‘Um respeito sagrado por
essa pobre coisa, o
indivíduo. O indivíduo que
permanecefiel a si mesmo
e procura contar sua
tristeza, sua maravilha
ou sua ânsia de infinito.’
Rubem Braga
Há 123 anos, a cidade de Itaqui (RS) tornou-se berço de Manoelito de Ornellas, filho de Anna Guglielmi e Manoel Pedro de Ornellas, escritor e poeta que ficou eternizado na sua obra e no coração dos seus amigos, leitores e admiradores.
Ao recuperar depoimentos de alguns amigos de Manoelito prestaremos homenagem ao escritor que levou o Rio Grande do Sul para além de suas fronteiras. Erico Verissimo e Manoelito, amigos desde a juventude, compartilharam não apenas a profissão inicial de boticário, mas as ideias literárias, o amor à palavra, além da sinceridade e da lealdade própria dos interioranos. Cruz Alta representou um oásis na vida de Ornellas no começo da sua carreira literária, pois foi lá que aconteceram os primeiros encontros dos dois escritores estreantes. Erico afirmou: “Falávamos principalmente de livros e de autores. Trocávamos impressões de leitura. Eu andava já às voltas com a ficção de língua inglesa, mas Manoelito, além de seus fortes namoros com o mundo ibero-americano (falava excelente espanhol) estava profundamente interessado em problemas brasileiros”. Para Erico, Manoelito não imita nem copia ninguém e, por isso, é um autor verdadeiro na sua simplicidade.
Athos Damasceno Ferreira, jornalista, trabalhou na Biblioteca Pública e dirigiu a página literária do Correio do Povo. Athos, que se dizia o irmão mais velho em relação a Manoelito, era incentivador e revisor de seus trabalhos. Escreveu sobre o estudo que Manoelito estava desenvolvendo a respeito da influência mourisca na cultura e nos hábitos do povo do Rio Grande do Sul. Em março de 1955, um ano antes da reedição de Gaúchos e beduínos, Athos escreveu: “Seguem as provas de ‘Gaúchos e beduínos’. Dada a premência do tempo, passei por ele de marcha batida, vendo apenas o verde geral da paisagem. Mesmo assim, a impressão foi ótima. Escreveste um grande livro. Um livro para ser discutido. Ele ficará”.
Athos Damasceno e Manoelito de Ornellas tinham, em comum, o profundo interesse pela literatura sul-rio-grandense e o amor pela cidade de Porto Alegre, o burgo, como a chamavam e onde encontravam a poesia que os seduzia.
Havia, fora da imprensa diária, um veículo de divulgação literária, onde atuavam escritores conhecidos e consagrados no meio intelectual e aberto aos novos escritores: a Revista do Globo. Inicialmente sob a direção de um homem de grande coração – o poeta, crítico e ensaísta Mansueto Bernardi, por quem Manoelito desenvolveu uma grande amizade. Foi Mansueto quem deu a oportunidade ao jovem itaquiense de mostrar, entre veteranos famosos, seu talento. Mansueto fala de literatura, de imprensa e de assuntos pessoais. Poeta e crítico, sabia avaliar as obras que lhe caíam nas mãos e sua opinião era muito considerada no meio intelectual. “‘Caminhos originais do Brasil’ e ‘Tiaraju’ (...) vieram engrandecer a cultura nacional. O segundo me agradou extraordinariamente já porque se refere a um dos afilhados prediletos do meu espírito.”
Mansueto acompanhava Manoelito, não deixando de observar o modo investigativo com que o escritor buscava elementos para seus escritos. Foi muito importante para Manoelito, pois, com sua experiência, mostrou-lhe os caminhos da cidade grande e valorizou as ideias ricas que brotavam daquele espírito idealista.
Ivan Lins, escritor fluminense, iniciou sua amizade com Manoelito por intermédio da Academia Brasileira de Letras. Lins desejava lançar o nome de Manoelito para ocupar uma cadeira na Academia. Manoelito desejava concorrer ao Prêmio Joaquim Nabuco da Academia Brasileira de Letras com a obra “Máscaras e murais de minha terra”. No ano seguinte, Lins anuncia ao escritor gaúcho: “Com uma afetuosa visita, venho confirmar-lhe a notícia de haver sido o prêmio Joaquim Nabuco, do corrente ano, conferido ao seu belo livro ‘Máscaras e murais de minha terra’”. Lins achava que o escritor das terras distantes do Itaqui merecia um lugar de destaque na Academia.
Álvaro Moreyra, escritor e jornalista, gaúcho, tinha com Manoelito uma relação fraterna e admirava Manoelito como pessoa e como escritor. Os dois falavam de suas vidas, de si e do interesse comum, que era a literatura, que os unia em uma amizade forte e crescente. Manoelito sempre que podia viajava ao Rio de Janeiro e se hospedava na casa da família Moreyra.
Álvaro Moreyra, em entrevista, no dia 28 de outubro de 1963(1), fala sobre sua vida, sua família, de Porto Alegre, de sua obra e de Manoelito de Ornellas: “É o depoimento de quem sempre o escuta, aprendendo. Apenas, eu gostaria em vez de escutá-lo entre paredes, de escutá-lo entre árvores; que a sua escola fosse, como as escolas de Platão e Epicuro, num jardim, debaixo do céu aberto”. Álvaro e Manoelito viam o mundo através da palavra.
Otto Maria Carpeaux(2), escritor e crítico literário, mantinha com Manoelito uma relação que iniciou pela literatura. Manoelito tinha especial respeito e admiração pelo trabalho de Otto e enviava ao amigo muitos dos seus textos a fim de receber uma crítica, valiosa pela inegável competência e conhecimento do escritor. A admiração era mútua, Otto afirmou: “E não vou perder ocasião nenhuma para dizer de voz alta que é o escritor e homem Manoelito de Ornellas – amizade de que me ufano”.
Guilhermino Cesar, escritor mineiro, foi muito amigo de Manoelito durante várias décadas, até que o episódio do afastamento de Manoelito da disciplina de Literatura Hispano-Americana da Universidade Federal do Rio Grande do Sul fragilizou o relacionamento. Entre Guilhermino Cesar e Manoelito de Ornellas havia uma relação de liberdade e confiança. Falavam de si, de literatura e faziam crítica às obras que escreviam. Guilhermino apreciava a obra de Manoelito: “Gostei muito de ver o êxito do teu ‘Terra xucra’. Ainda bem que o público está compreendendo o valor dessa obra, minha dileta afilhada.”
Ernani Fornari, escritor e teatrólogo gaúcho que muito cedo transferiu-se para a cidade do Rio de Janeiro, sempre manteve correspondência com o velho amigo Manoelito. Fornari percebia a nobreza inata que havia em Manoelito, virtude que o aproximava das pessoas e mantinha as amizades. Gostava de dizer: “És um amor de criatura! Positivamente, ninguém te excede em fidalguia”.
Manoelito de Ornellas e Ernani Fornari foram sempre amigos, certamente porque existia entre eles muita afinidade, não tanto quanto aos interesses, gostos e profissão, mas por laços mais fortes que os uniam em uma relação de amizade aberta e sincera.
Pedro Wayne, escritor e poeta gaúcho, natural de Bagé, passou a infância em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Quando adulto voltou para sua cidade natal para trabalhar. Foi lá que conheceu o escritor Manoelito, em suas andanças pelo Estado. Pedro e Manoelito identificavam-se pela face poética e pelo modo de ser e agir, determinado e incansável, bem como no trabalho que desenvolveram no Rio Grande em favor do Modernismo. Ele se referia a Manoelito como “meu poeta”, a quem admirava não só pela literatura, mas pela sensibilidade com que percebia o mundo e a vida. Entusiasmado com a produção literária do escritor e amigo, escreveu: “Foi, pois, com grande alegria que vim a receber, com afetuosa dedicatória o exemplar de ‘Gaúchos e beduínos’ que me reservaste. Li-o entusiasmadíssimo”. Wayne e Ornellas conservaram o jeito interiorano, franco e leal, durante toda a vida, o que lhes propiciou serem tão amigos.
Os depoimentos são testemunho das relações do escritor e comprovam que Manoelito compartilhou sua vida e sua escrita, um modo de permanência no mundo. Para ele, a palavra consiste na unidade temática que integra no seu cerne as ambivalências da obra e do escritor. A vida e o legado de Manoelito de Ornellas formam uma única figura que se delineia como uma imagem que toma formas a partir do encaixe das peças, multifacetadas, que permitem a montagem exata dos traços literários e humanos do escritor.
(1) A fonte entrevistadora é desconhecida. Consta, no Acervo de Manoelito de Ornellas (Delfos – PUCRS), apenas a entrevista com a data registrada.
(2) Otto Maria Carpeux, pseudônimo de Otto Maria Karpfen, escritor austríaco, nascido em Viena.