Caderno de Sábado

Histórias de crianças e exílios durante a ditadura

Jornalista e escritor José Weis aborda, em resenha, o impacto da ditadura militar nas crianças, a partir de histórias do livro ‘Crianças e Exílio - Memórias De Infância Marcadas Pela Ditadura Militar’.

Família Julião: Anatilde, Anacleto, Anatailde, Anatólio e Julião no embarque, em 1962, para Cuba, onde os jovens ficaram aos cuidados de Fidel Castro
Família Julião: Anatilde, Anacleto, Anatailde, Anatólio e Julião no embarque, em 1962, para Cuba, onde os jovens ficaram aos cuidados de Fidel Castro Foto : Acervo Pessoal / Divulgação / CP

Se a condição de ser um exilado é algo difícil para adultos, dá para imaginar este impacto para uma criança. Foi isso que uma ditadura proporcionou para um contingente de pequenos brasileiros. O regime foi responsável pela saída forçada de muitas crianças, é disso que fala o livro “Crianças e Exílio - Memórias De Infância Marcadas Pela Ditadura Militar” (Carta Editora, 2025, 344p.). A publicação contém as histórias destas infâncias vividas no exílio, o livro é organizado pelas professoras Helena Dória Lucas de Oliveira e Nadeja Marques, que também escrevem seus depoimentos.

São 46 textos para contar o que aconteceu quando eram pequenos ou até mesmo de quem nasceu no exterior durante aqueles tempos difíceis. Estas situações a que foram submetidas tantas crianças foi uma imposição da ditadura, que não permitia o retorno dos seus pais ao Brasil. Muitos destes pais foram aqueles jovens que se mobilizaram contra o regime. Era um tempo de perseguição, censura, prisões ilegais, tortura e assassinatos. De branda, a ditadura não teve nada.

Contra tanta violência do estado, muitos se rebelaram, foram presos e torturados, mas conseguiram sair do Brasil com seus filhos, que agora adultos contam o que passaram. “Utilizar bebês, crianças e adolescentes como alvos para aniquilar os opositores é uma estratégia que está presente na longa história da ditadura cívico-militar brasileira. Infelizmente, esta foi uma das táticas de guerra da doutrina antirrevolucionária aplicada pelas forças militares no período 1964-1985”, texto do prefácio, do jornalista e escritor Eduardo Reina.

Contexto de puro terror

Uma das expressões que melhor definem o período da ditadura no Brasil: “os anos de chumbo”, havia repressão de todas as formas. Mesmo com apenas dois partidos políticos permitidos, Arena e MDB, esse fazia às vezes de oposição, muitos parlamentares foram cassados.

No nível do ensino havia a expulsão ou aposentadoria compulsória de professores universitários, a UNE, União Nacional dos Estudantes estava na clandestinidade. Nas artes a censura era implacável, peças teatrais, filmes, músicas e livros, de repente, ficava tudo proibido. Os tempos da Guerra Fria, ou seja, de um lado, Estados Unidos da América e seus aliados do “Mundo Livre”, do outro, a então União Soviética, atrás da “Cortina de Ferro”.

Foi um tempo de terrorismo praticado pelo estado brasileiro sob intervenção militar. Os crimes cometidos contra cidadãos brasileiros não distinguiam etnia, profissão ou situação social. Se o golpe de 1964 derrubou o presidente eleito, João Goulart, outro novo golpe, em 1968, terminou de vez com os direitos civis no Brasil, começava a era do AI-5, ato institucional que, entre outras ignomínias negava o habeas corpus aos adversários políticos. Com tudo isso, em pleno regime de Direito, há políticos eleitos democraticamente que defendem o direito das manifestações que pedem a volta da ditadura.

A arte da resistência

As armas letais estavam nas mãos dos ditadores, o arsenal dos que os enfrentavam era outro, a arte, a cultura e uma boa luta. Desde o movimento estudantil quase clandestino se lançou à luta armada. Essa última, inspirada na quase recente Revolução Cubana. A reação foi importante, mas obviamente desigual, resultando em prisões, torturas e assassinatos que deixara profundas sequelas nos envolvidos.

Nas artes, muita criatividade e metáforas para denunciar o que acontecia no Brasil. A música, o teatro, o cinema e as artes se movimentaram dentro das possibilidades. Os filmes, as peças teatrais e a Música Popular Brasileira formavam e informavam o público. A imprensa quase toda sob censura prévia, criou-se então uma imprensa alternativa, a nanica, desde o Coojornal ao Pasquim. Na literatura, o gênero conto foi uma alternativa importante.

Voltando aos que optaram pela resistência e enfrentamento direto com os donos do poder, muitos “caíram” (presos) houve pequena vitórias, com o sequestro de autoridades, como diplomatas estrangeiros, o que determinou a liberdade de alguns destes militantes, que por sua vez foram expulsos do País. O caminho foi o exílio, para onde muitos conseguiram levar seus filhos, sem falar naqueles que nasceram fora do Brasil. Apenas no final dos anos 70, mais precisamente em agosto de 1979, veio a Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, que também aliviou a cara dos que torturaram, perseguiram e mataram em nome da ditadura. Assim, os exilados puderam voltar ao Brasil.

Relatos e memórias

“Chama-se exílio quando a gente vai embora pequenininha, ou mesmo nasce lá fora? Exílio é saudade, é estar fora de sua pátria, longe de suas raízes e seus familiares. Eu nunca tive saudade do Brasil. Saí com três anos, minha única lembrança é dos coelhinhos que tínhamos em casa; saudades, só dos avós”, é assim que Silvia Sette Whitaker Ferreira abre o texto de seu depoimento. Silvia Whitaker viveu no exílio dos três aos 18 anos. Passou pela França e Chile. Fez carreira diplomática, foi assessora da Secretaria Nacional de Mulheres e da Comissão Nacional da verdade. O texto e as atividades de Silvia poderiam perfeita mentes as narrativas e situações dos outros 45 relatos. Mais um: “A primeira lembrança que tenho da minha infância é provável mente a mesma de todas as crianças que viveram na clandestinidade: casas provisórias que não deixavam memórias, porque não eram lares”, Daniel Souza, que atualmente é presidente do conselho da Ação da Cidadania e produtor de cinema documental.

Todas estas pessoas foram crianças que um dia tiveram que partir para destinos diversos; 22 países, do vizinho Uruguai até Moçambique, para a Europa e pelas Américas afora.

Pequenos cidadãos brasileiros, de idades, origens distintas e que passaram a viver por situações semelhantes nas suas trajetórias que a Ditadura Brasileira impôs aos seus pais, companheiros de movimento e familiares.

Para cada uma destas crianças podemos multiplicar por 46 e acrescentar os pais, os avós e demais parentes e todos os amigos. Enfim, formam uma pequena multidão de brasileiros atingidos de forma direta ou indireta pela repressão implacável da ditadura. O regime de exceção que não foi menos sangrento daqueles que ocorreram em quase toda América Latina; Uruguai, Chile, Argentina e no Paraguai, para ficarmos num “Mercosul totalitário e militarizado”.

Os exilados deixaram o legado de seus ideais para quando voltassem ao Brasil. Aquelas crianças, que hoje são adultos, contribuiriam para construir um Estado Democrático de Direito. Militam em entidades como a Comissão da Verdade. Esta herança democrática os truculentos militares não conseguiram impedir.

O livro emociona, como afirma o jornalista Caco Barcellos, que assina o texto da orelha do livro; “chorei de alegria na leitura e releitura de cada história”, é uma forma de nunca esquecer e entender para que jamais se repita. Sem anistia para golpistas. Ditadura nunca mais. “A todas as crianças do mundo forçadas a abandonar suas famílias, amizades, casas, escolas e terra natal pelas guerras e violações aos direitos humanos de regimes ditatoriais e governos autoritários”, é a epígrafe do livro, para não deixar dúvidas.

FICHA TÉCNICA

‘Crianças e Exílio - Memórias De Infância Marcadas Pela Ditadura Militar’.

Autores: Vários

Editora: Carta Editora

Páginas; 344

Ano: 2025