anos depois, a morte de Morin, aos 104 anos, em 29 de maio de 2026, nos devolve à mesma reflexão. Afinal, mesmo quando uma vida atravessa mais de um século de história, permanece verdadeira a ideia de que viver é navegar entre incertezas inevitáveis.
Poucos intelectuais contemporâneos exerceram uma influência tão ampla e transversal quanto Edgar Morin. Sociólogo, filósofo, antropólogo, historiador das ideias, pensador da complexidade e defensor da transdisciplinaridade, foi também um intelectual indisciplinado por vocação, que se manteve independente diante das correntes que fizeram sucesso em sua época. Nascido em Paris, em 1921, ele atravessou praticamente todo o século XX e o primeiro quarto do século XXI refletindo sobre os desafios do conhecimento, da condição humana, da cultura e da vida em sociedade.
Sua trajetória foi marcada por alguns dos acontecimentos mais decisivos da história recente. Participou da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, testemunhou os horrores do nazismo, acompanhou os processos de reconstrução da Europa, viveu os grandes debates intelectuais do pós-guerra e observou, até os últimos dias de vida, as transformações provocadas pela globalização, pelas tecnologias digitais e pelas crises ambientais.
No Brasil, sua obra encontrou uma recepção particularmente intensa. Ao longo das últimas décadas, seus livros influenciaram pesquisadores de áreas tão diversas quanto educação, comunicação, sociologia, saúde coletiva, administração e tantas outras. No Rio Grande do Sul, manteve uma relação próxima com a PUCRS, instituição que reconheceu a relevância de sua contribuição intelectual ao conceder-lhe o título de Doutor Honoris Causa em 2000. Para muitos acadêmicos brasileiros, Morin representou uma alternativa aos modelos fragmentados de produção do conhecimento, oferecendo uma forma de pensamento capaz de conectar fenômenos aparentemente separados e compreender a realidade em suas múltiplas dimensões.
Nos dias que se seguiram à notícia de sua morte, vi inúmeros relatos de colegas acadêmicos contando como o encontro com sua obra transformou suas trajetórias. Eram testemunhos de pessoas que encontraram em Morin um caminho para romper com a fixidez de teorias e conceitos fechados e buscar uma maneira diferente de olhar para o mundo. Morin jamais ofereceu respostas simples. Ao contrário, convidava seus leitores a formular perguntas mais complexas, a desconfiar das simplificações e a conviver com as contradições, as ambiguidades e as incertezas que constituem a experiência humana.
O centro de sua contribuição intelectual está naquilo que chamou de pensamento complexo, desenvolvido ao longo dos seis volumes da série “O Método”, publicados no Brasil pela Sulina. A complexidade em Morin é uma forma de compreender a realidade reconhecendo as interdependências, contradições e incertezas que constituem os fenômenos humanos, sociais e naturais. Sua crítica dirigia-se ao conhecimento fragmentado, que separa disciplinas e isola objetos de seus contextos. Em resposta, propôs uma reforma do pensamento capaz de religar saberes e articular aquilo que a tradição científica frequentemente tratou de forma separada: indivíduo e sociedade, ordem e desordem, razão e emoção, natureza e cultura. O Método é uma proposta ambiciosa para repensar a própria maneira como produzimos conhecimento em um mundo.
Tive a oportunidade de traduzir, ao lado de Juremir Machado da Silva, a última obra de Morin publicada no Brasil, pela EdiPUCRS e editoras do selo PUC+, “O Método do Método”, volume que retoma e amarra os fundamentos dessa série. A experiência foi, ao mesmo tempo, intelectual e existencial. Traduzir Morin significa entrar em contato com um pensamento que se move constantemente entre diferentes campos do saber. Cada página exige do tradutor um exercício semelhante ao que o próprio autor propõe aos seus leitores: abandonar simplificações e aceitar a complexidade. Em certo sentido, traduzi-lo é uma tarefa que beira o paradoxo, pois implica traduzir a própria ideia de que o mundo não se deixa traduzir facilmente.
Essa perspectiva aparece também em outra contribuição fundamental de Morin: a defesa do papel do sujeito na produção do conhecimento. Em oposição à ilusão de uma objetividade absoluta, ele insistiu que todo conhecimento é produzido por alguém situado em uma cultura, uma história e uma experiência de vida específicas. Reconhecer a presença do sujeito não significava abandonar o rigor científico, mas torná-lo mais consciente de seus próprios limites e condicionamentos.
Talvez seja justamente essa dimensão que explique a permanência de sua obra. Seu projeto intelectual foi, em grande medida, um convite à humildade. Ele insistiu que o conhecimento é sempre incompleto, que toda explicação deixa algo de fora e que compreender o mundo exige reconhecer as relações, os contextos e as interdependências que conectam os fenômenos.
Num tempo marcado pela polarização, pela fragmentação dos debates públicos e pela circulação acelerada de informações, suas reflexões parecem ainda mais pertinentes. Em vez de reduzir problemas complexos a explicações simplistas, Morin defendia a necessidade de religar saberes. Em vez de buscar certezas absolutas, defendia a aprendizagem da incerteza. Em vez de separar rigidamente indivíduo e sociedade, razão e emoção, ciência e cultura, procurava compreender os laços que os unem.
A morte de Edgar Morin encerra uma das mais longas e fecundas trajetórias intelectuais do nosso tempo. Mas sua obra permanece como um lembrete de que pensar é, antes de tudo, um exercício de abertura. Em um século que frequentemente nos empurra para respostas rápidas e visões simplificadas, ele nos ensina a importância de sustentar perguntas difíceis. Também nos lembra que produzir informação não é o mesmo que produzir conhecimento e que acumular dados não significa compreender a realidade.
Escolho essa lente para seguir navegando pelas incertezas da vida. Diante da única certeza que sempre se impõe, a morte, permanece o convite de Edgar Morin para habitar o mundo com coragem diante do desconhecido, humildade para reconhecer os limites do conhecimento e abertura para continuar aprendendo. Afinal, como nos ensinou, viver é participar plenamente da complexa e extraordinária aventura humana.
- MORIN, Edgar. “É hora de mudarmos de via: lições do coronavírus”. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2021. p. 26.