We are changed into the grass of springtime,
our hearts will grow green agains and
they will open their petals but our body is like a rose tree:
it puts forth flowers and then withers”
(Hymn of the Aztecs)
Era de novo como antigamente. A desintegração chegaria a seu extremo e então, do nada, brotava alguma coisa verde. Eu olhava espantado e temeroso de matá-la. Temeroso de meu próprio temor cheio de cismas e cuidados de interromper aquele inesperado nascimento. Mas sinto que cresce independente de mim, e adivinho aflito, num jeito que não sei ao certo se é pressentimento ou apenas vontade, mais adivinho do que percebo suas mínimas folhas sobre a terra escura. E fico atento e sorrio muito e ensaio algumas palavras-gestos num desajeitamento de quem não sabe expressar-se direito. E observo a tua face com medo que de repente alguma coisa quebre e nos faça voltar ao duro ritual de antes.
Mas vencemos o ritual, quero dizer. Violamos a rígida marcação imposta pelo diretor aos nossos passos. Estamos soltos no palco, e isso é tão perigoso como tivéssemos entrado em cena sem saber absolutamente nada dos nossos papéis. Agora o próximo momento depende inteiramente de nossa improvisação. E poderemos talvez ser descuidados ao ponto de deflagrar alguma coisa que nós mesmos não conseguiríamos controlar. Tens medo? Agora que já não há palco nem plateia nem papéis determinados, tenho medo.
Houve um tempo em que tudo à minha volta era lixo. Eu não tinha nada, exceto a consciência de não ter nada. Todas as pessoas e todas as coisas pareciam sujas. Meus próprios sentimentos pareciam sujos. A consciência de estar dentro da sujeira era suja. Fazia muito frio e pelas manhãs, enrolado num velho cobertor, eu abria todos os armários da casa sem nunca encontrar nada. Dia após dia eu avançava como um cego no meio do mato. Em direção à luz desfeita, ao bonito perdido das coisas.
Agora se recompõe: o bonito perdido das coisas. Volta a luz. A magia. Ainda não completamente. Mas aprenderemos a paciência. Amanhã por certo diremos que tudo está bem e aparentemente nos preocuparemos mais com isso. É preciso não minguar com nossa sofreguidão o verde recém-nascido. É preciso não quebrar o cântaro antes de saciar a sede.
Avançamos como cegos em direção ao prosseguimento natural disso que se fez. E não temos medo. Amanhã, talvez, quando tentarmos reconstituir tudo e não conseguirmos entender. Como o pescador contando sua história sem conseguir situar o exato momento em que a linha distendeu-se de maneira inconfundível e ele suspeitou de não ter sido vão o seu esforço. Conseguiremos? Agora é preciso lutar com o peixe, trazê-lo à tona e encará-lo. E talvez não passe duma esfarrapada botina, um velho pedaço de madeira. Eu sei. Sabemos.
Houve um outro tempo em que tudo era ouro à minha volta. Nada doía. Tudo parecia claro. Alquímico, atravessava certeiro todas as pobrezas – e meu olhar dourado secretamente tudo transmutava. Teria sido aquele o jeito certo ou apenas uma iluminação passageira? Não sou mais que a tentativa repetida de acertar no alvo que gira. Movo os dois lados entre os dedos inábeis. Agora eles se misturam, o alvo cessa, o dardo atinge, o ouro cai. Agradeço o encanto deste breve todo.
Investigo no teu rosto a repercussão de minha alegria. Lentamente supeito um provável e fundo engano. Tenho medo do meu coração fechado, o mofo e as traças roendo as sedas nos baús. Quero então dizer coisas tão densas que cheguem a parecer obscenas. Com horror ou ternura, quero te tocar profundamente. Seguro as rédeas. E quebro pedaços da caixa de fósforos como alguns colocam discos ou mostram fotografias. Um jeito disfarçado de colorir a minha confusão.
Entre os copos vazios, a humilde delicadeza com que acendemos os cigarros um do outro. Atentos, precários, gentis.
E na esquina não sabemos o que dizer. A rapidez corta o embaraço. O vento e a chuva cortam o rosto. Tudo passou depressa e de repente, por hoje, não há mais depois. Será preciso que o encantamento amanhã ou depois se refaça por si mesmo. E de repente.
Numa esquina como esta, num bar qualquer, numa sala de espera, comprimindo assustados, as campainhas de nossas casas, tentando acordar cedo para olhar as coisas. Tenho medo do impudor de minha fome. E venho embora sem pedir nada. Como antigamente — antes daquele vôo, daquela lama, daquela luz.
Nestas ruas, nesta terça-feira. neste mês de julho, nesta cidade-país latino-americanos. Posso sobrepor a esta várias cenas antigas: sou um cão roendo os restos deixados pelo tempo no osso descarnado da memória. Volto devagar pela chuva, e não me importam os cabelos molhados nem os lábios partidos. Pela manhã arrumo meu quarto e coloco num canto o grande vaso vazio, para plantar o verde nascido ontem. Com cuidado envolvo numa campânula de vidro meu pequeno segredo. Depois olho meu rosto no espelho e vejo que estou sangrando, que estou quase inteiro outra vez.