Vinte e cinco painéis. Vinte e cinco mulheres. Vinte e cinco histórias que encontram abrigo no centenário prédio do Correio do Povo e trazem consigo a ressonância de séculos. Cada quadro da mostra “Heroínas Tchecas” não exibe apenas beleza plástica; expõe camadas de pesquisa e seleção rigorosa de imagens que transformam biografia em evidência visual. Ali, onde a história tcheca encontra resistência, sacrifício e transcendência, floresce também o método — o cuidado de quem sabe que cada uma das homenageadas merece precisão, não romantismo. É assim que a mostra realizada pelo Consulado Geral da República Tcheca e parceiros chega a Porto Alegre, potencializando um momento emblemático: 2025 celebra 105 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Tchéquia.
Espaço fala por si.
O Correio do Povo não é cenário aleatório. Com 130 anos de história, o jornal é pilar da consciência coletiva gaúcha – seus alicerces resistiram às enchentes devastadoras de 2024. Onde a memória jornalística se preserva, agora há entrelaçamento com a cultura e com uma nação distante geograficamente, mas próxima em valores democráticos. A resiliência do edifício ecoa nas trajetórias das mulheres celebradas nos painéis.
ALGUMAS HEROÍNAS
Madeleine Albright — Da ocupação ao poder diplomático
Nascida em Praga em 1937, quando a Europa prenunciava tempestades, Madeleine Albright vivenciou dois exílios: primeiro da Tchecoslováquia invadida pelos nazistas, depois da ocupação comunista. Décadas de travessia. Décadas de distância de casa. Em 1997, tornou-se a primeira mulher a comandar a diplomacia norte-americana como Secretária de Estado. Sua ascensão não foi apenas pessoal – foi representação viva: gerações de mulheres tchecas que transformaram adversidade histórica em plataforma de influência global.
Bertha von Suttner — O Nobel que validou a luta
Nascida em 1843, escolheu a palavra como instrumento de transformação. Publicou "Abaixo as Armas!" em 1889 – romance que circulou em edições traduzidas, mobilizando pacifistas por toda a Europa. Seus escritos ecoaram em congressos internacionais. Em 1905, tornou-se a primeira mulher laureada com o Nobel da Paz, reconhecimento que validou décadas de luta intelectual contra a guerra e a legitimidade feminina na arena política mundial.
Milada Horáková — Duas prisões, uma sentença de morte
Milada Horáková sofreu sob a égide de dois regimes opressores. Os nazistas a prenderam por resistir à ocupação alemã durante a Segunda Guerra – mas, ela sobreviveu. O regime comunista que se seguiu não concedeu a mesma sorte. Condenada em julgamento espetáculo, executada em 1950, Horáková tornou-se símbolo das vítimas dos totalitarismos que dilaceraram a Europa no século XX.
Milena Jesenská — Jornalista, tradutora, salvadora
Transformou seu apartamento em Praga em santuário para perseguidos. Jornalista, tradutora – a primeira a verter Kafka do alemão para o tcheco (amante do próprio escritor) –, Jesenská arriscou tudo durante a ocupação alemã no contexto da Segunda Guerra Mundial. Judeus escondidos passaram por suas portas. Presa em novembro de 1939, deportada para Ravensbrück, ofereceu conforto aos companheiros de prisão, convivendo com Olga Benário no campo. Morreu nas mãos dos nazistas em maio de 1944. O Yad Vashem a reconheceu como "Justa entre as Nações" – título que honra quem salvou vidas judaicas durante o Holocausto.
Martina Navratilova — Quadras como tribunal de igualdade
Lendária tenista que nunca esqueceu seu país de origem, mesmo após naturalizar-se norte-americana. Transformou quadras de tênis em tribunas para igualdade de gênero e direitos humanos, provando que excelência esportiva transcende placar – podendo servir para causas maiores.
Marta Kubisová — A voz que desafiou os tanques
Cantava quando os tanques soviéticos entraram em Praga em 1968, sufocando a Primavera que prometia liberdade. Sua voz, carisma e status – comparada ao apelo popular contemporâneo de Taylor Swift, conforme Richard Krpac, cônsul-geral da República Tcheca – tornaram-se sinônimo de resistência pacífica. Marginalizada pelo regime, jamais abandonou princípios. Krpac, que conviveu com Madeleine Albright nos EUA, considera Kubisová sua heroína preferida.
RIGOR HISTÓRICO
ENCONTRA SENSIBILIDADE ARTÍSTICA
A exposição “Heroínas Tchecas” nasceu em 2020 da colaboração entre a Faculdade de Design e Arte Ladislav Sutnar da Universidade da Boêmia Ocidental em Pilsen e os Centros Tchecos. Renáta Fucíková – ilustradora, escritora e professora – liderou a iniciativa a partir do Ateliê de Ilustração Didática da instituição. Essa origem acadêmica não é detalhe – é garantia. Cada painel passou por curadoria que equilibra rigor documental com impacto visual. Não há espaço para narrativa rasa quando a história das mulheres está em jogo.
ALÉM DAS BIOGRAFIAS:
O TERRITÓRIO QUE AS MOLDOU
Imagens de montanhas da Boêmia, natureza abundante e cidades medievais preservadas complementam os painéis biográficos – reconhecimento de que compreender um povo demanda conhecer seu território, sua arquitetura, sua paisagem. As heroínas não surgiram do vácuo. Foram moldadas por uma nação que, apesar de sucessivas ocupações e supressões, preservou identidade e cultura.
LIDERANÇAS QUE CONSTROEM PONTES
Ao lado da Casa da Memória Unimed Federação/RS, representada por seu idealizador, Nilson Luiz May, a embaixadora da República Tcheca em Brasília, Pavla Harlková, e o cônsul honorário em Porto Alegre, Fernando Lorenz, somaram forças junto ao Consulado Geral para viabilizar a vinda da exposição a Porto Alegre. O trabalho do trio exemplifica como lideranças podem transcender protocolos, aproximando povos por meio de iniciativas que ecoam no presente e para o futuro.
CONTINUIDADE
"Heroínas Tchecas" sucede "Gigantes da Cultura Tcheca", que atraiu mais de 12 mil visitantes à Biblioteca Pública do Estado entre dezembro de 2024 e março de 2025. O apetite do público porto-alegrense por compreender a riqueza cultural europeia se confirmou — comprovado em números. Agora, o foco nas contribuições femininas – perspectiva ainda marginalizada em narrativas históricas convencionais – amplia e aprofunda esse diálogo.
SAIBA MAIS
- Visitação: segunda a sexta-feira: 9h às 12h | 13h às 17h
- Período: 29 de outubro a 28 de novembro. Entrada gratuita
- Local: Espaço Memória e Cultura — Correio do Povo
- São parceiros da exposição o jornal Correio do Povo, Biblioteca Pública do Estado, Instituto Unimed/RS, Unicoopmed, Associações Tchecas do Rio Grande do Sul, AABPE e Associação dos Amigos do Instituto Estadual do Livro (Ligia Averbruck)
- Visitar “Heroínas Tchecas” é mais que observar painéis, é afirmar a importância da memória, reconhecer a contribuição feminina à história mundial e ratificar o valor do intercâmbio cultural entre povos. É celebrar 105 anos de amizade entre Brasil e República Tcheca – enlace que encontra expressão perfeita no coração de Porto Alegre, onde um prédio centenário abre suas portas para que heroínas de outro continente inspirem novas gerações.