Caderno de Sábado

Escada para o Céu

Professora e pesquisadora, Bruna Fetter, analisa a mostra individual do artista Frantz, que está em cartaz na Ocre Galeria até o dia 1º de agosto

O artista Frantz apresenta a exposição "Escada para o Céu" na Ocre Galeria
O artista Frantz apresenta a exposição "Escada para o Céu" na Ocre Galeria Foto : Sofia Forster / Divulgação / CP

Uma pequena escada vermelha flutua em meio a um tela. Ali, sozinha enquanto objeto representado, ela não conduz a lugar algum. Apenas aponta uma direção. Fosse a escada real, aonde ela nos levaria?

Tal pergunta serve de convite para nos aproximarmos da produção de Frantz e adentrarmos seu universo poético em “Escada para o céu”, nova exposição individual que o artista apresenta na Ocre Galeria.

Conhecido por sua metodologia de trabalho em pintura expandida, Frantz tem dedicado sua produção poética a esgaçar a definição usual de autoria e os limites da técnica. Ele promove esse tensionamento ao forrar paredes e pisos de ateliês de outros artistas com tela, permitindo que o uso desses espaços acumule camadas matéricas de tinta e sujeira por intervalos de tempo que podem variar de alguns meses a anos. Ao recolher essas telas, o artista passa então a conviver com imagens, selecionando enquadramentos para eventualmente assumirem o formato de obra de arte. Esse processo de edição, que se assemelha ao do fotógrafo ao estabelecer um recorte de uma cena a partir de um universo maior, pressupõe o refinamento do olhar: o artista enxerga composição onde visualizaríamos resíduo.

Resultando em imagens abstratas, as telas deixam a ver tipos de tinta, preferências de cores, formas de pintar de outros artistas, com escorridos, respingos, marcas de latas e sobreposições diversas. O acaso incorporado ao fazer. No entanto, e diferentemente do Expressionismo Abstrato, por exemplo, para o qual o aleatório estava relacionado à gestualidade de quem pintava; em Frantz o gesto artístico não está mais na mão do pintor, mas em tudo aquilo que lhe escapa.

Ao delegar ao acaso e à passagem do tempo parcela significativa da responsabilidade sobre aquilo que encontramos no espaço expositivo, Frantz não apenas assume o caráter conceitual como base de seu trabalho, como também tensiona a própria compreensão de quem é e o que faz um artista.

Tais questões não são novas para ele, que vem trabalhando dessa forma desde 1990, quando — por necessidade — forrou o ateliê que ocupava em sua temporada na Alemanha pela primeira vez. Desde então, é possível encontrar distintos desdobramentos dessa operação e uma multiplicidade de telas que refletem, sem desvelar e nem fetichizar, os ateliês de origem.

Com o passar do tempo, é possível perceber uma crescente sofisticação no seu entendimento do uso do espaço pictórico. Para esta exposição, o artista assume a marca indelével da arquitetura dos ateliês na arquitetura das imagens resultantes, incorporando o delineamento de quinas e cantos, bem como a transição entre os planos vertical e horizontal às composições. Também permite que áreas de tela cobertas por sobreposições aleatórias pelo encontro entre distintos rolos de tecido sejam enquadradas. Como resultado, é possível perceber vazios na constituição das imagens, algo recente em suas obras.

Se em seu trabalho até então havia a predominância de pinturas do tipo all over, manifestação inaugurada por Jackson Pollock em 1947, na qual a totalidade da superfície da tela é tratada com igual significância e a planaridade da imagem se evidencia, não havendo distinção entre frente e fundo; nesta série, esses planos sem cor criam distinções e hierarquias espaciais, gerando eventuais percepções de profundidade.

Outra operação que se descortina nos trabalhos ora apresentados é a organização das obras em dípticos e trípticos. Ao desdobrar uma tela em outras, Frantz aciona um jogo entre continuidades e descontinuidades possível a partir de um uso ampliado das telas originais e seus encaixes. Interessante observar que, ao fazer isso, o artista horizontaliza as imagens, nos convidando a percorrer sua distância e a experienciá-las de corpo inteiro. Tal escala acaba por incidir também no eixo de fruição das obras, provocando o afastamento e um olhar vertical ao conjunto. Olhamos mais acima, olhamos mais alto. E retornamos à escada.

O que essa escada significa, afinal? Apenas a comprovação de que até mesmo o acaso pode gerar representação. Mas é por meio do olhar de Frantz que ela ganha significado, ao ser enquadrada em um suporte, compondo uma imagem. A figuração está longe de ser algo central ao seu trabalho, mas esta singela escada nos convida a perceber outros vários pequenos detalhes presentes nas obras. Quem sabe quais outros mistérios não estariam por ali escondidos, esperando serem encontrados pelo nosso olhar?