Mesmo tendo deixado o Sul, meu terrum, não cesso nem canso de receber boas novidades de lá vindas, especialmente do Rio Grande do Sul, o estado mais literário do Brasil.
Não por acaso, viveram e vivem ali alguns dos escritores referenciais de nossas letras, dos quais um dos mais lembrados ainda é Erico Verissimo, que foi também editor na Editora Globo, desde há algumas décadas transferida para o Rio de Janeiro, mas sem o brilho dantes, quando estava em dia com a boa literatura, fosse vizinha ou distante.
Muitos dos escritores que se tornaram indispensáveis em tantos países foram publicados por aquela casa editorial. E ela teve dignos sucessores nesta arte de editar, algumas das quais vi nascer quando ali morava, como foi o caso da L&PM, da Mercado Aberto e de algumas menos lembradas, mas igualmente boas casas editoriais, como as editoras universitárias e a Sulina, às quais juntou-se a Bestiário, de presença marcante em nosso panorama editorial.
Por que uso este preâmbulo para comentar um livro de poesia que muito me encantou? Porque atualmente podemos ser lidos “urbi et orbi” quase que instantaneamente, por via eletrônica, para falar de um livro singular e precioso que é o “Pequeno Inventário das ausências” (Porto Alegre, Bestiário, 2025, 118 páginas). Marli Silveira é herdeira deste contexto, assim como o é também o seu editor Robert Schmitt-Prym, escritor de nossos melhores, com uma vida dedicada a livros, autores e leitores nesta Galáxia Gutenberg brasileira que infelizmente se apequena.
Precede esta sua coletânea uma apresentação necessária e acho que a escolha de Sergius Gonzaga não poderia ser mais apropriada, principalmente por este olhar panóptico que poucos como ele podem ter, dedicado que é a estudar, ensinar e administrar projetos que muito têm beneficiado o povo do livro.
Sergius Gonzaga viu nestes versos de Marli Silveira as marcas barrocas indeléveis, que de resto são evidentes no Rio Grande do Sul em outras áreas também, como constatei deslumbrado a primeira vez que, morando, estudando, ensinando e escrevendo em Ijuí (RS), passei a visitar os Sete Povos das Missões e depois atravessei as fronteiras para ver as dezenas de outras cidades semelhantes no Uruguai, no Paraguai e na Argentina.
Lucio Carvalho segue caminho semelhante ao ver em seus versos “a oportunidade incomum de conjugar-se a contemplação poética e a reflexão filosófica”. Tal como fazia de modos esplêndidos e diferenciados o barroco, acrescentemos.
“Todos os dias, / dos anos desacontecidos, / morri mais um pouco”, diz Marli Silveira em “Ruído”. E logo adiante dirá, talvez destes mesmos dias, que “viver é medir solidões” e que “a realidade é um esforço da ausência que cansada de não parecer nada / engole o tempo”.
Autora também dos bons ensaios reunidos em “Corpos Ardidos”, publicados por esta mesma editora, Marli Silveira já consolidou seu nome como poeta referencial das letras gaúchas e procede de Santa Cruz do Sul, uma de nossas cidades de presença marcante na literatura brasileira e não apenas por Lya Luft, uma vez que às vezes um nome apenas acaba por servir para encobrir os outros em vez de estender seu sol sobre os colegas de ofício.
Fui colega de classe de Lya Luft na Ufrgs, quando ambos fazíamos o mestrado lá. Ela, empenhada em decifrar Lygia Fagundes Telles, eu ocupado em examinar as razões de proibir Rubem Fonseca. Mas por que citar estas referências?
Bem, meu propósito é chamar a atenção dos leitores para este duplo contexto: o ambiente extraordinariamente literário de Porto Alegre e nisso semelhante a Curitiba – e ambas muito diferentes de Florianópolis sob este prisma - e o contexto do próprio povo do livro sediado no Rio Grande do Sul. Outros eram os tempos, mas será que, se fosse gaúcho, o poeta João da Cruz e Souza seria tão abandonado pelos seus conterrâneos quando foi em vida?
“Incontáveis dias afrouxam a memória / e no resto que carrego comigo / as rebarbas dos lugares permanecidos”, diz e Marli Silveira em “Paternal”, ao tempo em que “o velho chapéu de meu pai / adormecido atrás da porta, / mira o tempo das partidas”.
Devo muitos leitores de meus livros a resenhistas e jamais vou esquecer a primeira delas, sobre o primeiro livro, publicada por Jefferson Barros noCaderno de Sábado, do Correio do Povo, no longínquo 1975. E já nos anos 90, foi necessário um prefácio esclarecedor de Flávio Loureiro Chaves para que a meninada dos colégios pudesse ler meu romance “Avante, soldados: para trás”.
“Habent sua fata libelli” (os livros têm seus destinos). Que este belo livro, de edição simples e tão bem cuidada, tempere a presença forçada de alguns que aparecem na mídia por motivos extraliterários.
“Eu escrevo a dor que não posso chorar”, diz Marli Silveira. Escreva mais, Marli Silveira, conte-nos o que se passa em sua alma de poeta repleta de temas tão bem escolhidos para expressar.
* DEONÍSIO DA SILVA é escritor e professor. Doutor em Letras pela USP.