Caderno de Sábado

Literatura Noir no Cone Sul

O escritor, crítico de cinema e literário Julio Ricardo da Rosa analisa os livros mais recentes do gênero nos países mais ao Sul da América do Sul

"Personagem de obra lembram aqueles criados por B. Traven para o clássico ‘O Tesouro de Sierra Madre"
"Personagem de obra lembram aqueles criados por B. Traven para o clássico ‘O Tesouro de Sierra Madre" Foto : Warner Bros / Divulgação

A literatura policial nasceu nos Estados Unidos, através do gênio de Edgar Allan Poe, mas logo cruzou o Atlântico e se estabeleceu com firmeza na Europa. A França e Reino Unido encontraram cultores imediatos e o mais célebre personagem do gênero, Sherlock Holmes, nasceu poucos anos mais tarde. Nos dias de hoje ela está espalhada mundo afora, mesclada a outros gêneros e dividida em tendências variadas. Os detetives, amadores ou das forças legais não são mais o motor das narrativas. Predomina dos dias atuais o chamado “romance criminal.” São os infratores os personagens principais. O modelo desenvolvido por David Goodis e Jim Thompson produziu uma safra de autores que vem se renovando com frequência. A exceção é o "Cormoran Strike” de Robert Galbraith, pseudônimo da autora J.K.Rowlling. O modelo demorou para alcançar a America do Sul, que teve seu primeiro nome importante, Rubem Fonseca, a partir da metade dos anos sessenta do século passado. Fonseca foi um escritor maior, que superou gêneros e, de certa maneira, antecipou caminhos. Nos dias de hoje escritores de qualidade cultuam o gênero no Sul do continente e começam a ultrapassar fronteiras.

“LUZES DE NEON”, (AVEC Editora) de Rodolfo Santullo, mexicano radicado no Uruguai, conta a história de um assalto mal sucedido e a tentativa de retomada do crime pelos participantes daquele fracasso. A trama é fascinante e o autor manipula a narrativa com maestria, utilizando passado e presente sem que o leitor perceba, criando tensão e guardando o segredo do enredo até o final. Os personagens são bem estruturados, verdadeiros em suas qualidades e defeitos, humanos em virtude e maldade. Vítimas do acaso, lembram aqueles criados por B. Traven para o clássico “O Tesouro de Sierra Madre,” que John Huston filmou com Humphrey Bogart no papel principal. A violência das páginas inicias é o ponto de partida para tramas paralelas que vão se misturando até revelarem um segredo guardado por vários anos e que pode representar a redenção para os personagens. As páginas finais dão grandeza ao livro que ultrapassa gêneros e se transforma em uma muito bem acabada peça literária. Santullo é um escritor de recursos, narrador habilidoso capaz de envolver o leitor com seus personagens dúbios que ganham peso no decorrer da leitura.

“DE LONGE PARECEM MOSCAS” (Alfaguara, Argentina) de Kike Ferrari, conta o pesadelo matutino de um empresário argentino ligado ao submundo que, ao deixar o clube noturno que dirige, encontra, no porta-malas de seu carro, um cadáver. Envolvido em trapaças e crimes ele não pode recorrer a polícia e tenta se livrar daquele corpo sem deixar vestígios para retomar sua vida. Poderoso e manipulador ele se vê prisioneiro de um cotidiano que despreza, acostumado a impor medo, experimenta o temor dos menores movimentos ao seu redor. Kike Ferrari narra com frases curtas e constrói cenas angustiantes enquanto revela o passado e a ascensão deste homem comum que não teve escrúpulos para subir na vida. Não há investigação ou a presença da lei no enredo. Ferrari explora o medo, torna a escrita angustiante em alguns pontos, envolvendo o leitor no pesadelo do personagem conhecido apenas como senhor Machi. Em momento algum o autor perde o fôlego e, com uma trama enxuta, vai desenvolvendo o drama que o medo e a culpa tornam maior a cada momento. Drogado em vários momentos, tenta rechaçar as lembranças das vantagens que obteve durante o período de ditadura em seu país, das debilidades familiares, e encontrar refúgio na felicidade que imagina desfrutar. Hábil em surpreender o leitor, Ferrari ensaia vários finais antes de concluir sua narrativa com uma derradeira surpresa, que torna a trama mais fascinante. Original e audacioso em vários momentos, o livro prende o leitor na viagem infernal do senhor Machi para livrar-se do cadáver em seu porta-malas.

“AMORES FATAIS” (AVEC Editora) é um volume de histórias de crimes escrito por mulheres. “O Último Romântico”, de Fabiana Ferraz abre o volume com uma narrativa que mistura tons fantasmagóricos ao suspense, para contar a história de um matador que se envolve com as vítimas antes da execução. O conto é escrito com precisão e tem a nítida e sempre bem vinda influência de Rubem Fonseca, não pela escrita, mas pelo tipo de história. Há uma certa melancolia nos movimentos do criminoso, como alguém preso à uma maldição da qual não consegue fugir. O romantismo de alguns momentos contrasta com a conclusão envolta em uma violência gráfica que confere o impacto correto para o fechamento da trama. “Areia Movediça,” de Larissa Brasil é um típico policial brasileiro. Conta a investigação de uma dupla de policiais sobre um assassinato em um bordel. A narrativa é bruta e o ambiente sórdido. Os personagens são marginalizados sociais e os agentes da lei e parecem estar mais próximos deles do que da sociedade que defendem. Alternando lembranças da protagonista com a busca ao criminoso, a história envolve o leitor e faz a tensão crescer até o desfecho. “Brigite,” de Larissa Prado é o ponto alto do volume. A história de uma atriz famosa que, na velhice, é relegada ao esquecimento é muito bem escrita e, sem esconder nada do leitor, mantém os segredos e o suspense até o final da narrativa. Não há dubiedades e tudo é narrado com clareza, mas a construção é tão bem feita que não percebemos o que está acontecendo. A banalidade da trama esconde um drama profundo que se revela ao final, dando outra dimensão ao que foi narrado. “Ana Não Vem Mais,” de Deborah Happ fecha o volume com uma história arrastada e escrita com pretensão, sem conter suspense ou impacto. É um exercício de estilo arrastado que cansa o leitor.

“ÁMBAR”, (AVEC Editora) de Nicolas Ferraro, é um violento relato de criminosos e ao mesmo tempo um sensível estudo sobre a solidão infantil. A menina que vê chegar a adolescência foi criada inicialmente pela avó e, após a morte dela, acompanha o pai em sua vida de crimes. A ação se passa em cidades pequenas e povoados da Argentina em que os criminosos se escondem e planejam novas ações. A história é trespassada de tristeza e sofrimento e os momentos de ação carregam brutalidade e descrições gráficas. As lembranças de Ámbar, estão carregadas de amargura e suas reflexões revelam uma existência vazia e sem esperança. O breve relacionamento com um jovem não chega a se concluir mas é a partir dele que a reviravolta se inicia. Não há perspectiva para os personagens. A estrada ao final do relato é um ponto em aberto. No universo criado por Ferraro não existe expiação. Narrado com segurança, com mínimas descrições, “Ámbar” envolve o leitor desde o início com as andanças de pai e filha em busca de vingança ou fugindo de perseguidores. Uma leitura pesada mas de extrema qualidade.

“ESPERO QUE EU NÃO ME APAIXONE POR VOCÊ” (AVEC Editora), de César Alcázar é um relato que mistura suspense, mistério e humor. Aqui o modelo é a clássica história do investigador particular contratado por uma mulher para investigar a morte do marido, atirador de facas em um circo. O autor manipula com habilidade a trama recheando o relato com humor e traços de amargura. Há toques fantásticos que funcionam muito bem, como a mulher que aparece no bar, a porta no interior do trailer que funciona como uma passagem para diferentes épocas, e a alegoria com o nome do circo, uma nota de desesperança frente a uma existência que busca sentido mas sabe que é impossível encontrar. Os momentos de humor surgem sempre que aparecem os irmãos da “mulher mais tatuada do mundo” ou o acordeonista que parece tocar sempre a mesma música. O relato é recheado de referências a momentos clássicos da literatura policial, a filmes caros ao autor e a músicas de Tom Waits, que inspirou o título do relato.

* Julio Ricardo da Rosa é escritor, crítico de cinema e literário