A Marli Silveira, grata revelação de escritora das boas no Brasil meridional, dedica seu livro às mulheres do Presídio Estadual Feminino de Rio Pardo, desativado em 2019, mas reinaugurado em 2022, que conta com um número de penitenciadas superior à sua capacidade, isto é, superlotado, como sói ocorrer com as prisões brasileiras.
Há outras informações complementares a propósito da sensibilidade da escritora com o sofrimento feminino, seja das vítimas dos crimes das encarceradas, seja das encarceradas gaúchas, que vêm se destacando na produção de um tipo de absorvente ecológico criado por estudantes de Engenharia da Ufrgs.
Perguntarão os leitores: tudo isso é louvável, mas o que tem a ver um livro de literatura brasileira tudo isso? Pois bem, todos os escritores deixam rastros de suas preocupações e de suas obsessões por determinados temas, permitindo-nos identificar as solertes vinculações feitas entre a verdadeira vida dos contextos e principalmente das pessoas que os inspiraram. Que nos digam romancistas como o Josué Guimarães, exilado em Portugal pela ditadura brasileira, ou, ainda antes dele, Ivan Pedro Martins, que teve seu “Fronteira Agreste” proibido pela ditadura Vargas. Os dois citados podem ser somados à maioria dos cerca de dez mil contistas surgidos no “boom” das narrativas curtas que ocorre no Brasil a partir de 1975, que revelou autores de todo o país escrevendo sobre os mais diversos temas.
Marli Silveira diz também e ainda antes que se comece a ler seus deslumbrantes e tocantes textos, com um profundo sentido do humano: “Tem dias que a palavra se quer grito, mas a dor é tamanha que ela se desajeita na boca e o silêncio perscruta o tom da violência em que estamos metidos”.
Ler “Corpos Ardidos”, diz a professora universitária Roberta Guadagnin, “é um exercício de escuta ativa e compromisso em ler essa obra construída a muitas mãos” para que “possamos, ao longo destas páginas, não apenas nos indignar, mas nos mover”.
Este norte nos permite entender melhor assertivas como esta: “O indivíduo humano é um ser precisado de ajuda também pelas suas implicações ontológico-existenciais, tornando possível a constituição de um tipo de sensibilidade social para as desventuras e desamparo dos outros”. Estas frases vêm ao encontro de consolidada escritora e psicanalista Betty Milan, de prestígio internacional, já traduzida para o mandarim e para o árabe, além do francês: “O ser humano nasce desamparado e se não for socorrido morrerá”.
As reflexões de “Corpos Ardidos” chegam num momento em que o número de encarceradas femininas ultrapassou 40.000 mulheres no Brasil e o mundo inteiro toma conhecimento de que estamos infelizmente com a maior população carcerária feminina do mundo, ficando atrás apenas de China e EUA.
Um dos mais fascinantes capítulos deste livro é dedicado ao testemunho, do qual diz Marli Silveira: “O testemunho pode se erguer de um modo de narrar que seja suportável por parte daquele que narra ou se mantém próximo. Portanto, o caráter ficcional, carregado de imaginação, se alastra na direção de um dizer aberto para possibilidades”.
Enriquece seu livro um capítulo intitulado “Testemunhos do Cárcere”, no qual uma das apenadas identificada como Damaris diz: “Como um animal que se alimenta todos os dias, no mesmo horário e não se pergunta o motivo, nem quem é, aonde vai. Apenas vou. De conferência em conferência, sem saber se é um dia a mais ou um dia a menos”.
Faz algum tempo manifestei neste mesmo espaço minha admiração pela literatura de Marli Silveira. Pois volto a endossar seu projeto literário, enaltecendo sua arte de prosear. Vigorosa, demolidora, entusiasta de ações, a escritora deu um corajoso passo adiante no rumo de quem canta o rio que passa por sua aldeia acaba por cantar algo de essencial em todos os rios do mundo.
* Deonísio da Silva, professor federal aposentado e doutor em Letras pela USP, é autor de “Avante, soldados: para trás” e “De onde vêm as palavras”, dentre dezenas de livros.