Caderno de Sábado

Expressões da diversidade da mulher gaúcha

Pâmela Amaro abriu o projeto na terça-feira passada, dia 8, no Arena
Pâmela Amaro abriu o projeto na terça-feira passada, dia 8, no Arena Foto : Luis Ferreirah / Divulgação / CP

Cada vez mais as mulheres empreendem ações importantes as quais realizam no decorrer do ano e o resultado do engajamento intenso e ininterrupto às conquistas de espaços de fala, de denúncias, de trabalho, de luta e na arte já se configuram irreversíveis. É inegável a importância de nossa presença ativa na administração de nossas famílias, nas universidades, nas políticas públicas, no mercado de trabalho, muito embora os salários ainda estejam aquém de nossas qualidades, jamais satisfeitas desbravamos em nós criatividade inesgotável para fazer diferente.

Rasgamos rótulos de fragilidade, vamos desmistificando preconceitos e seguimos mostrando nossa ousadia e coragem até para nós mesmas, sempre que percebemos a força tamanha que possuímos, na medida em que os desafios aparecem. Arrisco dizer que o período mais longo da civilização humana, as agruras daquela vivência pré-histórica forjou em nós uma couraça e ensinou o caminho da fortaleza onde nos abrigamos, armazenamos suprimentos e tudo o que precisamos para encarar de frente todo desconhecido que cavalga em nossa direção.

Andamos tanto e ainda temos incontável quilometragem pela frente! E como se arrasta o tal período pré-histórico! As lutas, aos olhos de muitos são inglórias, mas esses muitos parecem desconhecer que a teimosia e a força da mulher não arrefecem. Quem tem olhos de ver, vê.
A sensibilidade peculiar à mulher começa a perceber alguma coisa estranha no ar, e não é disco voador de lata. Para variar estamos em guerra e os marcianos já não são novidade, sempre que penso em avanços tecnológicos posso imaginar movimentos nas tumbas de Santos Dumont e de outros inventores que tiveram suas obras primas usadas contra a humanidade.

No geral, a alma humana desliza ladeira abaixo em retorno às cavernas. Todavia contamos com os despertos. Assim como o nascer de todos os dias desperta para as mulheres o instante de decidir romper as barreiras, empinar o nariz, aguçar o olfato e a curiosidade, calçar um par de tênis ou salto alto e alcançar o movimento. A hora de descerrar o véu que encobre mentes distraídas e mergulhar num oceano de conhecimento, é agora. E quem sabe, sem paixão esclarecer dúvidas partindo lá do início da civilização? Experimentar observar sem julgar, nem atear fogo nas teorias de Darwin?
Desafiador lá fora, imagine cá dentro? A dor e o medo que isso causa é a parte mais difícil no autoconhecimento. Mas quem ainda consegue viver na zona de conforto e ser feliz? Descobrir quem somos na individualidade exige imersão como qualquer outro estudo! Na medida dos esclarecimentos a nosso respeito, temos todo direito de nos debulhar em lágrimas, lavar a dor e ainda usar o aguaceiro para descartar o lixo que acumulamos para a serventia de nada.

O naturalista inglês Charles Darwin, autor da obra intitulada “A Origem das Espécies” (1859), teoriza que a origem da vida de todos os seres vivos está no processo da evolução e nesse processo, passado ao longo de milhões de anos, ele diz que: “a espécie que sobrevive não é a mais forte nem a mais inteligente, mas sim àquela que melhor se adapta às modificações do ambiente”. A adaptação ao ambiente em que vivemos é prudente, entretanto, se nós mulheres não fizermos bom uso da inteligência, vem um dinossauro carnívoro e nos engole inteiras! A bem da verdade e da esperança, dormir com um dos olhos abertos se tornou prática corriqueira às mulheres.

O convite que recebi para ser a curadora desta promoção da Secretaria de Estado da Cultura com o Instituto Estadual de Artes Cênicas (Ieacen) à montagem do Projeto Expressões Femininas – a Diversidade Cultural da Mulher Gaúcha, é alinhado aos meus anseios de contribuição, além da minha arte. Trazer às nossas experiências a vivência com a “diversidade cultural da mulher gaúcha”, estreitar distâncias e laços pelo viés do conhecimento dos saberes e especificidades culturais das mulheres representantes dos povos desta terra gaúcha, onde nascemos ou nos aquerenciamos, criamos filhos de sangue ou adotivos, é um presente! 

Sou muito grata pela oportunidade de agraciar com visibilidade os fundamentos do cotidiano das mulheres de diferentes etnias e preferências sexuais e trazer ao público urgente entendimento aos fundamentos do respeito, união e solidariedade. Nesta reunião com personagens femininas de realidades diversas pode nos trazer novas ideias, projeções positivas ao futuro, ao empreendedorismo e novas ações que venham fortalecer a preservação da vida, de nossos espaços, de direitos adquiridos e que já fazem parte de nossas atribuições para com a sociedade. Lugar de Mulher é onde ela quiser e nós queremos mais!

Ser parte neste empreendimento de profunda magnitude com o Teatro de Arena, berço de resistência tão querido da classe artística e do público porto-alegrense é enriquecedor! Nas terças-feiras desde o último dia 8 até 29 de março, bons momentos preparamos para ti, respeitável público!
No reino das expressões artísticas há excelentes nomes e novidades! As Expressões Femininas no Teatro de Arena apresentam pocket shows, primeiro com a sambista negra Pâmela Amaro e o monólogo com texto de Clarice Lispector pela atriz turca Thuanie Cigaran (realizados na terça, dia 8). Na terça seguinte, 15, show da cantora e compositora Adriana Deffenti e na mesma noite a artista plástica Fabiana Steremberg pintará uma tela na cena do debate-papo e ao final falará de sua obra e projetos; dia 22 receberemos a Cuiã Iracema Gatên, a dança cigana com bailarina Nubia Ribas, e pra finalizar uma forte reflexão na voz da declamadora Liliana Cardoso. Ao encerramento do projeto, no dia 29, pocket show com a cantora Loma Pereira e duo.

O Debate-papo terá a presença de mulheres atuantes na representatividade às causas femininas com mediação da jornalista Clarissa Lima. As mulheres são Paola Pinent, Pâmela Amaro, Adrieli Sperandir, Thuanie Cigaran, Lelei Teixeira, Fabiana Steremberg, Cuiã Iracema Gatên, Rejane Paféj Kanhgág, Nubia Ribas, Tainá Valenzuela, Carol Biberg, Letícia Rocha Machado e Ana Fagundes. São musicistas, feministas, gestoras culturais atuantes da sociedade civil e de governo, professoras de arte, voluntárias, psicólogas, pedagogas, jornalistas, escritora, advogada, filósofa, historiadoras, museólogas e patroa de CTG.

* Cantora, compositora, agente cultural e a primeira mulher negra a participar e construir carreira nos festivais nativistas gaúchos.