Com a chegada de março, inicia-se o movimentado circuito artístico de 2025 nos espaços institucionais da capital. Nas próximas semanas, inauguram-se individuais de artistas em plena atividade, retrospectivas de nomes históricos da arte gaúcha e a publicação de livro de arte – algo que tornou-se raro nos últimos anos. Também vislumbra-se mais uma edição da Bienal do Mercosul, que traz como destaque o circuito “Portas para a Arte”, com o objetivo de divulgar artistas e espaços locais, em excelente iniciativa.
Este contexto começa na próxima terça, 11 de março, no recém-criado Museu de Arte do Paço, sediado no Paço dos Açorianos, sede histórica da Prefeitura de Porto Alegre, com a inauguração de “Homo Machina Reloaded”, individual do escultor Paulo Favalli (Porto Alegre, 1974).
O artista, autodidata, destaca-se pelo domínio do desenho e da modelagem figurativa, talento que está em conexão com sua outra atividade profissional, a de cirurgião plástico. Em paralelo aos primeiros anos de medicina, Favalli começou a modelar esculturas e vertê-las ao bronze, com a sua primeira obra concluída em 2008. O cirurgião, assim, seguiu “duplo ofício”, expressão do escritor e médico Nilson Luiz May, situação que ocorre com médicos, advogados e outros profissionais liberais que se destacam, tão ou mais significativamente, na literatura (Moacyr Scliar, Dionélio Machado, Cyro Martins, etc.), escultura (Paulo Aguinsky) e pintura (Glauco Pinto de Moraes, Ricardo Giuliani, etc.).
Com a sua primeira individual no Margs, “Homo Machina” (2019), o meio de arte tomou por conhecer o particular gabinete de anatomia high tech de Favalli. Em seguida, uma versão estendida da mostra inaugurou a Casa da Memória Unimed Federação/RS. Em razão da atividade de curador que acompanha mais de perto a alguns artistas, desde o início de 2018 eu passei a acompanhar o escultor Favalli e a vivenciar seus processos conceituais e técnicos, seu desenvolvimento escultórico e novas peças. Entre as realizações do artista que assisti pari passu, cumpre destacar o incrível Memorial da Gratidão – “A Esperança de Pandora”, erigido em homenagem aos médicos e demais profissionais da saúde que perderem a vida em trabalho durante a pandemia, obra pública inaugurada em 16 de dezembro de 2021, na sede da Associação Médica do Rio Grande do Sul.
A produção de Favalli, desde cerca 2015-2016, fixou-se a partir de seu interesse em ciência e cinema Science Fiction. Suas criações anatômicas de partes do corpo humano, fundidas em bronze, passaram a integrar-se a elementos tecnológicos, pelo recurso duchampiano da apropriação de itens industrializados (analógicos e digitais). Assim, à carne de bronze e seus músculos e ossamentos mesclam-se componentes high-tech, descartados ou em pleno funcionamento de hardware e software, como telas de LED com conteúdo textual. As obras constituem-se dessa maneira pelo objetivo de criar um mundo cibernético, a projetar combinações anatômicas com componentes robóticos, em que o artista elabora uma ficção científica plástica, em situações especulativas que exploram cenários imaginários, caminhos ou descaminhos científicos, tecnológicos, e suas repercussões na sociedade: excelência artística, criatividade e pensamento crítico para refletir sobre os limites da ciência e os desafios da humanidade.
“Homo Machina Reloaded”, como o título da presente exposição enuncia, segue o artista em seu universo particular conceitual e criativo, em trilogia por ser a terceira mostra no caminho, em nova e surpreendente versão, desdobrada em novos materiais, linguagens e assuntos. No Museu de Arte do Paço serão apresentados dez trabalhos, no principal espaço da instituição, a Sala Aldo Locatelli.
No plano dos novos materiais e linguagens, Favalli passa a utilizar a terracota. Esta é mais uma técnica tomada da tradição artística, a modelagem em argila e a queima em diferentes temperaturas e acabamentos cerâmicos. Outro movimento do artista agrega linguagens visuais e sonoras. Esculturas com vídeo e informações textuais especialmente produzidos que Favalli pesquisa, elabora e fantasia. Os textos informativos, ficcionais e poéticos tomam forma como recursos gráficos que integram as obras não como elementos descritivos, mas como componentes artísticos das esculturas. Acrescentam-se, igualmente, obras com sons ambientais compostos para os trabalhos que agregam este recurso.
O desdobramento mais impactante em sua obra é a realização de um trabalho ambiental em jogo com a tradição museológica, a principal peça da exposição, para a qual a museografia da sala converge para este ápice. Trata-se da instalação “Homo: Aurora e Crepúsculo” (2025), que nos transporta a uma situação de museu de ciências naturais ao apresentar a origem e o “destino” do ser humano em projeção intelectual (gráficos textuais) e plástica (esculturas) do artista para discorrer sobre a primeira e a “última” das espécies de nossa linhagem, Homo Habilis e “Homo Cyberneticus”.
Das esculturas, de fato, maiores descrições constituem-se em spoiler. Não é justo aqui que antecipemos sobre aspectos projetados para o impacto e a sensibili-zação do público, in loco, como deve ser a apreciação da arte. Mas cumpre registrar que “Homo Machina Reloaded” é fruto de substancial realização, sob financiamento privado de empresas, instituições e pessoas físicas. O esforço colaborativo para a realização dos trabalhos de Favalli contou com a participação de inúmeros profissionais na execução das complexas peças em fundição, programação e instalação de hardware e software, processos cerâmicos, design gráfico, estruturas, trilha sonora, etc. Uma produção com projetos museográfico e luminotécnico para proporcionar ao porto-alegrense e visitantes uma exposição que inspire reflexões sobre a sociedade, não por meio de discursos, mas por meio de obras de arte significativas.