Caderno de Sábado

Holocausto, memória, ruína e advertência

Jornalista e escritor Salus Loch, autor de “A Tenda Branca” e do e-book “Liberação”, trata em artigo dos 80 anos término da Segunda Guerra Mundial, na transição entre 8 e 9 de maio de 1945

Edifício do Reichstag incendiado servindo de cenário para a entrega de medalhas pelo marechal de campo Montgomery aos oficiais soviéticos.
Edifício do Reichstag incendiado servindo de cenário para a entrega de medalhas pelo marechal de campo Montgomery aos oficiais soviéticos. Foto : Malindine E G / Wikipedia Commons / CP

Na transição entre os dias 8 e 9 de maio de 1945, a Europa enfim experimentou um silêncio há muito esperado: após seis anos de barbárie, as armas se calaram. Terminava a Segunda Guerra Mundial no Velho Mundo. Em meio aos escombros de Berlim (Alemanha), nas ruas arrasadas de Varsóvia (Polônia), ou na irreconhecível Oradour sur Glane (França), as pessoas tentavam decifrar o significado daquele momento. Era o fim de um conflito que devastou nações e redefiniu para sempre a geopolítica internacional, bem como os limites da crueldade humana. A ocasião é comemorada de modo duplo: na Europa Ocidental, 8 de maio consagrou-se como o “Dia da Vitória”; na Rússia e países do antigo bloco soviético, o 9 de maio marca a derrota definitiva da Alemanha nazista. O calendário pode divergir, mas ambas as datas condensam um consenso inescapável: ali terminava o maior pesadelo já vivido pela humanidade, um trauma coletivo cujos ecos reverberam no presente.

Mussolini, Hitler e a ‘doença’ nazifascista. Os últimos dias de abril de 1945 foram como um prelúdio fúnebre para a queda do Terceiro Reich. Em 28 de abril, Benito Mussolini, o “Duce”, foi capturado e executado junto de sua amante por partisans italianos, pendurado de cabeça para baixo em praça pública como símbolo de um fascismo derrotado e desprezado por seus próprios compatriotas.

Dois dias depois, dentro de um bunker escuro sob os escombros de Berlim, Adolf Hitler selou seu destino e o de sua ideologia suicidando-se, acompanhado de Eva Braun. O suicídio de Hitler não foi apenas um ato de negação frente à responsabilidade; foi a última recusa de admitir qualquer humanidade. O ditador, cujas decisões ceifaram mais de 50 milhões de vidas, preferiu escapar à justiça e do enfrentamento da vergonha diante do mundo livre. No dia seguinte à morte de Hitler, Joseph Goebbels, seu ministro da propaganda, repetiu o gesto. Antes de tomar veneno com sua esposa, Magda, assassinou seus seis filhos, sob a justificativa de que “não valeria a pena viver num mundo sem o Führer ou o nacional-socialismo”. A tragédia familiar dos Goebbels é a manifestação final daquilo que o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman denominou como a “doença moral do nazismo”: um sistema que anestesiou, até o último segundo, o valor da vida.

Berlim em ruínas. Tudo isso aconteceu sob o clamor insano da batalha de Berlim, um dos confrontos mais sangrentos da guerra. Tropas soviéticas, endurecidas após anos de combate no Leste, cercaram e invadiram a capital alemã. Por semanas, as ruas se transformaram em labirintos de destruição; civis e soldados alternavam entre o desespero e a esperança. Em 2 de maio, Berlim foi finalmente conquistada, marcando simbolicamente o fim do pesadelo nazista na capital do Reich.

Holocausto: “sem precedentes”. Caminhar por Auschwitz, Treblinka ou Dachau é visitar os alicerces do abismo. A liberação desses espaços de dor e morte revela a dimensão industrial do horror. Ao rememorar essas experiências, faço uso da reflexão do historiador Yehuda Bauer, falecido no fim de 2024, e que dedicou a vida à compreensão do Holocausto. Ele destacou que a relação contemporânea com a Shoá é, muitas vezes, superficial e repleta de clichês — “nunca mais”, “seis milhões de mortos”, “incomparável”. Bauer nos desafia a ir além: “se colocarmos os clichês de lado, o que mais podemos dizer?”. A verdade, para o autor, é que o Holocausto não foi único (pois eventos únicos não se repetem e, se assim fosse, poderíamos nos esquecer), mas sim sem precedentes — nunca algo parecido havia ocorrido, mas, por se tratar de uma ação humana, nada impede que torne a acontecer.

O aspecto fundamental do Holocausto, para Bauer, é sua motivação ideológica radical. Não se tratou apenas de expropriações nem de escravidão: era o extermínio puro, motivado por um antissemitismo assassino, institucionalizado como prioridade máxima do Estado nazista. Bauer aponta para documentos decisivos, como o memorando escrito por Adolf Hitler a Hermann Göring em 1936, no qual o Führer já justificava a necessidade de uma guerra “defensiva” contra o bolchevismo identificado de forma delirante como “judaísmo internacional”. O antissemitismo nazista, assim, não foi apenas a base do extermínio dos judeus, mas também fator decisivo para a deflagração da própria guerra.

Ao lembrarmos que, das cerca de 50 milhões de vítimas da Segunda Guerra, aproximadamente 44 milhões eram não-judias e morreram, entre outras causas, por conta do antissemitismo que orientou as decisões nazistas, nos vemos obrigados a olhar para o Holocausto não como uma monstruosidade isolada, mas como sintoma e culminação de ódios antigos potencializados pela modernidade. Ódios, 80 anos depois, tão presentes (tendo como alvo não apenas os judeus)...

Bauman: modernidade, burocracia e violência "silenciosa". É neste ponto que o pensamento de Zygmunt Bauman aprofunda e amplia nossas compreensões. Para Bauman, a Shoá foi possível não apesar da modernidade, mas por causa dela; pela ênfase, paradoxal, na racionalização, planejamento e eficiência burocrática. O genocídio foi, nesse sentido, um produto tenebroso da capacidade moderna de organizar a violência — tornando-a “silenciosa” e impessoal.

O polonês em seu visceral “Modernidade e Holocausto” alerta para o risco de desumanização que cresce sempre que se sobrepõe a “ordem” e a “eficiência” à empatia. Os judeus — elevados à condição de “outros”, de estranhos — foram desumanizados, e assim, sua eliminação tornou-se executável, sistemática, em linhas de montagem de morte. A Shoá, pois, é uma advertência de que a brutalidade pode se organizar, mascarada pelo aparato racional, e ser legitimada pela indiferença e incapacidade de enxergar o próximo em sua plena humanidade.

Apesar das críticas a Bauman — de estudiosos que consideram que sua análise subestima o papel do antissemitismo e da ideologia racista —, é incontornável a força de sua crítica à “lenda da modernidade”. Nada no mundo contemporâneo imuniza sociedades contra o retrocesso ético, e a própria modernidade pode se tornar veículo de destruição.

Lição esquecida. Oito décadas após a rendição da Alemanha, encontramos o planeta imerso em cerca de 40 conflitos armados. Governos populistas, a proliferação de discursos de ódio e de nacionalismo exacerbados, o uso da tecnologia para fomentar violência e indiferença — tudo isso ecoa os perigos diagnosticados tanto por Bauer quanto por Bauman. Contudo, globalmente, políticos instrumentalizam o passado para promover agendas atuais, diluindo a complexidade e as lições do horror em mantras vazios, direcionados a seus séquitos de adoradores.

A cada 8 e 9 de maio, nossa responsabilidade histórica vem à tona: lembrar não é cerimônia, é compromisso ético. O Holocausto, como fenômeno sem precedentes, mas não único, ensina que a história pode rimar tragicamente — se esquecermos sua advertência. “Lembramos não para honrar os mortos, mas para proteger os vivos”, disse Yehuda Bauer. Entre as ruínas de 1945 e as inquietações de 2025, devemos transformar memória em ação, conhecimento em compaixão, história em prevenção. O passado não é estático — ele pulsa, adverte e, se não ouvirmos seu eco, pode de novo se tornar presente.

Oitenta anos depois, não estamos livres do perigo. Sequer aprendemos muito; talvez façamos questão de esquecer. E é nesse ponto, como professores e aprendizes da memória, que reside nossa maior responsabilidade.