Caderno de Sábado

Maquiavel Aqui e Agora

Alcides Mandelli Stumpf* reflete neste texto sobre a atualidade dos pensamentos do italiano considerado o pai da ciência política

Ilustração de Maquiavel
Ilustração de Maquiavel Foto : Arte Leandro Maciel

O italiano Nicolau Maquiavel, diplomata, político e pensador italiano escreveu “O Príncipe” no ano de 1513. O livro só foi publicado em 1532, após sua morte, que aconteceu em 1527.

Polêmica desde sua concepção, a obra, condensada em um pequeno volume, já figurou no Index de livros proibidos da Igreja Católica em 1959. Alguns entendem que prega más práticas políticas; outros, que simplesmente retrata o que realmente acontece nos bastidores do poder, seja este exercido em qualquer nível, desde o mais modesto empreendimento até países ou movimentos geopolíticos.

Embora o autor seja considerado o pai da ciência política, “O Príncipe” trata essencialmente da natureza humana. Bastam algumas frases, que mais parecem presságios, para entender a atualidade da obra e sua vasta utilidade tanto na seara pública, quanto na vida privada. Ensina, por exemplo, que quando uma pessoa evita ou ignora a competição, ela cria acomodação e passividade, qualidades que logo irão obrigá-la à submissão.

Maquiavel observou as atitudes dos líderes de modo isento das teorias políticas, religiosas e filosóficas de seu tempo. Concentrou-se na pessoa do Príncipe ou líder político, com rara perícia e perspicácia, de modo que sua compreensão de mando permanece em um patamar atemporal.

“Existe uma distância tão grande entre como se age e como se deveria agir, que aquele que despreza o mundo real para viver num mundo imaginário encontrará antes sua ruína do que sua salvação.”

Também observou que as regras, para os poderosos, valem de acordo com as circunstâncias, e deixam de existir quando essas desaparecem. A lealdade unilateral funciona como lei: “Um vencedor não quer aliados suspeitos com os quais não pode contar nos momentos de adversidade”. Além disso, ensina que o Príncipe deve aconselhar-se apenas quando quiser e não quando os outros queiram, e deve desencorajar a todos de fornecer-lhe conselhos ou palpites não solicitados. E arremata: “O Príncipe que depende de muitos, não costuma ter sucesso”.

Passados mais de quinhentos anos, as práticas descritas e a metodologia aplicada permanecem as mesmas, vivas e fagueiras, sendo exercidas nos palácios, gabinetes, escolas, empresas ou em qualquer organização institucional. Como bem diz o surrado ditado popular. “Manda quem pode, obedece quem precisa”; ou igualmente sua variante tão gasta quanto útil: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Particularmente no Brasil, escândalos - invariavelmente impunes - parecem brotar da terra a cada dia qual inço, contaminando com falsidade, escárnio e infinita demagogia a ainda verdejante democracia nativa, que rapidamente deteriora-se em pútrida decomposição.

Assim, ao conhecer “O Príncipe” temos a oportunidade de ter uma ideia mais aproximada de como funcionam as engrenagens do Sistema, suas ramificações, metástases e sua desenvoltura nas altas esferas. Sem alguma noção do mecanismo, não temos como entender o movimento, participar do jogo, ou saltar fora do imundo tabuleiro, para nos defender das maracutaias, tramoias ou trambiques urdidos pelo grande manipulador.

Portanto, ler Maquiavel permite compreender melhor as estratégias dos graúdos e nos defender de suas injustiças e armadilhas, agir com mais coragem ou cautela perante a ordem instituída - que anda um tanto desorganizada e totalmente destituída de ética ou bom senso.

Nos lembra bem Maquiavel: “Se o acaso determina a metade de nossas ações, ainda assim nos resta a outra metade para controlar”. E há sobejas e sobradas razões para não permitirmos que a safadeza vença mais uma vez, deixando que a sociedade afunde definitivamente na lama movediça da corrupção infinita e devastadora.

“Os homens mudam de senhor com prazer, pois acreditam que melhorarão; tal crença os farão tomar as armas contra o antigo chefe, cometendo um erro, pois veem, depois, com experiência que pioraram.”

Por último, devemos entender que a grande mudança se aproxima, porque “é fácil persuadir o povo; difícil é manter a persuasão”. Assim sempre foi e assim para sempre será.

*ALCIDES MANDELLI STUMPF é médico e escritor. Presidente da Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado (BPE).