Em 2026, lembramos os 40 anos do falecimento do escritor gaúcho Josué Marques Guimarães (1921-1986). Nascido em São Jerônimo, RS, no dia 7 de janeiro de 1921, Josué lançou seu primeiro livro aos 49 anos, “Os Ladrões”, premiado no Concurso de Contos do Paraná, o mesmo que teria lançado nomes como Ruben Fonseca, Dalton Trevisan, João Antônio, entre outros. Considerada um marco exponencial, ao lado do contador de histórias Erico Verissimo, sua produção literária emerge em apenas 20 anos, com destaque para “A Ferro e Fogo I (Tempo de Solidão)” e “A Ferro e Fogo II (Tempo de Guerra)” e um terceiro volume inconcluso “Tempo de Angústia”. Além da trilogia, destaca-se a importante obra histórica Camilo Mortágua e outras tantas de leitura indispensável para adultos e adolescentes. Entre elas, É tarde para saber e o já citado Enquanto a noite não chega. Pois é sobre esse último que aqui vou me ater, relacionando as duas leituras que dele fiz.
Por ocasião do lançamento do livro, assisti a uma palestra em que o autor esteve reunido com Mário Quintana no Teatro Renascença em Porto Alegre. Os dois bem humorados escritores falavam sobre a recente publicação. Josué relembrou uma conversa em que o poeta lhe dizia: “Passei por uma cidade onde o cemitério era maior do que a própria cidade”, ao que Josué teria lançado a hipótese jocosa de que, quem sabe, pudesse ser mesmo Gravataí. Eram histórias de vida e viagens entre dois artistas da palavra, narradas ali para uma plateia descontraída e satisfeita por descobrir, de certa forma, o processo inicial, a genética, diriam os críticos literários, da construção desse romance.
Ora, para quem conhecia o interior do estado, percorrendo várias regiões do país e do mundo, uma cidadezinha em ruínas, ladeada por um grande cemitério, de pronto deve ter se desenhado na imaginação criadora do romancista. E no contexto que um dia fora urbano, ele criou personagens, um casalzinho de idosos e um coveiro em meio a ruínas.
Dom Eleutério e Dona Conceição reencenam acontecimentos vividos, mazelas e perdas familiares, entrelaçados a memoráveis fatos históricos, políticos e culturais. No capítulo Heloísa, nome de uma das filhas do casal, vêm à tona as atrocidades ocorridas entre partidários chimangos de Borges de Medeiros e maragatos de Assis Brasil, lembrando o não reconhecimento da candidatura de Assis Brasil à presidência do Rio Grande do Sul, do que resultaria a Revolução de 1923. Teresa, a filha que morreu em 1918 aos três anos vítima da gripe espanhola, nomeia o capítulo em que as memórias de Porto Alegre têm lugar. É quando o leitor observa a posição social do casal como testemunha da ascensão cultural da cidade, a exemplo da inauguração do Petit Casino, entre eventos importantes no contexto da capital e do estado. Em Maria Rita, são lembradas as canções de Chiquinha Gonzaga, filmes exibidos e peças de teatro da época.
Um romance de memórias impulsionadas pelo suspense mantido até o final da trama, uma existência longeva que dispensava o relógio. Viajantes poderiam se encarregar das encomendas, mas há muito deixaram de passar pelos caminhos que levavam ao lugarejo. Agora era o sol que delimitava o tempo por trás do que antes foram as torres da igreja, com o sino anunciando as horas. E o casal sobrevivia à miséria do abandono, com a privação de mantimentos básicos para a alimentação, produtos que atendessem às necessidades mais imediatas no cotidiano dos velhinhos. Não raro, dessa história eu sempre me lembro, ao preparar um chimarrão e ver terminada a erva-mate no pacote, ou uma massa para pão ou bolo e me assegurar de ter usado o fermento... A vida de toda sorte se amplia mesmo é com a arte.
Seu Teodoro, o coveiro, é o terceiro personagem do romance. Ele já mantém abertas as duas covas, feitas do lado de fora do cemitério, dada a superlotação de sepulturas, cidade transferida para o campo santo. E ele parece estar ali apenas à espera da “noite” chegar, metáfora da morte dos velhinhos. Ou seria da morte dele mesmo?
Da leitura feita no século passado, lembro-me de ter sentido muita pena de Dona Conceição e de Dom Eleutério. Passadas mais de 4 décadas, releio Enquanto a noite não chega, não mais para o preparo das aulas, mas para uma reunião entre amigos do CL do Clube do Professor Gaúcho de Ipanema, livro escolhido pelo grupo para janeiro numa lista que elege um para cada mês. Encontrei na minha estante não mais o mesmo exemplar que li em sua primeira edição (1978). Ler em tempos tão distantes o mesmo livro gera leituras outras, e a minha atenção agora foi desviada do sentimento de compaixão pelas personagens para uma tristeza imensa, mediante a solidão a que somos subjugados de modo intransferível e quase irremediável na velhice. Por isso, quem sabe, me ative às oportunas informações que o sumário biobibliográfico oferece ao final da nova edição. Observo a trajetória de um escritor que cedo, em 1952, atuou como correspondente especial do Extremo Oriente, União Soviética e China Continental, exercendo também essa função de 1974 a 1976 na Empresa Jornalística Caldas Júnior em Portugal e África. Com atuação marcante como homem público, foi chefe de gabinete de João Goulart na Secretaria de Justiça do RS, entre outras atribuições que o levaram a ter de escrever sob pseudônimo.
Várias décadas se passaram. Ainda vivemos um tempo de guerra, de solidão e de angústia. Verificamos, no entanto, que o tempo vivido pelos personagens no romance “Enquanto a noite não chega”, bem como o tempo vivido pelo escritor antecedem o Estatuto do Idoso. Instituída durante o primeiro mandato do presidente Lula, a Lei n. 10.741/ 2003 prevê, para pessoas com 60 anos ou mais, a prioridade que abrange saúde, alimentação, educação, cultura, lazer, trabalho, dignidade e respeito na convivência familiar-comunitária.
A exemplo da situação do casal Dona Conceição e Dom Eleutério, que perderam toda a família, seria dever do Estado assegurar esses direitos instituídos pela Lei. Na trilha deixada pelo escritor no que se refere a personagens idosos, outros bons escritores andaram. Para lembrar Guimarães Rosa (1908-1967), com o personagem Tio Bola, em seus oitenta anos, do conto Presepe, em Tutameia terceiras estórias. O gaúcho e o mineiro foram por um curto período contemporâneos. Não obstante desconhecerem a Lei que prioriza um tratamento de dignidade à população idosa do País, ambos souberam dar voz a personagens clamando por uma vida digna e inclusiva. Por essas trilhas, a prática da leitura é um caminho possível para assegurar uma convivência comunitária reflexiva em qualquer idade. A arte literária acirra nossas angústias justo para aplacar nossos medos e a nossa solidão.