Caderno de Sábado

El folclore está muerto. Vida longa al folclore!

Coidealizador do Chisme Festival e diretor criativo da Gana&Voga, Giovani Bonin-Barbieri, trata da consolidação do Chisme no RS e na América do Sul

Terceira edição do Chisme Festival acontece no dia 28 de novembro no Jockey Club do RS para aproximar expressões culturais locais do campo à cidade, reafirmando que a cultura gaúcha é também brasileira e latina
Terceira edição do Chisme Festival acontece no dia 28 de novembro no Jockey Club do RS para aproximar expressões culturais locais do campo à cidade, reafirmando que a cultura gaúcha é também brasileira e latina Foto : Rafa Damineli / Divulgação / CP

Montevidéu, meados dos anos 1960. Um jovem negro chamado Ruben Rada comete o que os guardiões da tradição uruguaia consideram um crime: pega o candombe, ritmo sagrado dos tambores afro-uruguaios, e o mistura com o rock dos Beatles. Os puristas decretam que aquilo mata o candombe. O chamado candombe beat não matou nada, aliás deu ao ritmo uma segunda vida. E é em parte por causa daquela heresia que os tambores seguem ecoando pelas ruas de Montevidéu até hoje, chegando inclusive na capital dos gaúchos.

Contamos essa história porque ela explica a frase que escolhemos para a terceira edição do Chisme Festival, em Porto Alegre: “Que nunca muera el folclore”. Ruben Rada foi o headliner da edição passada do Chisme e, esse ano, inspirados na sua história, usamos essa referência para falar sobre as mortes do folclore e nossos anseios de sua vida eterna.

A aparente contradição da frase do título vem de uma expressão mais antiga. Quando um rei morria, o arauto anunciava "o rei morreu, viva o rei". A coroa não ficava vaga nem por um segundo. Neste ano, no Chisme Festival, ao adotar esse conceito, entende que o que morreu foi uma certa forma de representar o folclore: a versão congelada, protocolar, que trata os símbolos do Sul como peças de museu, com um único modo de exibição permitido. Reconhecer esse esgotamento é o primeiro gesto de respeito. O segundo é entender que o folclore nunca dependeu dessa rigidez para existir.

Há um custo escondido nessa rigidez. Ao cultivar uma identidade tão fechada em si mesma, o Rio Grande do Sul foi se desconectando do país e do continente ao qual pertence. Construímos um orgulho que olha para dentro e um bairrismo que, em vez de nos fortalecer, nos isolou. O mapa, no entanto, conta outra história. A milonga atravessa Brasil, Uruguai e Argentina sem pedir passaporte. O candombe chegou ao Sul pelas diásporas africanas e segue tocando dos dois lados da fronteira. O Pampa é um só e as influências indígenas, ibéricas e afro-latinas que nos formaram aparecem na música, na comida e no nosso jeito de falar. Ser gaúcho hoje é também uma das maneiras de ser latino-americano no Brasil.

A história do continente prova que o folclore sobrevive justamente quando aceita se contaminar. Assim como o candombe beat, a Tropicália fez o mesmo com os ritmos regionais brasileiros. Em ambos os casos, foi preciso trair a forma para salvar a substância. A gente acredita que seja o momento de fomentar e apoiar a cena do Rio Grande do Sul a repetir este movimento.

É esse o programa do Chisme Festival, que chega à terceira edição em 28 de novembro, no Jockey Club do Rio Grande do Sul, sob o lema "Que nunca muera el folclore". Este ano, o Chisme vai direto ao coração do imaginário popular e o coloca em diálogo com o continente inteiro. No mesmo dia e no mesmo palco, a gaita do Borghetti Trio e o piano do jazz afro-brasileiro de Amaro Freitas. A canção fronteiriça de Daniel Drexler e o rock latino colombiano de Aterciopelados. A cumbia villera dos argentinos Los Pibes Chorros e a cumbia peruana amazônica de Los Mirlos. O pampacore gaúcho de Rosa Nika & Musa e o reggaeton underground da mexicana Rosa Pistola. Os nostálgicos irmãos Kleiton & Kledir e a contemporaneidade de Juana Aguirre, da Argentina. A Roda de Milonga, do Rio Grande do Sul, e a Rueda de Candombe, do Uruguai.

Nada disso é encontro de estrangeiros. Antes das fronteiras políticas, já existia um território comum de ritmos, sotaques e histórias que seguem cruzando o Pampa até hoje e que se expande como um portal até o Caribe. O Chisme Festival apenas reconhece o que a geografia sempre soube: o folclore como cultura popular que celebramos ao reconhecer a ancestralidade indígena e africana ao lado da europeia e sabendo que não há apenas uma estética gaúcha, mas diferentes expressões surgidas da sua criação fronteiriça, melancólica, excessiva, romântica.

Por isso o Chisme proclama a morte do folclore: para que ele nunca morra de fato. Que nunca muera el folclore.