Então, Bivô, o senhor conheceu a primeira Exposição de gado em Porto Alegre?
- Eu?! De jeito nenhum. Sou nascido em 1930, três meses antes da revolução, ou seja, muito tempo depois. Mas o meu pai expôs um touro nela, e fico triste que só se fala na Expointer, como se não tivesse uma bisavó...
- E quando foi isso?
- Em 1901, na virada para o século XX.
- Cruzes! E onde foi que fizeram, no Menino Deus?
- Não, aquela foi a segunda exposição, em 1909, no lugar onde é hoje é a Secretaria da Agricultura, na Avenida Getúlio Vargas.
- Lá onde tem a feira de produtos orgânicos?
- Lá mesmo.
- E essa primeira, onde foi?
- No Parque da Redenção.
- Que engraçado...
- Por quê?
- Imaginei o bicharedo todo espalhado pelo meio do povo, no Brique da Redenção.
- Pois os pavilhões para os animais foram erguidos exatamente do outro lado, porque a entrada principal da Exposição Agropecuária e Industrial de 1901 estava ao lado do prédio da Escola de Engenharia, que existe até hoje.
- Foram os engenheiros agrônomos que fizeram essa exposição?
- Sim, junto com os veterinários e criadores filiados à Sociedade Agrícola Pastoril, fundada em 1898, em Pelotas. Local da primeira Escola de Agronomia e Veterinária do Brasil. Naquele tempo, não existia a Farsul, nem a Secretaria da Agricultura. Até o Ministério da Agricultura não existia em 1901, pois fora extinto logo depois da proclamação da República...
- Que memória o senhor tem, Bivô...
- É o chá de carqueja, me faz um bem enorme.
- Lá vem o senhor de novo com essa bobagem... Vamos voltar para o assunto da exposição. Fazer essa primeira, em Porto Alegre, foi mesmo um ato de coragem, hein, Bivô?
- De coragem e competência. Naquela época Porto Alegre tinha só 73 mil habitantes, e a Exposição recebeu 67 mil visitantes, de 24 de fevereiro a 2 de junho de 1901. Isso que o ingresso foi cobrado a um mil-réis por pessoa, o que não era pouco.
- E tinham muitos expositores?
- Tenho um velho catálogo da Exposição, lá em casa, com muitas fotografias, que posso te mostrar. Participaram dois mil expositores de sessenta municípios, praticamente todos os existentes na época.
- Bá! É como se hoje participassem expositores dos quase quinhentos municípios gaúchos.
- É isso aí, bicho!
- Bicho, eu?!
- É só um jeito de falar... de quando eu tinha a tua idade. É o mesmo que dizer: Tu tá certo, cara. Mas chamar de bicho não devia te ofender. Tu és louco até por cavalo de carroceiro e cusco vira-lata.
- Isso é verdade, Bivô. Acho uma bobagem chamarem as pessoas de cachorro, de gato, de burro, e até de cavalo, como se fossem ofensas.
- Concordo contigo. Por isso, na Exposição de 1901, ao lado do grande pavilhão onde foram expostos os equinos, bovinos, ovinos, caprinos, suínos e aves, foi erguido outro para as Belas Artes, com obras de pintores famosos, como Virgílio Calegari, Jacinto Ferrari, Pedro Weingartner, entre outros.
- Isso, nem a Expointer ainda fez. Imagine um pavilhão aqui com obras de arte de pintores de todos os países representados... Mas, me diga uma coisa, Bivô.
- Dizer o quê, meu querido?
- Me diga de verdade. Como é que o senhor, que já passou dos noventa anos, ainda se lembra de todos esses nomes, datas e números?
- É por causa do chá de carqueja, já te disse.
- O quê?! Nunca vi o senhor tomando chá na vida. Só chimarrão, carne gorda e vinho tinto.
- É verdade. Mas eu tenho que inventar receitas de longevidade para as pessoas não me encherem o saco.
- Como aquela de que cada passo que um nonagenário dá para frente, é mais um dia na sua expectativa de vida... E o senhor nunca deu caminhadas na vida. Parece que já nasceu montado a cavalo.
- Pura verdade. Sou igual àqueles versos do Glênio Fagundes que, aliás, regula de idade comigo.
- Que versos?
- Me criei no lombo do cavalo, verdade essa sem força de expressão, fácil de explicar. Eu apeei do petiço pra aprender a caminhar...
- Incrível como como o senhor nunca esquece das poesias.
- É o chá de carqueja e as grandes caminhadas, já te disse. E, por falar nisso, vamos apressar o passo, que o Freio de Ouro já vai começar.
* Escritor