O espetáculo “A Menina dos olhos d’água”, que estreou recentemente na Alemanha, já se apresentou no Rio de Janeiro e na Colômbia, fala do sul do Brasil. Eis-nos, em Porto Alegre, no ano de 2025, frente a um trabalho de teatro pulsante, muito bem construído, e seriamente vinculado ao bem-estar do seu público privilegiado, o infanto-juvenil.
A encenação do Coletivo Gompa utiliza muitos recursos surpreendentes para crianças e adultos, desde maquetes a projeções, e bonecos cuja manipulação espetacular de Liane Venturella nos conduz a muitas peripécias das duas personagens femininas da história, num esforço de reconstituição poética da enchente de 2024 do Rio Grande do Sul, e atualização da situação de refugiado climático que se abateu sobre milhares de indivíduos e famílias. E A Menina dos olhos d’água também encheu meus olhos de lágrimas, não só pelo sentimento de empatia, mas também pela força poética com que o acontecimento está apresentado.
Considero seríssimo questionar uma tendência que aliena a infância das realidades da vida, privando os pequenos do entendimento de situações que determinam suas experiências existenciais. Um fenômeno climático, por exemplo, pode desencadear mudanças profundas, e traumáticas, por sua inevitabilidade. E foi extremamente corajoso da parte das criadoras de A Menina dos olhos d’água, Liane Venturella e Camila Bauer, utilizar a experiência recente do que ocorreu no Estado do Rio Grande do Sul, em 2024, uma enchente sem precedentes, que inundou cidades, inclusive a capital, Porto Alegre, e desabrigou milhares, para a criação de uma obra dramática que prioriza o olhar e os sentimentos de uma criança.
Com a memória recente dos acontecimentos, a fábula da pequena menina conduz seus contemporâneos, nós, afetados direta ou indiretamente, neste clima de caos, a poetizar, convida a criar recursos, perceber as redes de cuidado em funcionamento, estabelecer novos vínculos, recomeçar. Uma pequena ode à resiliência e à estetização do desastre como forma de escapar do caos.
Reiterando e presentificando os relatos e as imagens da enchente, nos vemos subitamente arrancados e exilados do que parecia certo, concreto, garantido. E, em meio dessa temática densa, absoluta e dolorosamente real, emerge a narrativa da situação de uma família, mãe e filha pequena, a menina, que devem lidar com a situação. O trabalho do Coletivo Gompa, mais uma vez, se investe do elemento histórico para produzir fábula a partir dos documentos, produzindo uma delicada obra-prima.
Encontro na diretora Camila Bauer uma potência propositiva rara, que não foge das grandes discussões éticas de seu tempo, e que, ao se dirigir às crianças, o faz com uma profunda responsabilidade. Aliada a isso, percebe-se em seus trabalhos uma qualidade estética admirável, e que se estende a cada área da produção, luz, cenário, bonecos, projeção, e a cada membro do Coletivo Gompa. Estes artistas trabalham de forma exigente, meticulosa, e cada uma de suas montagens desafia as anteriores.
O Coletivo Gompa tem produzido vários espetáculos para público infanto-juvenil em seus 14 anos de existência, sempre abordando temas polêmicos, como o abuso infantil, urgentes, como a preservação ambiental, ou versões alternativas para histórias conhecidas do Chapeuzinho Vermelho, ou Frankenstein, que surpreendem todas as idades. A Menina dos olhos d’água surge num momento doloroso e sua trajetória inspira confiança e coragem, qualidades necessárias frente à qualquer desgraça. É fruto de uma pesquisa rápida, ágil e profunda o suficiente para refletir sobre a história do tempo presente numa dramaturgia autoral que encanta e faz refletir.
O trabalho sobre o luto sob a perspectiva da criança é outra importante contribuição do espetáculo. A assessoria de uma psicóloga na concepção da narrativa certamente ofereceu maior segurança para investir neste território sombrio, e a personagem transita entre a dor da perda de seu animal de estimação, a saudade, a aceitação, até um recomeço, e a preservação viva do afeto. Existe uma narrativa pessoal, e, no entanto, as cenas falam de um sentimento comum a todos os seres humanos, que pode ser expandido e universalizado. E por que isso é importante? Porque precisamos oferecer às nossas crianças ferramentas para entender e lidar com essas situações e sentimentos, na arte encontramos um locus privilegiado, e, na fantasia, exemplos e metáforas.
São inúmeras as qualidades desta peça, que transita entre a história factual e a ficção com grande fluência e leveza, como se contasse uma história que pertence a todos, praticamente sem usar as palavras. Os gestos são suficientemente eloquentes para preencher o espaço dramático e prender o olhar e a atenção do expectador, que fica suspenso no fio da história. Oscilando entre a máscara e a marionete, Liane Venturella é ora a mãe, ora a menina, confirmando sua versatilidade e carisma.
Sabemos que o terror das inundações faz parte de inúmeros mitos antigos, e que a experiência de grandes enchentes deve ter assombrado as populações. Desde os sumérios, que nos legaram o poema Gilgamesh, conhecemos a mais antiga narrativa de um Dilúvio ordenado pelos deuses para a destruição da humanidade. Mais de um milênio depois, na Torá judaica, no livro do Gênesis novamente encontramos a narrativa de um Dilúvio orquestrado como vingança divina.
No Egito também existe um mito sobre um Dilúvio planejado pela deusa Sekhmet, que foi evitado pela sagacidade de Rá, o deus Sol. Mesmo em pleno deserto, o medo das águas estava presente, como uma derradeira ameaça à vida. São exemplos de diferentes culturas que apontam para um trauma e uma preocupação em não desafiar os deuses que poderiam desencadear a fúria das águas.
No caso atual, a crise climática anunciada começa a mostrar suas consequências. E A Menina dos olhos d’água, com sua trajetória internacional, leva a experiência gaúcha também como um alerta e uma advertência. A realidade das imagens, a memória das vivências, ultrapassam o trauma e constroem uma trama onde a humanidade reaparece no seu aspecto mais frágil e compassivo, agregando esforços para a proteção e a recuperação da dignidade dos atingidos, até o retorno à casa, a afirmação da possibilidade de um recomeço, a esperança. Sem dúvida, um trabalho para todas as idades, que reflete sobre a infância e o futuro de todos.
FICHA TÉCNICA
- Espetáculo: ‘A Menina dos Olhos D’Água’
- Concepção: Liane Venturella e Camila Bauer
- Direção: Camila Bauer
- Atuação e manipulações: Liane Venturella
- Dramaturgia do movimento: Ceren Oran
- Dramaturgia de bonecos: Kenia Rodriguez e Dayane Deulafeu Canto
- Criação de bonecos e máscara: Pedro Girardello
- Cenografia: Élcio Rossini
- Criação de miniaturas e figurino: Liane Venturella
- Desenho de vídeo: Pablo Moins
- Montagem de vídeos: Raoni Ceccim
- Trilha sonora: Paola Kirst e Álvaro RosaCosta
- Desenho de luz: Ricardo Vivian
- Assistência técnica: Thiago Ruffoni
- Produção: Venturella Produções Ltda e Coletivo Gompa
- Assistência de produção: Rômulo Venturella
- Produção na Alemanha: Karolina Hejnova
- Realização: Coletivo Gompa
- Assessoria de imprensa: Léo Sant’Anna
- Arte gráfica: Jéssica Barbosa
- Fotografia: Jéssica Barbosa, Laura Testa e Wallace Gonçalves
- Realização: Coletivo Gompa
- Financiamento: International Coproduction Fund Goethe-Institut e Iberescena.