Caderno de Sábado

Mário Pirata e a esquina do Brique da Redenção

Ativista cultural e das Artes, o professor de teatro Hamilton Braga lembra a passagem de um ano da morte do poeta brincadeiro, ocorrida em julho de 2025

Com Mário Pirata, as Feiras de Livros passam a entender que é necessário cativar novos leitores. Foto: Marco Nedeff / Divulgação / CP
Com Mário Pirata, as Feiras de Livros passam a entender que é necessário cativar novos leitores. Foto: Marco Nedeff / Divulgação / CP

A esquina do Brique da Redenção, no encontro da José Bonifácio com a rua Vieira de Castro, hoje tem nome: Mario Pirata. A proposta do vereador Jonas Reis, a partir da sugestão de artistas da cidade, concretiza o significante para um local onde, durante vários anos, o poeta, arte-educador, amigo de todos e não por acaso de todas as crianças, por meio das “Rodas de Poesia”, transformou lugar e instante em palco e poesia.

Destacar essa esquina do Brique da Redenção é resgatar a história cultural de Porto Alegre, desde o refrão “Poesia na Roda, ÊÊÊÊ Quem chegou é Bem Chegado, Umbigada em Você, por dar o Seu Recado”, reverenciando o ativista Oliveira Silveira, que instaura, na década de 1980, no segundo andar do Mercado Público, encontros – Rodas de Poesia – para cantar e debater a cultura afro-brasileira.

A “poesia de rua”, apresentada em bares, em praças públicas, em esquinas, na segunda metade dos anos 80, passa a se organizar cada vez mais; há a Cooperativa de Poetas – a Coolírica, momento em que vários poetas, principalmente de Porto Alegre, passam a editar seus livros. Mário Pirata, com seu pandeiro, com sua fala cantante, tal como em uma festa, atrai o olhar e a atenção dos transeuntes e, assim, outros poetas passam a se sentir à vontade para recitar seus poemas e apresentar seus livros, assegurando o que Antonio Candido propõe enquanto sistema literário: há poetas, há um mercado editorial, há um público leitor – e a poesia roda.

Com Mário Pirata, as Feiras de Livros passam a entender que é necessário cativar novos leitores; tanto em relação a outras aventuras enquanto leitor quanto em relação à idade desses leitores. Brincadeira é coisa séria!

Mário Pirata marcou presença nas ruas de Porto Alegre. Destacar seu nome no Brique da Redenção é continuar a Roda. Não por acaso, Demétrio Xavier, o músico, referência no resgate das culturas do Sul da Terra, no dia em que a placa com o nome de Mário Pirata é descerrada, lembra daquelas comparações inusitadas: a data de nascimento de Mario é a mesma da morte de Garcia Lorca. Então, a la Federico, indaga “qué voy a decir yo de la Poesia?” e a la Mário poetiza: Eis que o rabo torce a porca! /Mario é uma pira de prata / Acesa na exata data /Na qual apagaram Lorca/ (Qual apagaram! não creia.../ Bruxo do fogo na mão / Lorca é quem sopra o tição /Pra que outro bruxo leia).

Há muitas diferenças – e coincidências – entre Lorca e Pirata, mas ambos, alegres, bons leitores, bem falantes, agregadores, não só gostavam de atuar em coletivo, como deram sua vida à coletividade. Lorca criou o La Barraca – teatro itinerante que percorria povoados rurais da Espanha levando as obras clássicas do Siglo de Oro espanhol. Era admirado pela beleza e inteligência de sua fala. Mário se faz presente em inúmeras cidades do Rio Grande do Sul e de outras plagas, alegrando crianças e adultos em escolas, praças, feiras de livros, ruas. A todos cativava com seu pandeiro, com seu gingado, com sua poesia.

Que a esquina Mário Pirata continue sendo um local de encontro para debates, poesia, muita alegria e revoluções – e que Lorca e Mário continuem presentes: Viva LORCA! Viva MÁRIO!