Entendo que é bastante significativo o fato de o poema de abertura de “Irmão robô” (2024) se chamar “Discurso”, tanto para o projeto do livro em questão, quanto para os mais recentes lances textuais levados a efeito por Ricardo Silvestrin. Sem que isso se configure em uma tendência decisiva no percurso poético do autor, me parece inegável que o traço estilístico da brevidade tem cedido lugar a andamentos mais largos. Se tal tendência se consolidará, não tenho como afirmar, nem pretendo me comprometer com essa previsão, inclusive, porque a trajetória escritural de Silvestrin envolve as mais diversas realizações compositivas a partir da palavra. Conhecemos o autor que se metamorfoseia em dramaturgo, em poeta, prosador, músico, letrista, ensaísta, tradutor. E em cada uma dessas personae ele tem se revelado competente e inventivo. Então, há chances de que mais adiante, em outra circunstância, o poeta venha a surpreender o crítico ou, no caso, o resenhista.
Recordo que na ocasião do lançamento de Typographo (2016), afirmei que em vários poemas de Silvestrin, é possível identificar um tipo de admoestação irônica, risonha consigo mesma, que, à contrapelo do rumor contemporâneo adverso ao pensamento, pretende com isso desentranhar da parcialidade de um cogito (a ideia excessiva de que o poeta suporta sozinho sobre os ombros o mundo do pensamento), a necessidade de um cogitamus (a noção de que a interpretação da experiência é uma empresa coletiva). Intrinsecamente socrática, a poesia de Ricardo Silvestrin é adversária de leitores preguiçosos no que diz respeito à festa do intelecto. Um leitor que não dança também é de causar desconfiança.
O que sei é muito pouco.
O que não sei é mais,
é minha verdadeira
riqueza, meu tesouro.
Mas de nada me serve
este saber que não
sabe, ou ressabiou-
se de seu não saber.
Contudo, talvez o que esteja acontecendo com a poética de Ricardo Silvestrin não seja propriamente uma gradual substituição da síntese pelo discursivo e a demora que lhe é constitutiva. Acredito que o autor anda, na verdade, mais filosofal do que discursivo. A logopeia (a dança de estilemas filosóficos entre os ritmos do poema) pressupõe o uso de mais palavras, de mais circunvoluções do pensamento. Evoco apenas o nome de Orides Fontela para representar a exceção a esta regra. Há também as brevíssimas meditações do haikai, as elipses e os vazios, mas, de todo modo, a poesia metafísica apresenta uma ocorrência maior de encadeamentos e conectivos lógicos.
A metáfora de Machado de Assis, segundo a qual a cabeça é um “bucho ruminante” cobra ao poeta Ricardo Silvestrin a disposição para cadências enunciativas, argumentos que se resolvem em enjambements, ideias que subsomem em assonâncias, juízos que podem ser suspensos à luz do canto. Com a palavra, o robô que discursa aos iguais e aos desiguais,
Para isso, antes de qualquer coisa,
será preciso aprender
a criar uma convicção
e, a partir desse protótipo,
criar outras tantas.
A inteligência como capacidade e aprendizado. A convicção sem órgãos do robô. Enquanto isso, Silvestrin chama a nossa atenção para uma capacidade desenvolvida no trato com a linguagem, a saber, a inteligência para desaprender enquanto uma sorte de capacidade poética interessada em inventar novos modelos (protótipos?) de sensibilidade.
Um cachorro pensativo pela madrugada,
a pedra solitária,
a raiz da árvore cada vez mais funda.
Tudo fala
e, mais,
nos escuta.
Tudo fala? A pesquisar. O que fala nos poemas de “Irmão robô” não se atualiza em mensagem a respeito do que quer que seja. Qual a mensagem do livro? Indaga Jorge Fróes, na orelha para o conjunto. Resposta: nenhuma. A recusa ao texto que pode soar como mensagem é a própria mensagem, a admoestação irônica, o piparote do bucho ruminante. O dissenso da comunicação poética e sua música serpentina são reiterados em cada poema do livro. A relação divertida com o negativo põe em questão a panaceia da positividade que almeja um mundo de calma, porém sem alma, isto é, em harmonia.
Se a pessoa fosse oca,
mais precisamente,
se não tivesse um pensamento,
se entenderia com qualquer outra,
ou, o mais correto,
não haveria entendimento
nem tampouco desentendimento.
Por fim, não tenho nada a dizer sobre o suposto tema de fundo do livro, a querela contemporânea a respeito das vantagens ou desvantagens da inteligência artificial. O monólogo não-humano sobre os limites, as suntuosidades e as derrocadas da agência humana, são bem reiterados por meio de uma infinitude de discursos que vão desde o sagrado até o artístico-literário, passando obviamente pelo filosófico-científico. E todos eles são mais ou menos apocalípticos, isto é, anunciam de maneira quase devota ou proselitista o fim de uma coisa e a inauguração de outra. São as ficções do Fim, segundo o crítico Frank Kermode. Entretanto as mudanças, as passagens, não estão por vir, elas são imanentes. Como canta o poeta, por estarmos apoiados sobre placas tectônicas “Nossa base é delicada./ O sol em tempestades envia plasmas./ É preciso aferir (para não ferir) o peso de cada palavra”.