Caderno de Sábado

Entre o heroísmo e a retidão

Médico e escritor Alcides Mandelli Stumpf trata, em artigo, das virtudes e defeitos em grandes personagens da histór

Um frame tirado de um vídeo do canal de Telegram "South First Responders" após o ataque do Hamas a uma rave perto do kibbutz Reim, em Israel, junto ao deserto de Negev, em 9 de outubro de 2023
Um frame tirado de um vídeo do canal de Telegram "South First Responders" após o ataque do Hamas a uma rave perto do kibbutz Reim, em Israel, junto ao deserto de Negev, em 9 de outubro de 2023 Foto : South First Responders / AFP / CP

Através da história surgem o heroísmo e a santidade. Dificilmente encontraremos tais virtudes em um único personagem, na mesma pessoa.

Os heróis são valorosos e combatentes, suas missões são perigosas, arriscam suas vidas e suas performances, geralmente, são espetaculares; frequentemente geram altos custos emocionais ou mesmo materiais.

Eles surgem e resplandecem nas revoluções ou nas guerras. Alguns chamam a atenção imediatamente, outros mais tarde, e outros ainda jamais são ou serão reconhecidos. Estes últimos talvez sejam os mais autênticos e valorosos de todos.

Já os santos, em geral, são mais discretos, mansos e manifestam-se pela compaixão junto aos miseráveis, aos que mais sofrem. Muitas vezes, despontam nas guerras patrocinadas pelos diferentes heróis.

O certo é que um único indivíduo pode alterar o curso da história, modificando o destino de milhões de pessoas mediante ações estratégicas, geralmente políticas ou militares. Bem mais raros são aqueles outros que entram na história por beneficiarem milhares de pessoas por meio da paz e da harmonia, como Mahatma Gandhi.

Joana d’Arc é um caso raro que mistura as duas diferentes figuras. A Donzela de Lorena conseguiu ser heroína e santa ao mesmo tempo. Já Napoleão Bonaparte, Winston Churchill ou Joseph Stalin pertencem a apenas um dos lados. Nada, porém, é mais humano ou desumano do que a guerra, e dela os quatro participaram.

Analisemos agora, ainda que superficialmente, o conflito entre Israel e Irã.

O Estado de Israel foi proclamado em maio de 1948, com fronteiras definidas pelo Plano de Partilha da ONU, de novembro de 1947, que dividia a Palestina em dois Estados — um judeu e um árabe. Jerusalém ficaria sob administração internacional.

No dia seguinte à proclamação, exércitos do Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque invadiram o recém-criado Estado. A guerra então seguiu até 1949, quando o armistício foi firmado. Ao final do conflito, Israel contava com cerca de 50% a mais de território do que o previsto pela ONU. No acordo, a Faixa de Gaza ficou sob controle egípcio, e a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, sob domínio jordaniano.

Mais tarde, em junho de 1967, houve a Guerra dos Seis Dias. Israel conquistou a Península do Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e as Colinas de Golã. As novas linhas multiplicaram por três o território israelense e redefiniram o mapa geopolítico do Oriente Médio, consequências essas que perduram até hoje.

Avancemos, agora, para 7 de outubro de 2023, data que marca o ataque terrorista do Hamas - deixando mais de mil e duzentos israelenses mortos, quase todos civis, inaugurando uma nova e sangrenta guerra que perdura até hoje -, agora com a participação dos EUA.

A raiz do conflito é profunda e complexa, passa por questões religiosas, territoriais, étnicas e culturais que se perdem no tempo e no espaço.

O islamismo, que tem raízes no cristianismo, que, por sua vez, tem raízes no judaísmo, foi violento em sua origem e em parte de sua história. Embora, também historicamente, tenha demonstrado tolerância e convívio pacífico com judeus e cristãos.

No entanto, mostra-se extremamente intolerante nas suas vertentes presentes no Irã dos aiatolás, no Afeganistão dos Talibãs ou no jihadismo fanático e assassino.

Essa deturpação do islamismo e seus conceitos radicais põe em xeque toda a cultura ocidental ou judaico-cristã, iniciada na Grécia Antiga, com Platão e Sócrates, e consolidada na Europa ao longo dos séculos. A ameaça fica ainda mais candente quando essas facções extremistas se aproximam da viabilização e posse de armas atômicas.

Assim, ao entrar na guerra entre Israel e Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump, se candidata ao título de herói ao defender os valores e a cultura ocidental, além de outros ganhos menores, como manter a hegemonia entre as demais nações e povos.

Porém, nesse conflito, parece não haver vagas para santos e sequer para heróis.

Sim, talvez a intenção seja das melhores, mas certamente não há pureza alguma no ar ou no método; mais uma vez estabelece-se o eterno confronto entre a razão e a loucura.

Triste somos nós, seres humanos, que temos de viver sob esse dilema sem fim, ad aeternum, a herança maldita que nos tirou do paraíso.