Caderno de Sábado

Humor, uma arte de ver, viver, conviver e comover

Escritor Breno Serafini detalha em artigo para o Caderno de Sábado o seu mais recente livro “Humor em Tempos de Cólera”

Gregório Duvivier que estará em outubro com o espetáculo "O Céu da Língua", na PUCRS, e suas crônicas são objeto de análise de Breno Serafini, em "Humor em tempos de cólera: a crônica de Gregório Duvivier e o (des)governo Bolsonaro'
Gregório Duvivier que estará em outubro com o espetáculo "O Céu da Língua", na PUCRS, e suas crônicas são objeto de análise de Breno Serafini, em "Humor em tempos de cólera: a crônica de Gregório Duvivier e o (des)governo Bolsonaro' Foto : Adriano Escanhuela / Divulgação / CP

Caminhar juntos nos faz mais esperançosos. Há pelo menos 10 anos, tenho convivido e trocado ideias com o psicanalista Abrão Slavutzky sobre o quanto o humor serve como um bálsamo para o cotidiano. Desde o generoso prefácio que escreveu para o meu livro “Coloríssimo” (AGE, 2016), sobre Luis Fernando Verissimo, partilhamos palavras, chistes e algum sarcasmo. Da mesma forma, da leitura de seus livros Seria trágico se não fosse cômico (Civilização Brasileira, 2005) — em conjunto com Daniel Kupermann — e Humor é coisa séria (Arquipélago, 2013), confirmei que o humor é uma forma de ver o mundo com os olhos livres, um jeito de viver.

Emparceirados desde então, no espírito do meu livro “Millôres dias virão” (Libretos, 2013), sobre o multiartista e livre-pensador Millôr Fernandes, resolvemos fazer uma homenagem que perenizasse a criticidade e a irreverência do ipanemense e Guru do Meyer no mês de seu aniversário. Fazendo jus ao espírito do humorista, a partir de uma paródia do próprio autor, que, do nome do jornal britânico Daily Mirror, criou a seção Daily Millôr, invertemos o trocadilho e instituímos o Millôr Day, um dia pra louvar a festa, a delícia e a alegria de estarmos vivos.

Agora, com o lançamento de meu livro “Humor em tempos de cólera” (Parangolé, 2025), em que cotejo os comentários das crônicas de Duvivier com as notícias da imprensa durante o governo Bolsonaro, fecho uma tríade sobre humor brasileiro e política. Se antes o assunto era o primeiro governo democraticamente eleito pós-ditadura pelos olhos de Verissimo, ou a percepção esperançosa de um novo Brasil a partir da abertura política sob a lente de Millôr, agora temos uma análise vinculada aos ‘haters’ das redes sociais e de uma pandemia de Covid-19 que tirou a vida de 700 mil brasileiros, servindo o título também para uma paródia ao livro de Gabriel Garcia Marquez, trocando ‘amor’ por ‘humor’.

Conforme diz Abrão, embora se possa pensar que o humor é uma arte de viver em tempos agradáveis, leves, em que tudo vai muito bem, não é bem assim. Charles Chaplin criou seu personagem Vagabundo, em 1914, ano da Primeira Guerra Mundial; e seu filme de maior sucesso, “O Garoto”, foi feito em 1921, três anos depois dessa guerra de milhões de mortos. Já na Segunda Guerra, nos terríveis campos de concentração e de extermínio foi possível o humor, como uma forma de resistência. Vemos isso, inclusive, no filme A vida é bela, dirigido e estrelado por Roberto Benigni, em que um pai amoroso cria um mundo de fantasia para proteger a si mesmo e a seu filho, como forma de sobreviver ao horror. Ou ainda como uma arma na luta contra o desespero, como escreveu o psiquiatra Victor Frankl, que esteve preso em Auschwitz. Foi nesse campo que propôs a um colega de infortúnio que a cada dia se inventasse uma piada relacionada à liberdade e à volta à casa. Esse truque, também um jogo criativo, foi uma tentativa de enfrentar a morte diária para manter a esperança. Conseguiu, assim, resistir e sobreviver para escrever em seu livro de maior sucesso, Em busca de sentido: “O humor constitui uma arma na luta pela autopreservação, ele cria uma distância e permite que a pessoa se coloque acima da situação, mesmo que seja por alguns segundos”.

E o riso vem sendo estudado nas últimas décadas, recuperado a partir das obras de grandes pensadores, como Aristóteles, Freud, Bergson, Bakhtin e muitos outros. O próprio Umberto Eco recupera, em “O nome da rosa”, o que teria sido o terceiro livro (perdido) de Aristóteles, depois da Poética e da Tragédia, a Comédia, incluído no Índice dos Livros Proibidos da igreja da Idade Média, tal sua irreverência. Aliás, é do filósofo grego a frase “O homem é, por natureza, um animal político”, que encontra uma resposta jocosa em Millôr Fernandes, que diz: “E é rindo que o homem mostra o animal que é”.

Diante de tudo isso, uma vez perguntado por Abrão sobre o porquê da escolha de Duvivier para fechar a trilogia, respondi que, tirando Henfil, uma referência extremamente importante, mas já pretérita para as novas gerações, hoje Duvivier é o autor que mais pensa com versatilidade e vigor a própria brasilidade. Assim, depois de muita reflexão, e de uma pesquisa que se estendeu por anos, observando o trabalho de Gregório em atuações no cinema, no Porta dos Fundos, na crônica e na literatura infantil, e, principalmente, no teatro, encontro uma produção que é uma caixa de espelhos em que o humor não se acaba em si. Na verdade, é um pretexto ou uma forma de/para falar de coisas sérias de um jeito mais leve, sem, com isso, se eximir de convicções e posicionamentos.

Duvivier encontra assim um meio de invadir corações e mentes e, brincando, fazer pensar. Além disso, depois de analisar as dificuldades por que passava o país na peça Sísifo, que coisa mais original pensar a nossa língua com um sentimento de pertencimento pátrio. É o que faz o sucesso de sua nova peça, “O Céu da Língua”, em que ardilosamente, de forma divertida e com muito vigor, verte os muitos portugueses (e até pretugueses), recuperando um sentimento de orgulho de dois países que nem sempre se permitem assim sentir. Já dizia Caetano Veloso, lembrando Fernando Pessoa: “Minha pátria é minha língua”.

E assim como Duvivier escreveu no prefácio, dizendo que o meu livro “fez perceber que estávamos juntos, tinha uma multidão que textos podem ter ajudado a aglomerar”, mesmo na pandemia, afirma: “Essa, sim, é a glória do autor: encontrar companheiros de solidão”. Transponho essas palavras para saudar o generoso Slavutzky, que sabe que, mesmo nos momentos de infortúnio, teremos sempre alguém a nos estender a mão, dado que sobram pessoas que exercitam e vivem a “serumanidade”, um conceito tão caro a Duvivier. Quem ri melhor não necessariamente é quem ri por último, e sim aquele que, como na roda do chimarrão, gargalha ou sorri e contagia a quem está do lado, irmanados pela cumplicidade do bom humor.