Liev Nikoláievitch Tolstói (1828-1910) apresenta importantes ligações com outros nomes da literatura russa, seja pelas influências recebidas de Púchkin, Gógol e Lérmontov, seja pelas estreitas relações com Korolénko, Tchékhov e Górki, além de estar atento à prosa de Nicolau Leskov (que, na década de 1930, foi destacado por Walter Benjamin). As primeiras obras de Tolstói, “Infância” (1852), “Adolescência” (1854) e “Juventude” (1856), abrangem a confissão pessoal, e participação em guerras no Cáucaso e Crimeia, “Relatos de Sebastópol” (1854-55), quando seguia carreira militar. A partir da desistência da carreira, Tolstói investe na literatura e em temas e práticas relacionados à educação e concentra-se nos problemas existenciais, sociais e filosófico-religiosos do homem russo. Tolstói idealiza uma sociedade (similar à apresentada em “Os Cossacos” – 1863) em que todos desfrutam do mesmo plano de igualdade, investe numa variante de temas como o painel da vida russa, a guerra, o adultério, a morte etc. e amplia a rede de interesses e jogos psicológicos que confirmam o destino dos protagonistas e o cenário da existência humana. Destaque, também, para “Dois Hussardos” (1856), pois tanto o velho Conde Fiódor Ivánitch Turbin como o seu jovem filho Conde Turbin representam duas gerações que espelham, no subtexto, comportamentos da vitória sobre Napoleão em 1812 e o fracasso russo na Guerra da Criméia na década de 1850.
Tolstói foi um pensador que atraiu seguidores e desafetos por sua personalidade forte e, muitas vezes, intransigente: escreve sobre a repressão tsarista (Não posso calar!, 1908), discute os ditames da Igreja (“Confissão”, 1879, e “Padre Siergui”, 1898), sugere modelo pedagógico novo (“Cartilhas”, 1872) e busca critérios para uma definição de arte (“O que é a arte?”, 1898).
Excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa, em 1901, Tolstói prega um cristianismo novo, desligado do dogmatismo eclesiástico a partir da transformação interior do indivíduo, e propõe releitura dos Evangelhos. As crises literária e filosófica serão espelho na construção de seu romance “Ressurreição” (1889-1899). O Príncipe Dmítri Nekhliúdov seduz e engravida a órfã Ekatierina Máslova. Nekhliúdov vai para a guerra. Máslova termina num prostíbulo. É acusada de envenenar o comerciante Smelkóv. É condenada, embora sem culpa. Um dos jurados é Nekhliúdov, a quem ela não reconhece. Inicia, então, a recuperação moral de Nekhliúdov.
II
Tratar de Tolstói é tratar de “Guerra e Paz”. O romance engrandece a força dos homens e faz com que o emergir da história venha a ser fraturado. Da história conhecida como oficial, surge a história com sua autonomia e força conduzida pelos personagens, sejam históricos ou ficcionais. A crítica literária recomenda que Napoleão, Alexandre I e Kutúzov não são responsáveis pela celeridade das ações históricas e políticas das campanhas de 1805 e 1812, mas, sim, que segundo o que pensa Tolstói, é o próprio homem e sua capacidade de modificar-se através de uma vontade coletiva o responsável pelo que ocorre na história da humanidade. O enredo pode ser visto como crônica significativa do destino de algumas famílias aristocráticas, com seus interesses particulares acima dos demais interesses. Sobressaem-se personagens como Pierre Bezúkov, Andrei Bolkónski, a Princesa Maria e os irmãos Rostóv. Com a guerra, Tolstói coloca os problemas de cada personagem em segundo plano, em antítese aos problemas de todos, e aponta a essência de sua obra: a individualidade em conflito com o coletivo.
Em “Anna Kariênina” (1873-1877), a trama desenvolve-se em torno da vida trágica da protagonista e seu amante, o Conde Aleksiei Vrónski, e vários pontos de vista sobre as relações humanas e as relações matrimoniais e amorosas. Anna é casada com um burocrata do Estado, Aleksiei Kariênin, sujeito alheio à vida sentimental. Do adultério, nasce uma paixão aguda e doentia, em que a cada passo mentiras são articuladas e polêmicas criadas pelo conservadorismo social. O desgaste desse amor adulterino conduz Anna a um fim trágico, e, Vrónski, punindo-se, vai para a guerra. Em contraste com a amargurada e turbulenta vida de Anna-Vrónski, Tolstói apresenta a legitimidade do amor e do matrimônio para Konstantin Liévin (seu “alter-ego”) e Kitty Cherbátskaia. Liévin é homem prático que vive no campo, mas enfrentando problemas afetivos e metafísicos busca sentido a sua vida. Kitty é mulher dócil e compreensível e de encantadora beleza que almeja a felicidade no casamento. Anna e Vrónski são os incapacitados para este tipo de amor e para a ascensão espiritual. Anna chega, deste modo, ao seu próprio julgamento, evitando simulacros emocionais. Com Anna, Tolstói está, também, a responder ao amor livre de Vera Pavlovna em “O que fazer?” (1862-63), de Nikolai Tchernichevski.
A partir de 1880, Tolstói começa a negar sua obra artística, embora escreva uma das mais importantes novelas do final do século, “A Morte de Ivan Ilitch” (1886), e a polêmica “Sonata a Kreutzer” (1889).
“A morte de Ivan Ilitch” é novela da morte de uma vida com seus mascaramentos, friezas e burocracias para relacionar-se com as pessoas certas e importantes. Os mecanismos social e familiar engessam o magistrado. Assim, sua nova alma, diante da morte, procura compreender os que mantêm uma vida mesquinha. Três abordagens sobre a vida interligam-se: a requisitada pela sociedade, dita decente, a repleta de equívocos, que se desfaz com a morte (a luz) de Ivan Ilitch, e, finalmente, a boa e natural, como a do criado Guerássim.
Em “Sonata a Kreutzer”, Pózdnichev entorpece o leitor com algumas formas de seu pensar sobre casamento, castidade, filhos, medicina, prostituição, luxo das mulheres, libertinagem aceita pelas famílias, hostilidade entre casais, amor repugnante, adultério, monogamia, poligamia e poliandria entre outras reflexões. É um dos textos mais polêmicos do autor.
O destino dos protagonistas e o cenário da existência humana é apresentado muito bem em “Kadji-Murát” (1904). Kadji-Murát é o 1º comandante de Chamil e tem muitas mortes em sua trajetória. É visto ao mesmo tempo como traidor e herói. O rompimento entre os dois (Murát e Chamil) faz com que Chamil não permita a ninguém abrigar Murát na Tchetchênia. O objetivo de Murát é vingar-se de Chamil em troca do exército que Vorontzóv lhe cederá e de governar a Avaria e a Tchetchênia, apesar de Vorontzóv (bem como o tsar russo) não crer na fidelidade de Murát. A trama vai além da perspectiva do enredo, talvez apreciado pelos acontecimentos. Tolstói, a partir de um conflito de guerra, aprofunda a hierarquia social que envolve seus personagens, independentemente de suas posições sociais. Diversos homens estão à mercê da individualidade de alguns. O destino previsto confirma-se, quando do poder de poucos, e os conceitos de heroísmo e vilania traiçoeira dispersam-se no tecido narrativo, pois, afinal, quem é o herói?
III
O Tolstói artista é o autor das várias obras apresentadas aqui; o Tolstói que termina por negar sua obra artística é o doutrinário de uma moral religiosa apoiada nos Evangelhos. Para o Tolstoísmo, em síntese, a pregação da não-violência e a busca e a valorização da bondade inerente nos homens rege e conduz a humanidade para uma espécie de união familiar. A maldade deve ser extirpada da face da terra e das relações entre os homens. O egoísmo para nada serve, e a verdade está no amor ao próximo. Separar um Tolstói do outro (o ficcional e o pregador moralista) é dificultar o entendimento deste homem que se torna nitidamente um autor do ontem, mas também do hoje, ao desmascarar muitas das idiossincrasias ainda existentes.
* Professor de Literatura Brasileira. Curso de Extensão em Língua Russa pela Ufrgs.