Caderno de Sábado

Manoelito de Ornellas: Tradição e Liberdade

Doutora em Letras, Maria Alice Braga, trata da contribuição e do legado do intelectual itaquiense para a cultura do RS e do Brasil

Filho de português da Ilha da Madeira e de uruguaia de ascendência galo-italiana, Manoelito de Ornellas foi redator do Jornal da Manhã, redator-chefe de A Federação e colaborou com o Correio do Povo dos anos 1930 a 1960. Em 1938 foi nomeado diretor da Biblioteca Pública do Estado e eleito presidente da Associação Rio-Grandense de Imprensa (ARI)
Filho de português da Ilha da Madeira e de uruguaia de ascendência galo-italiana, Manoelito de Ornellas foi redator do Jornal da Manhã, redator-chefe de A Federação e colaborou com o Correio do Povo dos anos 1930 a 1960. Em 1938 foi nomeado diretor da Biblioteca Pública do Estado e eleito presidente da Associação Rio-Grandense de Imprensa (ARI) Foto : CP Memória

No mês de julho passado, comemoraram-se os 57 anos do falecimento do grande escritor, poeta e jornalista, Manoelito de Ornellas. Para não esquecermos a bela contribuição que Ornellas deixou não só para o Rio Grande do Sul, mas para o Brasil, comentaremos, aqui, pequena parte do livro “Vozes de Ariel”, publicado pela Livraria do Globo em 1939.

Manoelito registra que, na década de 30 do século passado, o Rio Grande do Sul saía das suas últimas lutas civis, esgotado pelas sangrias dos entrechoques nascidos das diversidades ideológicas, sem uma organização social e política nos moldes das reformas universais. O caudilhismo, aos poucos, apagava-se e o Minuano trazia novos ares.

Para o escritor itaquiense, a nossa literatura, no entanto, permanecia amarrada à estreiteza do provincianismo, impenetrável às novas influências que alteravam a sociedade sul-rio-grandense.

O motivo principal da ficção consistia no encontro guerreiro das coxilhas, no imenso pampa e nos limites imutáveis das fronteiras. O Rio Grande crescia, evoluía, e o espelho da literatura sul-rio-grandense refletia o campo com seus rebanhos e o homem semibárbaro, cruzando as veredas, na ancestralidade de seu nomadismo, de boleadeiras e laços.

Pelas estradas poeirentas cruzavam carretas vagarosas com automóveis e tratores, e foi nesse ambiente que novos ventos, paulatinamente, varriam os céus sulinos. De São Paulo, ouviam-se os ecos de gritos de renovação, brados revolucionários de uma nova bandeira, com a mesma audácia e a mesma coragem daquelas que partiram, um dia, para os sertões. Era a Semana de Arte Moderna que estabelecia fronteiras do pensamento brasileiro. De um lado, o Carão, de outro, o Curupira.

Carão, ave da nossa fauna, com grito forte e atitude imponente, representa o caráter de alerta, crítica e denúncia do manifesto contra o "afrancesamento" da cultura brasileira, simbolizando a imutabilidade de ideias. Curupira é o protetor das florestas, representa a busca pela identidade brasileira e pelas raízes culturais, a vida que se inaugura e se renova todos os dias, como cantou Cassiano Ricardo. O novo como o último minuano e eterno como o pensamento.

Curupira promove e cria para o Brasil uma nova consciência e, assim, deixava-se para trás a imitação dos moldes europeus. As novas gerações chegavam para totalizar as realidades do ambiente, compreender todas as mudanças que o Brasil provocara em seus contingentes étnicos. A vida tomava novo aspecto, os horizontes eram mais longínquos, novos ventos traziam eflúvios de liberdade e natureza, vencia-se pelo pensamento.

Manoelito de Ornellas destacou-se por seu admirável trabalho de história e incomparável lavor literário. Refinado artista da palavra que transborda emoção em cada verso, um escritor apaixonado pela terra nativa, pela querência, pela tapera e com profundo desejo de mudança em busca da liberdade.